Colecionador retira 700 desenhos, solidário com João Ribas

A Fundação de Serralves vai perder a coleção de 700 desenhos da coleção de Luiz Teixeira de Freitas, em solidariedade com o diretor demissionário, João Ribas. É mais um efeito do 'caso Mapplethorpe'.

Advogado e colecionador de arte, Luiz Teixeira de Freitas decidiu retirar a sua coleção de 700 desenhos que está em depósito na Fundação Serralves em resposta aos acontecimentos que rodearam a inauguração da exposição do artista Robert Mapplethorpe e a demissão do diretor, João Ribas.

"Na semana passada, mais precisamente no dia 25 de Setembro, enviei 'e-mail' à Administração de Serralves dando conta da minha intenção de terminar o contrato de depósito de obras da minha coleção particular do artista Damian Ortega, que tenho com aquela instituição", disse hoje à Lusa o colecionador, acrescentando que, no mesmo dia, enviou uma carta registada idêntica para o museu: "Ainda não obtive qualquer resposta do Museu".

Fonte do gabinete de imprensa da Fundação de Serralves disse à Lusa que se tratam de "assuntos internos" da instituição, não pretendendo por isso fazer declarações sobre esta questão.

O colecionador, por seu lado, como disse à Lusa, endereçou mais um 'e-mail' e uma carta a Serralves, no sábado, a notificar a instituição da vontade de terminar também o depósito da Coleção de Desenhos da Madeira, constituída por "aproximadamente 600 desenhos em depósito", propriedade sua e da sua sócia na sociedade de advogados Rosana Rodrigues.

"Tomei esta decisão por não concordar com a política de intervenção da administração nas escolhas curatoriais do Diretor Artístico da instituição, João Ribas, em especial a recente situação de censura criada pela Administração de Serralves no caso da exposição de Robert Mapplethorpe, caso este que foi amplamente divulgado pela imprensa nacional e internacional", justificou Luiz Teixeira de Freitas.

Solidariedade com João Ribas

"Isto é tudo em solidariedade com o João Ribas e em desacordo com a posição tomada pela administração em relação à exposição de Robert Mapplethorpe", disse ao Público a filha do colecionador, a curadora Luiza Teixeira de Freitas.

João Ribas, diretor artístico do Museu de Serralves e curador da exposição do fotógrafo norte-americano, alega interferência da administração liderada por Ana Pinho no seu trabalho e demitiu-se no dia em que foi notícia que existiam salas reservadas a maiores de 18 anos na mostra. Uma semana antes, tinha dito que não haveria salas escondidas. A administração desmente que tenha havido ingerência. O caso chegou ao parlamento, e a comissão de Cultura visitará a exposição no dia 4 de outubro.

Em causa estão obras de Damian Ortega e de mais de cem artistas representados na Coleção de Desenhos da Madeira, entre os quais Julião Sarmento, Gabriel Orozco, Elmgreen Dragsed, Mateo Lopez, Francis Alys, Guilhermo Kuitca, Guego e Olafur Eliasson.

"As obras foram depositadas em momentos diferentes no Museu, mas diria que o depósito existe há quase oito anos", estimou o colecionador à Lusa.

'Caso Mapplethorpe' chegou a feira de arte de Viena

A intenção do advogado luso-brasileiro Luiz Teixeira de Freitas foi conhecida durante a feira de Vienna Contemporary, na Áustria, onde esteve presente, depois de outro colecionador, o belga Alain Servais, a ter tornada pública no Twitter.

"O comprometido colecionador retirou 700 trabalhos que tinha emprestado por 10 anos ao Museu Serralves, no Porto, depois da censura ao seu diretor na recente Robert Mapplethorpe", escreveu este sábado, dia 29.

​​​​​Serralves é o único museu onde Luiz Teixeira de Freitas tem obras em depósito, embora emprestem regularmente a outras instituições. Luiza Teixeira de Freitas foi, aliás, a curadora de uma exposição em torno de livros de artista e outro material efémero da coleção do pai - Uma Conversa Infinita - que esteve no Museu Berardo em 2014.

Presidente da câmara do Porto quer rever relação com Fundação

Recusada a pretensão da câmara do Porto de reunir com a administração da Fundação Serralves, Rui Moreira escreveu uma carta a José Braga da Cruz, lamentando que não exista intervenção do Conselho de Fundadores da instituição. Admite, por isso, reavaliar a relação, "face à desconsideração".

O Conselho de Fundadores tem uma reunião marcada para o dia 5 de dezembro. Braga da Cruz considerou desnecessário antecipar o encontro.

(Notícia atualizada às 15:40 com as declarações de Luiz Teixeira de Freitas à Lusa)

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