O irlandês John Carney (nascido em Dublin, em 1972) possui o espírito dos clássicos artesãos: mais do que assinar “filmes de autor”, aquilo que o seduz é a valorização de narrativas enraizadas em modelos tradicionais. Com uma particularidade: as suas histórias tendem a integrar a música como fundamental elemento dramatúrgico. Assim aconteceu, por exemplo, em Once/No Mesmo Tom, cujo tema Falling Slowly ganhou o Óscar de Melhor Canção referente a 2006; assim volta a acontecer em Letras Roubadas, agora lançado nas salas portuguesas.Esta é, de facto, a história de uma canção — How to Write a Song (Without You) — composta pela personagem central, Rick Power, vocalista de uma banda de casamentos que continua a sonhar com a possibilidade de ser conhecido e reconhecido como compositor. O título original, Power Ballad, joga com o apelido de Rick, reconhecendo esse “poder” de uma “balada” que acaba por ser lançada por Danny Wilson, cantor pop a necessitar de um sucesso para se manter nos tops, mas omitindo a sua origem autoral (salvo melhor opinião, não parece que o título português seja uma boa ideia para lançar o filme, até porque não se trata de uma história de “letras roubadas”, mas sim do conceito global de toda uma canção que é indevidamente apropriado).A canção nasce do encontro acidental de Rick e Danny, numa noite em que Danny é convidado de um casamento em que a banda de Rick cumpre as suas rotinas — passam o serão a partilhar ideias, daí nascendo o essencial da estrutura de How to Write a Song (Without You)... Convenhamos que o desenvolvimento desta história, minimalista mas com alguma eficácia, nem sempre será o mais subtil, permitindo que o espetador vá antecipando algumas das suas peripécias (ainda que o final escape ao esquematismo mais óbvio). Acima de tudo, Carney reafirma o seu gosto em trabalhar as canções, não como fator “decorativo”, antes como matéria que se cruza com os projetos e anseios das personagens.O destaque vai, necessariamente, para os intérpretes de Rick e Danny, respetivamente Paul Rudd e Nick Jonas. O primeiro, popularizado pelos filmes do “Homem-Formiga”, continua a ser um caso de subaproveitamento dramático (lembro o magnífico A Forma das Coisas, realizado por Neil LaBute em 2003); o segundo, mais conhecido através do historial da banda Jonas Brothers, talvez pudesse beneficiar de um género musical que, afinal, deixou de existir como produção regular.