Real Academia: "Tudo na primeira volta ao mundo foi espanhol"

Parecer da Real Academia espanhola apresenta factos que provam que é "incontestável a plena e exclusiva autoria espanhola" da viagem de circum-navegação iniciada por Fernão de Magalhães.

O navegador português Fernão de Magalhães comandou em 1518 uma expedição financiada pela Coroa espanhola. Mas esse não é o único factor que leva a Real Academia de História, de Espanha, a dizer, sem margem para dúvidas: "Tudo na primeira volta ao mundo foi espanhol", desde a partida de Magalhães até ao regresso de Elcano.

É a primeira vez que a Academia espanhola se pronuncia sobre o caso e fê-lo a pedido do jornal ABC que este domingo dá à polémica honras de primeira página do suplemento, depois de em janeiro e em fevereiro já ter publicado outros artigos em que desvalorizava a participação portuguesa na viagem.

No seu parecer, os historiadores recordam que Fernão de Magalhães, natural de Portugal, serviu a Coroa espanhola em várias viagens ao Índico. E relembram que "em 1517, Magalhães, zangado com D. Manuel de Portugal por ele não reconhecer os seus méritos, decide abandonar o seu país, deixar de servir o seu rei e viajar para Espanha, concretamente para Sevilha, onde se instalou, contraiu matrimónio e desde então esteve ao serviço do rei Dom Carlos I, castelhenizando o seu nome português, Fernão de Magalhães para Fernando de Magallanes".

A Academia recorda que Magalhães assinou um contrato com D. Carlos, através do qual o rei se comprometeu a apoiar a viagem que serviria os interesses da Coroa espanhola, algo que o navegador aceitou e cumpriu "fielmente até à sua morte". E lembra ainda que a expedição foi financiada em 75% pela Coroa espanhola e 25% por um grupo de comerciantes espanhóis, entre os quais se destaca Cristóbal de Haro.

Primeira viagem à volta do Mundo, a bordo da nau Victoria, começou em 20 de setembro de 1519, em Sanlúcar de Barrameda, no sul de Espanha, e terminou em 6 de setembro de 1522, no mesmo local. "Os cinco navios da expedição foram equipados e decorados em Sevilha, apesar dos muitos impedimentos que puseram em todo o momento tanto o embaixador de Portugal, Álvaro da Costa, como o representante do rei português D. Manuel na Andaluzia, Sebastián Álvarez, que tentaram por todos os meios que a viagem não fosse levada a cabo porque tinha sido entregue a uma empresa espanhola, razão pela qual qualificavam Magalhães como renegado e traidor", escreve a Academia espanhola.

Entre outros detalhes da viagem, o comunicado explica que Fernão de Magalhães morreu após a passagem do estreito, em Mactán, uma ilha do arquipélago das Filipinas. O regresso pelo Oceano Índico, sob o comando de Juan Sebastián Elcano de la Victoria e Gonzalo Gómes de Espinosa de la Trinidade fez-se evitando as águas e os enclaves dos portugueses. Depois de desembarcar em Sanlúcar de Barrameda (com apenas 18 dos 237 homens que iniciaram a viagem), Elcano escreveu uma carta a D. Carlos I, "ressaltando não as dificuldades, nem o caminho percorrido, nem o encontro com as ilhas da Especiaria, mas o facto de ter conseguido circum-navegar a Terra pela primeira vez em nome do rei imperador".

"Com tai fatos, absolutamente documentados", conclui a Academia de História, "é incontestável a plena e exclusiva autoria espanhola da empreitada".

Este relatório pretende esclarecer alguns factos depois de a 23 de janeiro, os chefes da diplomacia de Portugal e de Espanha terem anunciado em Madrid a apresentação conjunta de uma candidatura a património da humanidade da primeira viagem de circum-navegação do globo, depois de, num primeiro momento, o governo português ter anunciado uma candidatura inidivudal em que teria apagado o império espanhol da história ao quase não fazer referência ao nome de Sebastião Elcano ou o papel preponderante de Espanha na realização da viagem.