Pintor sempre apostado em desafiar os cânones da pintura, o americano Julian Schnabel (nascido em Nova Iorque, em 1951), é também um cineasta que encara os filmes como uma hipótese real, porventura surreal, de confronto com os modelos dominantes da arte de contar histórias. Para nos ficarmos por dois exemplos emblemáticos, recordemos Basquiat (1996), retrato amargo e doce de Jean-Michel Basquiat, interpretado por Jeffrey Wright, e À Porta da Eternidade (2018), um mergulho nos fantasmas de Vincent van Gogh, que valeu a Willem Dafoe uma das suas nomeações para o Óscar de melhor ator. Agora, podemos descobrir a sua realização mais recente, A Mão de Dante, produção revelada no Festival de Veneza de 2025 que esperou quase um ano para um discreto lançamento em algumas salas dos EUA — de modo ainda mais discreto, passou a estar disponível na Netflix.Convenhamos que não estamos perante um primor de equilíbrio narrativo. Podemos até usar aquela expressão nada científica segundo a qual os resultados do projeto ficam claramente aquém das potencialidades das suas ideias. Ainda assim, o “apagamento” de A Mão de Dante é significativo da dificuldade (para não dizer da indiferença) com que, por vezes, os circuitos de difusão lidam com objetos que, melhor ou pior, correm riscos criativos verdadeiramente estimulantes.Simplificando, digamos que esta é uma saga centrada nos destinos do manuscrito de A Divina Comédia, de Dante Alighieri (c.1265-1321), e na sua procura por um escritor dos nossos dias, Nick Toshes (1949-2019), autor do romance em que o filme se baseia (publicado pela Editorial Estampa, em 2006). Dante e Toshes são o espelho um do outro e surgem, aliás, interpretados pelo mesmo ator, Oscar Isaac: evoluem numa fábula em que a vulnerabilidade do trabalho artístico surge num bizarro ziguezague passado/presente; em ritmo de filme policial, Toshes envolve-se mesmo com um grupo mafioso que quer roubar o manuscrito...Construído como uma paisagem de contrastes tão dramáticos quanto desconcertantes, o filme de Schnabel possui também o espírito irónico de um encontro de amigos que, por assim dizer, se reuniram para tentar forçar os limites da verossimilhança que o cinema pode conter. Sintoma de tudo isso é a galeria de secundários que inclui Benjamin Clementine (autor da música original), John Malkovich, Gal Gadot, Al Pacino e Martin Scorsese, este numa impressionante composição do profeta Isaías..'Letras Roubadas'. Uma canção com uma história atribulada