A avó com o neto, Filipe, interpretado por Baltasar Marçal.
A avó com o neto, Filipe, interpretado por Baltasar Marçal. Foto: Filipe Ferreira/EGEAC, Teatro Variedades

‘Imitação dos Pássaros’. Perante um drama familiar, escolher cair ou voar

Com texto e encenação de Tiago Torres da Silva, peça protagonizada por Lídia Franco, Tiago Fernandes e Baltasar Marçal está em cena no Teatro Variedades, em Lisboa, até 25 de outubro.
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Alberto, Filipe e a avó. É com estas três personagens que Tiago Torres da Silva “dá voz a quem não tem voz” em Imitação dos Pássaros, texto que escreveu e encena no Teatro Variedades. “Eu sempre que escrevo teatro gosto de dar voz a quem não tem voz e, neste caso, apeteceu-me dar voz a extremos, às pessoas mais velhas que se sentem sozinhas e não têm com quem falar, e às pessoas mais jovens que têm muita gente, mas não sabem como falar com elas, porque estão tão viciadas nesta coisa de estarem sempre a teclar, sempre a fazer scroll. Pareceu-me que essa falta de comunicação era um bom motivo para pôr a falar quem ou já não sabe, ou já não tem com quem falar”, diz Tiago Torres da Silva sobre a peça que estreou na quarta-feira e continuará em cena até 25 de outubro.

Nesta história, Alberto e Filipe, pai e filho, não se entendem e a avó, interpretada por Lídia Franco, é a voz da compreensão. A peça começa na sua sala de estar quando chega o neto, que foi expulso de casa pelo pai. Alberto, empresário que quer que o filho lhe siga as pisadas no negócio da família, considera-o “um merdas, um inútil”. E Filipe, mais inclinado para o teatro, acha que o que o pai faz é “irrelevante”.

Alberto, interpretado por Tiago Fernandes, com o filho Filipe na  ponte.
Alberto, interpretado por Tiago Fernandes, com o filho Filipe na ponte. Foto: Filipe Ferreira/EGEAC, Teatro Variedades

Neste drama, a avó, que se sente “culpada disto tudo”, sabe a razão porque o filho é como é, ao mesmo tempo que tenta consolar o neto e aceita que ele queira seguir outro rumo na vida. “Eu quis compensar-te do carinho que não dei ao teu pai”, diz a avó.

“Toda a gente tem famílias grandes e sabe que há segredos, coisas que nunca se contaram, ou coisas que foram mal contadas e que, de repente, por alguma razão, surgem. E nesta peça há uma razão muito grande para surgir um segredo do passado e a partir daí a dinâmica da família muda completamente”, explica Tiago Torres da Silva.

A segunda parte da peça passa-se no escritório de Alberto, personagem interpretada por Tiago Fernandes, num diálogo com a mãe. A cena final decorre numa ponte, num encontro entre pai e filho, este representado por Baltasar Marçal.

Como diz a avó, “não há inocentes nestas histórias. Somos todos culpados”. Todos têm as suas razões para serem como são e apenas o amor consegue superar as diferenças.

“No final, há a completa convicção, que todos temos no elenco, de que o amor é que salva e que o perdão é um bom caminho para chegar ao amor”, aponta o autor da peça.

Há em Imitação dos Pássaros referências ao texto A Gaivota, de Anton Tchékhov. “A Gaivota tirou-me o ar. Perdi o chão com aquelas personagens. O Trigorin, o Treplev. A Nina. O tiro que se escuta no jardim... Queria tanto poder estar em cena e dizer aquelas palavras”, diz Filipe que queria ser Nina.

“A Gaivota, é uma das minhas peças favoritas”, diz o encenador, lembrando que a gaivota na Rússia não tem a conotação poética que tem para os portugueses. “A gaivota para os russos não é esse pássaro, é o pássaro do lixo. A gaivota anda no lixo e aquela gaivota está caída e, portanto, pareceu-me uma boa metáfora para isto de nós, quando estamos frente a um precipício e sabemos que vamos cair, termos de optar entre cair ou abrirmos as asas e voarmos. E, neste caso, nós propomos que imitemos os pássaros e voemos”, diz Tiago Torres da Silva.

Tiago Torres da Silva já tinha trabalhado com este elenco. Com Lídia Franco na peça Requiem por Isabel, um texto de Raquel Serejo Martins que ele encenou em 2023 no Teatro da Trindade. “Imitação dos Pássaros é um texto tão íntimo, era muito mais fácil trabalhá-lo com pessoas com quem eu já tenho história e intimidade”, sublinha.

Para Lídia Franco, esta personagem da avó é um "bombons".
Para Lídia Franco, esta personagem da avó é um "bombons".Foto: Filipe Ferreira/EGEAC, Teatro Variedades

Para Lídia Franco, este papel na peça de Tiago Torres da Silva é um “bombom”. “É o oposto daquilo que às vezes se chama às personagens e que eu detesto: ‘bonecos’. É um ser humano muito complexo e, como sempre, vou descobrindo também mais sobre mim própria”. A atriz considera que esta avó é a “salvadora”. “Ela preocupa-se muito mais com os outros, a começar pela família, pelo seu filho, pelo seu neto, que estão com tantos problemas, tanta tristeza que ali vai, e ela faz tudo para os ajudar, ou sendo cómica, ou com um conselho na altura certa. E, sobretudo, através do amor que tem por eles, porque é esse o caminho para todos nós e para o mundo”.

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