A Alegria de Pippo Delbono vai florir em Almada

O que vem depois da tristeza? A esperança, diz o italiano Pippo Delbono, ator e autor inclassificável, em A Alegria. Hoje às 22:00 no palco grande da Escola D. António da Costa, em Almada

Mais do que uma peça de teatro, La Gioia (nome original) é uma viagem de oitenta minutos de encantamento, com pessoas, palavras, silêncios, música, dança, sensações, sentimentos e milhares de flores num grand finale. É Pippo Delbono a embrulhar as dores íntimas e a abraçar as dores do mundo, em pleno Festival de Almada.

A estreia foi feita em março em Bolonha e o acolhimento do público foi, nas palavras de Pippo Delbono, "uma coisa extraordinária". Isto é: terminado o espetáculo, sossegada a longuíssima ovação, o público não saía do lugar, continuava na sala como se não houvesse razão para voltar para casa, para enfrentar a rua e a neve que tinha caído ao longo do dia. Mas não era por medo dos graus negativos do exterior: o público queria continuar ali. Pippo, 59 anos, desceu à plateia e ficou a conversar com as pessoas que o abraçavam emocionadas.

Só depois o ator e encenador, uma espécie de bom gigante, se recolheu ao camarim e falou ao DN. Exausto, física e psicologicamente, mas ao mesmo tempo encantado por deparar com uma portuguesa: "Em Portugal sinto-me sempre bem com toda a gente, com as pessoas do teatro, com o público, com os críticos. Há uma humanidade, uma inteligência... não são como os espanhóis, que são cabeças duras".

Hoje Pippo e a sua Compagnia estão em Portugal, acabados de chegar da Grécia onde apresentaram o mesmo espetáculo, e após uma digressão pela Índia. Avisaram, em março: "Não podemos dizer que alterações vamos ter até julho, porque a peça vai mudando ao longo do tempo".

Evidentemente, os atores, a estrutura da peça, o fundamental do texto, as canções, o circo, as danças, tudo isso se mantém, as alterações não vão à essência do espetáculo. Esta peça revela um Pippo a sair da depressão que viveu nos anos anteriores, e em que a lenta morte da mãe foi omnipresente.

Mas Safi, o refugado afegão, vai montar e desfazer uma coleção de barquinhos de papel, uma esquadra frágil a atravessar o mar do palco, pacientemente, ao som de Clair de Lune, e Pippo vai dizer o poema de Erri de Luca: "Mar nosso que não estás nos céus, que abraças as fronteiras da ilha e do mundo, santificado seja o teu sal, santificada seja a tela do teu fundo, acolhe as embarcações sobrecarregadas sem nenhuma estrada traçada nas tuas ondas..."Bobò, o homem que Pippo retirou há anos de um asilo psiquiátrico, vai atrair os olhares de todos sempre que entra no palco, comovente e espantado. Grazia e Ilaria vão dançar celegantes e tranquilas. E Pippo vai estar no palco quase sempre, à espera do momento em que as flores vão finalmente florir.

O que é A Alegria, como chegou a esta alegria?

Vivi um momento de grande dor, de angústia, devido a situações que me aconteceram, sobretudo o fim da minha mãe. Mas depois a alegria começou a aparecer e a desenvolver-se. É isso o espetáculo. Falo sempre como se se tratasse de um amigo mas sou eu o amigo, evidentemente.

Como se faz de uma tristeza um espetáculo?

Para mim, é a única possibilidade. Preciso de reencontrar no teatro a força, a possibilidade da alegria.

É habitual em si, levar para a cena o seu próprio mundo de sensações e de sentimentos?

Faço isso há muito tempo. Mas creio que esta vez foi a mais profunda, sem nenhuma mediação e pode funcionar ou não. Estava de tal forma num buraco que disse que não queria fazer espetáculos, sentia-me demasiado mal, e no entanto fiz. Está ali a verdade. Entrego-me completamente, com toda a sinceridade, e isso sente-se, vê-se. Cada instante de alegria que ali viu eu estou realmente a senti-lo, não é artificial. Não estou a pensar se funciona ou não, assumo com coragem que estou mesmo num buraco negro. Deixo que a luz entre, que a luz permaneça, estou em cena do princípio ao fim. Destruí de alguma maneira a linguagem teatral, não é uma linguagem convencional. Fiz um espetáculo que fala de dor depois da crise, e isso fez a diferença. Estou totalmente lá dentro, há um momento em que começo a gritar. Mas estou a dizer a verdade. E o final é de esperança, é um final que te diz que vais sair disto.

Porque há sempre a primavera depois do inverno?

É isso.

As flores hão de florir sempre?

E temos de ficar contentes por isso acontecer, por isso voltar.

Como construir um espetáculo tão íntimo com outras pessoas, com músicas e textos de outras pessoas?

Como um pintor que faz desenhos onde segue a sua inspiração, que vai sentindo que isto está certo, aquilo não. Como um compositor que procura sons. O espetáculo é maior do que eu, muito maior do que eu. Ele chegou assim e começa a aprender, ele próprio. Obriga a rir e não é simples fazer rir, é preciso tempo. É um monstro que começa.

Os espetáculos são diferentes uns dos outros?

Há coisas que mudam muito, sobretudo agora porque estamos no início da criação. Ontem, por exemplo, numa das cenas com o [Zakria] Safi, o Bobò, que tinha sido o escolhido para fazer esse papel, disse-me que não queria fazer. E hoje mudei, ele tinha razão, sou eu que faço a cena com o Bobò.

Safi é um refugiado?

Sim, do Afeganistão. Ele não quer ser fotografado, há muitos problemas, mas ele era um refugiado que estava no Evangelho, tanto na peça como no filme. Ele veio do Afeganistão, atravessou a Turquia e conseguiu refúgio em Itália.

É como se colhesse todas as tristezas do mundo, os refugiados, as pessoas que estão um pouco perdidas, e reúne tudo no espetáculo. Acontece o mesmo no seu íntimo? A sua dor vem daí?

Talvez venha, sim, porque é a minha dor, é a dor do mundo. Não sei. Por enquanto ainda não me sinto completamente bem. Há 30 anos que pratico budismo e sei que a dor dos outros te ajuda a sair da tua dor. Digo a verdade em palco quando digo que a dor pode tornar-te egoísta, por vezes fazes ações que talvez não quisesses fazer, e fazes porque saber que elas te fazem bem a ti e a todos os outros. É compaixão, não é piedade, é uma coisa mais profunda do que a misericórdia. Desces até ao fundo e podes fazer algo pelo outro. Eu conheço esse fundo. Como o senhor que tem uma casa na praia, outra na montanha, um barco à vela mas num dado momento perde o significado.

Como surgiu a ideia das flores, tão espetacular?

Foi em Paris, vi flores na rua. E disse que era preciso arranjar flores, procurar flores por todo o lado. Estas flores representam muitas coisas.

Disse no palco que os alemães precisam de compreender, não de sentir. O que quer dizer com isso?

Disse isso hoje, é verdade, saiu-me. Saiu bem, não acha? A verdade é que às vezes é difícil compreender como as pessoas conseguem fazer coisas tão alucinantes. Senti hoje uma coisa estranha, o público ficou na sala, não se ia embora, foi por isso que desci para a plateia, nunca tinha feito isto. Foi uma coisa extraordinária.

A jornalista viajou a convite de Festival de Almada

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Catarina Carvalho

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