Diz-se, por vezes, que há atores e atrizes que são também autores de alguns filmes em que participam. Não que isso signifique uma automática desvalorização dos respectivos realizadores. Em boa verdade, há um talento muito especial na disponibilidade de tais realizadores para, mais do que “dirigir” os seus intérpretes, com eles estabelecer uma cumplicidade que excede qualquer aliança meramente técnica. A americana Jessica Chastain é uma dessas atrizes, o mexicano Michel Franco um desses realizadores - o extraordinário e, em boa verdade, inclassificável filme que é Sonhos (estreia esta quinta-feira, 30 de abril) aí está como exemplo modelar.Esta é, aliás, a segunda colaboração de Chastain e Franco, dois anos passados sobre o invulgar, também admirável, Memória. Em ambos os casos, deparamos com pares, no mínimo, insólitos, impossíveis de inscrever em modelos tradicionais de dramaturgia. No primeiro, acompanhávamos a inesperada aproximação de uma assistente social e um homem (Peter Sarsgaard) com sinais precoces de demência, incluindo uma memória em que muitos resquícios se baralham ou mutuamente se excluem. Agora, Sonhos junta duas personagens separadas por um labirinto de diferenças sociais - ela, Jennifer McCarthy, é uma figura da elite financeira de São Francisco, vivendo uma existência de luxo cujo imaculado estatuto social tem como tópico dominante o patrocínio das mais variadas formas de arte; ele, Fernando Rodriguez (primeiro papel dramático do bailarino mexicano Isaac Hernández) concretiza o seu sonho de dançar nos EUA, mas está ilegal no país.. Resumir o filme é tanto mais complicado, podendo ser mesmo totalmente equívoco, quanto este não é um par romântico. Jennifer e Fernando são mesmo figuras de um enlace amoroso - com componentes sexuais muito explícitas e intensas - que, por assim dizer, desafia as ilusões românticas com que o espectador possa observá-los ou imaginá-los.Através da encenação dos poderes dos super-ricos (ou melhor, da perversa utilização desses poderes), Sonhos possui uma clara dimensão política que, estranhamente, nem sempre tem sido reconhecida, muito menos valorizada - uma das excepções que vale a pena conhecer é a abordagem de Peter Bradshaw, no jornal The Guardian, aquando da passagem do filme no Festival de Berlim de 2025. Esta é, de facto, uma crónica sobre um tempo presente em que todos os laços humanos se apresentam contaminados por componentes mais ou menos mercantis.. O efeito é perturbante, já que a possível idealização do par central vai sendo metodicamente decomposta pela subtileza de um argumento (do próprio Franco) que aposta na exposição dos subentendidos de um quotidiano de aparente estabilidade e harmonia. Assim, embora evitando explicitar a brutalidade do desenlace (filmado com a mais radical frieza descritiva), convém dizer que o modo como Fernando arrisca aproximar-se de Jennifer não é estranho a uma ambição profissional tingida de arrogância; ao mesmo tempo, a entrega de Jennifer ao seu amante mexicano está longe de ser a ilustração de um qualquer delírio de perfeição “hollywoodiano” - ela faz tudo, aliás, para não ser vista em público com ele.... As cenas em que a sexualidade contamina todos os detalhes (incluindo as palavras) do comportamento de Jennifer e Fernando são especialmente eloquentes da clivagem moral e dramatúrgica que o filme põe em marcha. Dito de outro modo: estamos muito longe do determinismo “novelesco” que envolve “amor” e “sexualidade” num pacote dramático sem sobressaltos, como se se tratasse apenas de um sistema de vasos comunicantes que a sociedade se limita a aceitar ou repelir.O filme possui a arte e o engenho de contrariar as formas correntes do nosso “liberalismo” sexual que tende a conceber - e tratar em termos de cinema - o corpo como uma entidade “gerida” pela racionalidade dos valores de cada figura humana. Tal como acontecia em Memória, Sonhos é um conto moral alheio a qualquer moralismo, capaz de enfrentar a complexidade, nem sempre apaziguadora, das relações humanas. Fazê-lo sem excluir o poder do dinheiro no interior dessa complexidade, eis o desafio que, de facto, nos obriga a repensar as ilusões de qualquer romantismo..Ser ou não ser actrizPara uma atriz como Chastain, semelhante desafio multiplica-se através da criação de uma personagem como Jennifer que escapa, ponto por ponto, a qualquer estereótipo feminino ou feminista. Ao contrário de algumas atrizes contemporâneas que, pelo menos nas suas declarações, parecem ter desistido de compor personagens, celebrando apenas os papéis que servem para passar alguma “mensagem”, estamos perante uma profissional que abraça o risco criativo, sabendo resistir a ser encerrada numa qualquer “imagem de marca”..Nesta perspectiva, Jessica Chastain encarna uma verdade expressiva que o ecrã acolhe e amplia. Na atualidade, será mesmo a mais legítima herdeira da versatilidade de uma atriz como Meryl Streep. Sem esquecer que Streep surgiu também como símbolo moderno de um património que passa por Bette Davis, Katharine Hepburn ou Gena Rowlands. Cinco filmes, cinco personagensA carreira de Jessica Chastain teve um impulso decisivo em 2011, com quatro títulos bem diferentes: Procurem Abrigo, Coriolano, A Árvore da Vida e As Serviçais - este último valeu-lhe uma primeira nomeação para um Óscar, na categoria de atriz secundária. O Óscar, como actriz principal, chegaria em 2022 graças à sua composição em Os Olhos de Tammy Faye. Eis outros cinco títulos marcantes da sua filmografia, sintomáticos de uma versatilidade expressiva e uma complexidade humana de rara depuração. 00:30 A HORA NEGRA (2012). Foi a segunda das três nomeações para Óscares já obtidas por Jessica Chastain, esta na categoria de melhor atriz. Com realização de Kathryn Bigelow (título original: Zero Dark Thirty), a evocação da operação militar para localizar Osama bin Laden depois dos ataques do 11 de Setembro resulta de um subtil cruzamento do thriller com a observação clínica da conjuntura político-moral de uma América ferida nos seus ideais. A personagem de Chastain, uma investigadora fictícia da CIA, tem como primeira inspiração a agente Alfreda Frances Bikowsky. MISS JULIE (2014) . Atriz emblemática do mundo de Ingmar Bergman, Liv Ullmann assina aqui uma notável adaptação da peça de Strindberg, capaz de transfigurar o texto teatral em “coisa” cinematográfica, numa fusão dramática de invulgar intensidade. No papel central, Jessica Chastain experimenta os limites de uma exposição perante a câmara em que as convulsões emocionais, indissociavelmente sexuais, adquirem uma transparência perturbante - se mais não houvesse, a sua composição bastaria para a colocar num lugar de excelência entre as actrizes deste século XXI. UM ANO MUITO VIOLENTO (2014). Mais conhecido por Margin Call (2011), sobre a crise financeira de 2008, J. C. Chandor assina uma espantosa evocação de 1981, ano em que, de facto, a cidade de Nova Iorque viveu uma onda de violência que, para lá da agitação nas ruas, abalou os fundamentos da sua estrutura económica. Oscar Isaac e Jessica Chastain interpretam um casal que, ao tentar manter a estabilidade da sua empresa de combustíveis, se confronta com uma rede de poderes que excede a sua área específica de intervenção — Chandor recupera os valores do mais sofisticado thriller político. JOGO DA ALTA RODA (2017). Inspirado em factos verídicos, Molly’s Game no original, este é o retrato de Molly Bloom, uma esquiadora olímpica que, na sequência de um acidente, se transformou na gestora de uma rede de organização de jogos de poker que, a certa altura, suscitou uma investigação do FBI. Com Jessica Chastain numa interpretação de subtis transfigurações físicas e emocionais, trata-se de um dos trabalhos mais brilhantes (argumento & realização) desse génio da narrativa que é Aaron Sorkin. Detalhe a ter em conta: a composição de Kevin Costner como pai de Molly. MEMÓRIA (2023). Dois anos antes de Sonhos, agora estreado entre nós, esta foi a primeira colaboração de Jessica Chastain com o realizador, também argumentista, Michel Franco. Na sua base está a relação de uma mulher, assistente social, com um homem relativamente jovem, interpretado por Peter Sarsgaard, marcado pelos primeiros sinais de demência: a encenação da sua insólita cumplicidade amorosa existe como uma proeza de contenção dramática e também uma prodigiosa reinvenção dos valores clássicos do melodrama - o filme está disponível na plataforma Filmin..'Valor Sentimental'. A magia do cinema está nos rostos.'Se eu tivesse pernas, dava-te um pontapé'. A vida em grande plano