"Muitos dos que acusaram o bispo Azevedo na nunciatura e no episcopado eram também homossexuais"

Frédéric Martel, autor da investigação sobre a homofobia e a homossexualidade na Igreja católica, veio a Lisboa promover o seu livro No Armário do Vaticano e revela que uma das suas principais fontes é um padre português gay.

Estava a entrevista a começar e Frédéric Martel não parava de consultar o telemóvel. Sorri e não é capaz de ficar em silêncio: "O livro já está na lista dos best-seller do The New York Times. É a primeira vez na minha vida que estou nos top's dos Estados Unidos." Um sucesso que acontece em todos os 20 países onde No Armário do Vaticano está a ser publicado desde o dia 21, um lançamento que coincidiu com a reunião de cardeais convocada pelo Papa Francisco para debater o abuso sexual de menores no seio da Igreja Católica.

Martel faz uma visita relâmpago a Lisboa para promover o seu livro, mas não é apenas por essa razão que o jornalista francês visita Portugal, como explica: "Tenho muitas fontes portuguesas." Daí que a 'presença' portuguesa nos escândalos sobre a homofobia e a homossexualidade no Vaticano seja bem maior do que vem referido explicitamente no livro: "Não posso denunciar essas fontes e foi preciso guardar segredo dos seus nomes." Mas, alerta, "os depoimentos dos portugueses estão todos no livro, basta estar atento". Quantos? Frédéric Martel não hesita: "Uma dezena!"

O autor de No Armário do Vaticano, um livro que em vários países foi intitulado apenas Sodoma, vem preparado para oferecer detalhes nacionais. Vai até à página 631 e mostra o relato do padre José Maria Pacheco, jornalista lusófono da Rádio Vaticano. Quanto aos restantes portugueses, além de Carlos Azevedo, o autor revela: "Como há muitos padres portugueses no livro, em não podia deixar de vir a Portugal também".

Qual é a importância do caso português em No Armário do Vaticano?

Tenho muitos informadores entre os 27 padres gays que vivem no Vaticano e entre eles um português. Ou seja, uma das minhas fontes principais para esta investigação é portuguesa. No entanto, entre as fontes importantes são várias as que estão em Lisboa e por isso vim à cidade duas vezes durante a investigação.

Só refere de forma abrangente o caso do bispo Carlos Azevedo. Porquê?

Ele está no Vaticano atualmente e encontrei-me várias vezes com ele. É um bispo acusado de uma forma muito pouco clara por alguma coisa que também não é muito clara. Eu não faço juízos sobre caso, mas sou crítico do facto de não ter existido um processo ou uma condenação e, apesar de tudo, Azevedo ter sido uma vítima, marginalizado da Igreja portuguesa e enviado para Roma sem um processo ou uma decisão. Só se pode ser culpado se houver julgamento.

Qual é a sua opinião sobre o que lhe aconteceu?

Após ter falado com Carlos Azevedo, estudei o seu processo junto de muitos portugueses e considero que foi punido de forma injusta. Por isso mesmo, acho que Azevedo é quem deveria ser hoje arcebispo, patriarca de Lisboa e sido feito cardeal. Aliás, muitos dos religiosos que acusaram Azevedo como homossexual ao nível da nunciatura e do episcopado eram também homossexuais. Ou seja, foi muito cobarde acusar alguém de homossexual quando se é também homossexual.

Até que ponto os católicos tem conhecimento do que se passa na sua Igreja?

Em Portugal, por exemplo, os católicos conhecem bem a situação. Não estão alheios a este grande problema pois ouvem todos os meses notícias e são obrigados a perceber. É o caso do cardeal George Pell que foi preso agora, ou na semana passada o cardeal Theodore McCarrick, o arcebispo Luigi Ventura está sob investigação em França, os cardeais e bispos chilenos que foram demitidos, o caso Pensilvânia... Todos os meses há casos destes, daí que os católicos já se tenham apercebido que têm um problema grave. Podem fechar os olhos, mas como este não é um livro-escândalo ou de denúncia, antes quer demonstrar a verdade sobre o que se passa e explicar que os padres gays são vítimas de um sistema que os condena a mentir. É essa mentira que dá origem ao meu livro.

Quando se acaba de ler este livro, questiona-se até que ponto este Papa pode sentir vontade de resignar perante um escândalo de tão grande dimensão no interior da Igreja?

Em primeiro ligar esclareço que não gostava muito de Francisco, é um Papa jesuíta - o que em França não é um bom cartão de visita -, argentino, peronista, e desconfiava dele porque uns dias era progressista, noutros conservador, com um funcionamento errante. Pouco a pouco aprendi a gostar dele porque compreendi a espécie de complô organizado pela extrema-direita dura que o critica pelas suas posições progressistas sobre a pena de morte, os imigrantes, a questão sexual dos homens casados que podem ser padres, a colagem aos casos de McCarrick, Pell e outros tantos. Ora, não foi ele o responsável por estas situações, nem nomeou esses cardeais ou organizou o sistema chileno, mas sim quem estava à volta de João Paulo II e de Bento XVI. Portanto, são críticas injustas e de que o Papa deve ser defendido. Creio que ele não irá resignar porque é forte e continuará a combater.

Será capaz de se demarcar da pedofilia e da homossexualidade na Igreja?

Creio que sim, porque a maior parte destes escândalos não são da sua responsabilidade. Não foi quem nomeou esses religiosos, nem mesmo lhes deu encobrimento.

Mas sabe de tudo o que se passa na Igreja?

Sim, mas quando um padre é acusado e a justiça faz o seu papel suspende-o. E se for condenado, retira-o. Ou seja, juridicamente, respeita o direito de defesa dos acusados. No entanto, a crise da homossexualidade é a mais grave que a Igreja atravessa desde o Cisma e não é por causa de um padre aqui e outro além. É um sistema que, designadamente, cria um encobrimento e dá cobertura a esses padres acusados de abusos sexuais. Esse é o tema do livro, que explica como a cultura do segredo faz com que muitos religiosos sejam homossexuais e se escondam as vítimas porque têm receio de consequências. Há um sistema de mentiras generalizado na Igreja.

Há quem quantifique em 80% o numero de religiosos homossexuais no Vaticano...

...Eu nunca afirmei ser esse o número, até porque é muito complicado fazer tais contas, mas tenho depoimentos de padres que fazem avaliações como a de 50% dos seminaristas serem gays. Foi um padre que me deu esse valor de 80% de religiosos homossexuais no Vaticano, e é preciso notar que ele está no Vaticano há muitos anos e sabe o que se passa lá. Eu não aponto um número, prefiro referir como uma maioria silenciosa.

Tem muitas páginas sobre Bento XVI e a sua provável homossexualidade. Essa não era uma opinião à primeira vista?

Não acredito que Bento XVI seja homossexual...

...Mesmo que fosse 'exuberante' na escolha do que vestia como o descreve no livro...

Exuberante não quer dizer homossexual. Creio que existe nele uma forma de homossexualidade reprimida e estou convencido que gere a sua própria orientação, que se traduz numa grande homofobia. Eu gosto dele e considero-o uma figura trágica, um papa que obrigou os outros a fazer aquilo a que ele próprio era obrigado - isso torna-o honesto. É casto e quer a castidade nos outros, exige que os homossexuais sejam castos também, ou seja, a castidade domina toda a sua vida. É muito diferente de bastantes cardeais que pregam a castidade em público mas levam uma vida privada desregrada, com prostitutos e amantes. Eu não julgo estes cardeais, bispos e padres, que são homossexuais, nem tenho problemas com isso pois essa deveria ser uma opção possível. O problema da Igreja não é tanto a homossexualidade como o segredo que se faz dela, a mentira e a vida dupla decorrentes.

Todo o marketing em torno do seu livro baseia-se numa crítica à homossexualidade na Igreja...

Não é assim, aliás eu sou abertamente gay, escrevo livros sobre a questão gay, adoro os padres gay. Até fui atacado por ser um gay que vem defender os que estão no Vaticano. A minha posição é muito clara, o que pretendi foi analisar um sistema e explicar como funciona.

Fez centenas de entrevistas e horas de investigação. Quando começou este projeto imaginava aonde iria acabar?

Quando se faz um livro como este, a razão de se o começar é porque se tem fontes. Sérias e precisas, e eu tinha-as. No entanto, não sabia a dimensão do fenómeno e foi pouco a pouco que o percebi, sendo difícil a partir daí afastar-me desta questão.

Acredita que as fontes são mesmo de confiança?

Sim, porque trabalhar com 41 cardeais tornam a investigação fiável, 52 bispos aumentam a fiabilidade, 27 padres gay no interior do Vaticano ainda mais, bem como nos arquivos de estado dos EUA, do Chile e da Argentina, ter analisado relatórios da polícia italiana... Portanto, estou certo do que digo.

Revela que a prostituição é grande em Roma porque o padres do Vaticano a procura. Como chegou a esta conclusão?

A prostituição existe em todas as grandes cidades, mas em Roma entrevistei mais de 60 pessoas que se prostituem, falei com polícias e informadores, e entendi que a sua clientela é maioritariamente religiosa.

Não ficou chocado com todas as revelações que faz neste livro?

Eu não tenho posição moral sobre este assunto, repito que sou gay, e o que me interessava era encontrar a verdade e a realidade. O investigador deve revelar a realidade e foi o que fiz.

Como tem sido as reações ao livro por parte da Igreja?

Não há comentários oficiais, porque tradicionalmente nunca o fazem sobre livros deste género. Nem os cardeais ou o Papa o fazem.

Acredita que o Papa ainda se irá referir a ele?

Acredito que o papa já leu o livro em espanhol, mas eu não estou assim tão autocentrado no livro. A mim coube-me publicar algo de interesse geral e serão os leitores a defender ou criticar o trabalho. Eu não sou católico, portanto não me cabe reformar a Igreja, o que dou é uma contribuição que os religiosos devem ter em conta.

Este livro destruirá uma parte da Igreja?

Não, apenas mostra uma hipocrisia e uma realidade. Ou negam esta realidade e a mentira continua, ou aceitam e fazem evoluir a doutrina da Igreja. Eu sou dos segundos.

No Armário do Vaticano - Poder, Hipocrisia, Homossexualidade

Frédéric Martel

Editora Sextante, 646 páginas

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