O regresso de Bastinhas: "Tive fé. Sempre acreditei que voltaria às arenas"

De regresso às arenas quase três anos depois do acidente grave que sofreu, com uma máquina agrícola, Joaquim Bastinhas faz neste sábado a sua primeira corrida desde 2015, no Coliseu Figueirense, na Figueira da Foz.

Um dos mais aclamados cavaleiros tauromáquicos de Portugal tem encontro marcado com os aficionados para as 22.00, na primeira de um conjunto selecionado de oito importantes corridas que vai realizar até ao final da temporada.

Antes do regresso às praças - ao lado do filho, Marco Bastinhas, de João Moura, Rui Salvador, Marcelo Mendes e David Gomes, além dos grupos de forcados amadores de Tomar, Chamusca e Monforte, enfrentando toiros da ganadaria Higino Soveral -, Joaquim Bastinhas fala com o DN do afastamento forçado e do regresso, mas também da arte a que tem dedicado toda a sua vida.

Voltar às arenas três anos depois de ser forçado a afastar-se é certamente um momento de grande emoção. O que lhe vai na cabeça e na alma? Muito nervosismo?

Acima de tudo é a responsabilidade de voltar a vestir a casaca, pisar a arena, encontrar-me com o público e partilhar cartel com os colegas. Depois, sem dúvida, a emoção de ter vencido uma etapa difícil da minha vida e poder voltar a fazer aquilo de que mais gosto: tourear. Quanto ao nervosismo? Não será bem essa a palavra-chave do momento. Diria antes a emoção de poder partilhar o meu toureio com o público, o qual sempre me apoiou e fez de mim o toureiro que sou e todos conhecem.

Sofrer um acidente assim depois de uma vida na arena - e com uma recuperação lenta e difícil - deve ter sido muito difícil. Temeu não conseguir voltar?

Foram momentos bastantes complicados e obviamente passaram-me muitas coisas pela cabeça. Mas sempre acreditei que mais tarde ou mais cedo voltaria às arenas. Tive no entanto, psicologicamente, de juntar todas as minhas forças. A razão, o querer - acreditei sempre em mim: tive fé!

Esta será uma de muitas corridas que ainda quer fazer? Pretende continuar depois das oito que já tem marcadas para esta temporada?

Enquanto o público estiver comigo, enquanto sentir prazer e desfrutar do toureio, claro que sim. Evidentemente que chegará um dia o momento de despedir-me das arenas, mas nem por isso deixarei de ser toureiro. Aliás, não penso nisso! Há que viver o momento presente, ser positivo e objetivo, para aproveitar todas as oportunidades e pedaços bons que a vida nos vai proporcionando.

Sair ao lado do seu filho é um sonho cumprido? Gosta de ver a família segui-lo?

Sem dúvida! No entanto, a partir do momento em que nos dirigimos para a praça de toiros, o bilhete de identidade fica no quarto do hotel. A família é um pilar da nossa existência. Como diz o ditado popular: "Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher." Não quero com isto estar a gabar-me, mas de facto esta frase espelha bem a importância da família no nosso quotidiano. Os filhos são o nosso "prolongamento", diria mesmo que, por vezes, são eles quem concretiza algo que deixámos para trás, que gostaríamos de ter feito ou que tivesse acontecido e não foi possível. Contudo, nunca desrespeitando também os seus projetos de vida. Enfim, penso que isto resume a importância da família no dia-a-dia de todos nós.

Ser cavaleiro tauromáquico não é uma vida fácil. Teve de abdicar de muita coisa para seguir essa vida?

Para levar com seriedade uma profissão e atingir os melhores resultados, tem de haver trabalho, dedicação e ambição. Ora, estas premissas requerem e exigem uma boa dose de disciplina pessoal, a qual obriga à perda de liberdade, requerendo muita responsabilidade. O toureio, sendo uma profissão exposta ao público e uma arte feita de momentos, não abdica de muito trabalho exigente, diário e muito menos subordinado a um horário ou calendário. É evidente que tive de me privar de algumas coisas inerentes ao normal da idade da juventude, mas por outro lado há o retorno muito positivo que tenho vindo a obter, ao longo da minha carreira e vida pessoal... Só posso dizer que valeu a pena!

Como vê a atual discussão sobre o futuro da tauromaquia, em que os animalistas têm ganho força - ainda que a proposta para acabar com as corridas tenha sido recentemente chumbada...

Num Estado de direito e democrático a tomada de posições radicais é uma "coisa" antinatura. Sem razão pela falta de respeito da cultura, tradição, história e até da dimensão económica da tauromaquia na economia do país. Mais: é por ser também e acima de tudo a negação da opinião, do gosto e do pensamento oposto. É castrador da liberdade individual e coletiva. Felizmente que até ao momento tem havido bom senso da classe politica, poder de argumentação das entidades defensoras da festa e da maioria da sociedade portuguesa.

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