Não será exagero considerar que as pirotecnias das artes marciais de Kill Bill foram decisivas para a consolidação do nome de Quentin Tarantino como um autor deliciosamente “revisionista”, apostado na festiva reinvenção de modelos populares de espetáculo (incluindo o thriller e o western). Ora, como muitos espetadores se recordarão, Kill Bill surgiu em duas partes — Volume 1 e Volume 2, lançados em 2003 e 2004. Agora, com a estreia de Kill Bill: A Obra Sangrenta Completa (no original Kill Bill: The Whole Bloody Affair), o projeto de Tarantino surge devolvido ao seu conceito original. A saber: uma aventura da heroína encarnada por Uma Thurman, cuja dimensão épica pode ser simbolizada pela sua duração de quatro horas e 13 minutos.Kill Bill nasceu como um filme “normal”. Rezam as crónicas que, três anos depois do lançamento de Jackie Brown (1997), Tarantino começou a imaginar uma homenagem aos filmes asiáticos de kung fu, centrado na personagem “maior que a vida” de Beatrix Kiddo. Mais do que uma sofisticada especialista com uma espada de samurais, ela seria uma (quase) super-heroína, reconhecida como “a mulher mais perigosa do mundo”. Atraiçoada por Bill (David Carradine), visada pela violência dos Deadly Vipers, que Bill chegou a comandar, Beatrix vai elaborando a sua vingança...A unidade do projeto foi posta em causa pela lógica do mercado: a longa duração de Kill Bill surgiu repartida por dois volumes, sem que Tarantino desistisse de defender a ideia original de (apenas) um filme. Assim, Kill Bill: The Whole Bloody Affair seria revelado, extra-competição, no Festival de Cannes de 2004, só chegando às salas dos EUA em dezembro do ano passado. Por estes dias, vai aparecendo em diversos mercados, incluindo Portugal (a partir desta quinta-feira).Há mudanças, claro, desde o recurso a variantes de alguns planos até um maior desenvolvimento de uma cena de animação japonesa (“anime”), mas seria exagero considerar que estamos perante um filme dramaticamente diferente. A grande diferença está, obviamente, na duração, já que Tarantino preferia (e tinha boas razões para isso) que Kill Bill fosse descoberto como um acontecimento único e unificado, não como um objeto em duas partes. O que mais conta é a avalanche de peripécias de Beatrix, com o espectador a descobrir-se envolvido num mundo em que tudo pode coexistir, da alegria caricatural da banda desenhada até ao exuberante artifício da ópera — e numa única projeção.O Mago do Kremlin. O nascimento de um novo Czar.A herança de Camus, ou somos todos estrangeiros