Ivo M. Ferreira nasceu em Lisboa, em 1975. Daí que o seu filme Projecto Global, sobre a acção das FP25 (cuja fundação ocorreu em 1980), não seja uma memória pessoal, mas sim o resultado de um processo de investigação sobre uma entidade que, no pós-25 de Abril, preconizou e praticou a luta armada. Mais do que um inventário seco de factos, estamos perante uma revisitação dramática desse “projeto global” das FP25 como uma teia de gestos, personagens e ideias em que, definitivamente, a história pode e deve ser pensada para lá de qualquer noção pueril de heroísmo. Ao mesmo tempo, mesmo sem esquecer as respetivas diferenças, Projecto Global leva-nos a evocar Cartas da Guerra (2016), baseado em António Lobo Antunes, outro belo filme de Ivo M. Ferreira apostado em lidar com as nossas memórias traumáticas.Projecto Global teve a sua estreia mundial há pouco mais de dois meses no Festival de Roterdão - que balanço fazes dessa apresentação?Para mim, Roterdão envolvia duas grandes questões. Primeiro, tratava-se de saber como é que o filme funcionava para um público estrangeiro que não tivesse informações sobre todo aquele contexto histórico e político - o certo é que funcionou muito bem, saímos da estreia com um grupo de malta nova, vinte e tal anos, que viu no filme sobretudo o retrato de uma determinada juventude. Depois, havia a questão do mercado e a receção foi mesmo extraordinária, com várias publicações ligadas à indústria a elogiarem o filme - a Screen International classificou-o mesmo como “surpreendentemente exportável”.Vivemos num contexto mediático, sobretudo televisivo, em que, com grande facilidade e rapidez, questões extremamente complexas são transformadas em esquemas simplistas. Não tens receio que o teu filme possa ser tratado e enredado numa visão simplista de “prós & contras”?Simplista, sim, é possível… Seja como for, o que me interessa são as pessoas, as personagens - faço filmes para tentar perceber as minhas personagens e o mundo em que vivem. É como entrar num comboio em andamento, não perdendo o contacto com as pessoas, evitando os maniqueísmos morais. Daí que o trabalho de investigação que foi feito tenha envolvido mais, muito mais, do que aquilo que está no ecrã.A ação das FP25, isto é, os factos abordados no filme aconteceram numa altura em que eras uma criança - até que ponto, ou de que modo, esse trabalho de investigação (e, em particular, a escrita do filme) foi também, para ti, um processo de descoberta?Foi um absoluto processo de descoberta, desde logo porque era estranho para uma criança saber que havia pessoas a serem presas. Os meus pais iam explicando-me que haveria, por certo, mais prisões, dizendo-me também que a sua atividade política nunca teve a ver com a luta armada, até porque, em democracia, se querem poder, candidatem-se… Estive muitos anos para fazer este filme - aliás, posso dizer que esta foi a minha primeira ideia para um filme. Quando eu era miúdo, houve dois traumas marcantes: as FP25 e a sida. No fundo, os meus pais disseram-me: “Estamos bem, tu estás bem, mas não sabemos o que vai acontecer à nossa volta.” . Como foi, então, a génese do trabalho para o filme?Foi feito todo um extraordinário trabalho de investigação pelo historiador Francisco Bairrão Ruivo que, além do mais, vai ser publicado em livro (em maio, pela editora Tinta da China). Claro que o filme é uma interpretação completamente livre dos factos e das personagens que andámos a investigar. Ao mesmo tempo, fico feliz pelo facto de o filme ter gerado essa fonte de informação. Acredito que o cinema é, ou pode ser, também uma forma de criar conhecimento.Daí que este Projecto Global enfrente uma questão que nem sempre tem sido bem resolvida em alguns filmes portugueses. Não será a “reconstituição” da época, já que a palavra pode ser equívoca, mas a verosimilhança dessa mesma época. E quando falamos disso, podemos falar de tudo um pouco, do ambiente social e político até aos cabelos ou os automóveis…Quando se abordam ambientes deste género, diria pantanosos, tudo isso tem de ser muito bem feito, caso contrário passaria a ser uma coisa vaga - tinha de haver credibilidade naquilo que o filme mostra. Claro que se podem fazer grandes filmes com uma pessoa dentro de uma casa, mas neste caso estamos a falar de muitos cenários, de praças inteiras, de armas, carros de época, 400 perucas, um imenso guarda-roupa… e também, claro, toda a preparação dos atores. Por exemplo, a praça onde fica o banco que é assaltado resulta de uma caixa gigante que “encaixa” no edifício - quando entras no edifício, passas a estar dentro de um estúdio que fica no Luxemburgo… .Nesse contexto, como é que o ator encontra a sua personagem?Ele encontra a personagem, e eu estou lá para que ele a encontre. Sou mais comportamentalista do que psicologista e neste filme sentia que tinha de haver um conjunto de personagens muito diferentes entre si, uma espécie de coro desafinado. Não vou esconder que escolho atores (mesmo que os atores achem mal que eu diga isto) também pelos seus tamanhos, formas, rostos, corpos, pela maneira como se mexem… Estava tudo escrito, mas a seguir é preciso confrontar o que estava escrito com aquela voz, aquele corpo. Daí que tente que o ator e eu, ambos saibamos o que está a acontecer. Não para dizer que escrevemos um texto brilhante e depois… vê lá o que fazes. Há todo o espaço para o ator trabalhar, mas isso não quer dizer que vamos improvisar. Detesto o improviso, detesto “buchas” nos diálogos - “buchas” e ultranaturalismo são para as novelas e o telejornal. O cinema é um espaço específico de pensamento.Quando pensamos em Cartas da Guerra, talvez se possa dizer que há no teu trabalho uma continuidade e uma ruptura. Das histórias contadas até ao visual, é óbvio que são filmes diferentes…… mas eu gosto de fazer filmes diferentes, gosto de aceitar esses desafios. . Daí a pergunta: como sentiste esse corte e, mais do que isso, como foi lidar com acontecimentos vividos por uma geração anterior à tua?Mas são traumas do país! Trabalho sobre problemas que são nossos - costumo dizer que, se Portugal fosse ao psicólogo, estava tramado… Lidamos muito mal com os nossos traumas. Se a realidade está a colidir com a utopia, é aí que eu quero estar. Para mim, os filmes não são feitos para “mostrar” coisas, mas sim para que possamos sentir e pensar sobre essas coisas. Como cineasta, quero colocar-me face a situações complicadas para tentar ver como sair delas - se começamos a normalizar a linguagem, então passamos a fazer filmes todos iguais. Projecto Global é um filme sobre o erro, a falha, a dúvida, a hesitação - era importante dar a ver isso mesmo, a câmara tinha de refletir essa “atrapalhação”. Passados estes anos, gosto de dizer que Cartas da Guerra era mais sobre aqueles que ficaram do que sobre aqueles que foram para a guerra - para mim, tratava-se de mostrar um trauma coletivo, não apenas dos homens que foram para a guerra, mas de um país inteiro.Já não há heróis?Não há heróis, seguramente, filmes de heróis já temos muitos. .Ser ou não ser, eis o cinemaVisto no pequeno ecrã, Portugal não passa de um aglomerado de gente que se agita em torno de três fenómenos: as telenovelas (incluindo a política vivida e encenada como telenovela), a celebração nacionalista do futebol e os horrores do Big Brother e seus derivados. Vítima nº 1 de tal conjuntura? O cinema.O cinema - não todo o cinema, mas alguns filmes - ensina-nos a não confundir a realidade com um dado adquirido que basta registar (ou “gravar”, para usarmos a linguagem ignorante do anti-cinema). Acontece que o cinema pode ser uma máquina fulgurante de pensamento. Ou de pensamentos fulgurantes. Sobretudo quando nos envolve na complexidade dos factos e das gentes, resistindo às imagens (e sons) com que procuramos apreendê-la. Projecto Global, de Ivo M. Ferreira, é um filme sobre essa resistência - e a paixão de lidar com ela.Perante a diversidade de talentos envolvidos na sua fabricação, será de elementar justiça nomear o impecável conjunto de atores: Jani Zhao, Rodrigo Tomás, José Pimentão, Gonçalo Waddington, Isac Graça, João Catarré, Ivo Canelas, Hugo Bentes, etc. Porquê? Porque este é um filme de dramáticas intensidades, tecido de vida e morte, habitado por corpos exuberantes, estranhos a qualquer simbolismo simplista para consumo televisivo.A história das FP25 surge, assim, como um capítulo traumático (a palavra do realizador é certeira) de uma memória que nos convoca para lá dos clichés mediáticos, para mais arriscando numa linguagem de thriller. Dito de outro modo: o cinema não é uma mera acumulação de “temas”, mas uma linguagem plural que se pode sempre reinventar, desafiando as certezas do espetador.