Ilker Çatak: “Cheguei a chamar nazi a um professor”
O ponto de partida para si para este filme passa por algum trauma seu com um professor na sua infância?
Tive problemas com os professores, desafiava-os muito! Cheguei a chamar nazi a um professor e isso foi um escândalo. Sempre fui um dos miúdos chatos, difíceis...acabei por ser expulso. Estudei na Alemanha mas depois tive de vir para Istambul, cidade onde conheci o meu coargumentista, e aí tudo era diferente: tive de usar uniforme e gravata, uma experiência muito autoritária. Houve uma altura em que numa aula tivemos um professor que nos revistou! Pediram-nos para deixar as carteiras nas mesas e irmos todos para a frente, tal como no filme, vinte e tal anos depois. Esse foi literalmente o ponto de partida. Mas para a construção do guião falámos com vários professores, sabíamos que a educação é um tópico muito sensível. Se não acertássemos no realismo íamos ser massacrados. E foi a ouvir docentes que percebemos que as revistas e os roubos acontecem com frequência. A única diferença é que a revista tem de ser voluntária. Enfim, tem a ver com o princípio da privacidade dos alunos, que, claro, não conhecem esse seu direito. Ou seja, um aluno tem de ter coragem e dizer ao professor: não, não vou mostrar a minha carteira! Isso nunca acontece pois ele sente que o professor é o seu chefe.
Há algo de profundamente perturbador no seu filme. Isso era algo que o surpreendeu de algum modo ou esse foi logo o intuito inicial?
Nem sei, confesso, mas deve ter a ver com a forma, a maneira como filmo, a música... Gosto de ter conseguido fazer um filme inquietante mas, por outro lado, quis que tivesse uma data de momentos cómicos...É importante que as pessoas tenham pausas para rir. Mas o que perturba neste filme é, de certa forma, o facto de todas as personagens terem razão e de uma sensação de perigo. De alguma maneira, estamos num terreno minado. Uma escola onde o mal pode acontecer a qualquer momento. Creio que é bom estar a dizer-me que o filme perturba. No cinema atual é raro os filmes terem essa carga... Temos tantos filmes no mercado e tão poucos a conseguirem tocar de facto as pessoas.
E é um filme que põe em debate muitas questões sociais destes dias.
O cinema serve para isso mesmo. Antes de mais, é um filme que têm diálogo geracional, até porque quando olhamos para a escola estamos a ter uma miniatura da sociedade. Temos política, o jornal, etc. É o local onde se convocam os grandes temas num pequeno espaço.
A Sala de Professores ultrapassa a dimensão alemã pois todos fomos à escola e há esse traço de identificação universal.
As escolas no mundo inteiro são mais ou menos iguais, com os grupos de WhatsApp, os pais, as associações de estudantes, etc. No começo pensava que estava a fazer um filme muito alemão mas depois percebi que era mesmo muito universal. Prova disso é a forma como fomos tão bem recebidos em todo o lado, mesmo do outro lado do mundo, como, por exemplo, na Coreia! O filme ganhou uma qualidade educacional. Gosto de personagens que deixam uma marca em pessoal mais novo.
De repente a escola ficou na ordem do dia no cinema. Está aí Os Excluídos, de Alexander Payne, e Cannes celebrou Culpado Inocente Monstro, de Kore-Eda e não há muito estreou-se Uma Profissão Séria, de Thomas Lilti, todos filmes que abordam o lugar da escola. Que coincidência!
Pois, é o tal fator universal! Todos andámos na escola ou temos filhos que estão na escola, uma instituição que faz parte da nossa vida. Curiosamente, no processo de preparação percebemos que na Alemanha não tínhamos assim tantos filmes sobre este lugar, apenas comédias juvenis.
Consegue compreender como é que o ano passado ficou de fora da competição do Festival de Berlim e foi relegado para a secção Panorama?
Isso é algo que tem de perguntar ao Carlo Chastrian, o diretor da Berlinale. Mas tenho uma teoria: os grandes festivais apostam sempre naqueles cineastas que já têm história entre as anteriores seleções e é impossível fazer-lhes o downgrade para secções menos nobres. Bem, foi por isso que não tive acesso à competição, embora não me possa queixar: o Panorama correu muito bem para o filme. Mas claro que queríamos ter estado em competição.
Será que a indústria de cinema alemã olha para si como o novo Fatih Akin? Pergunto isso pelo facto de serem ambos de origens turcas...
Tenho sempre cuidado com essas comparações. O Fatih é o Fatih e já alcançou coisas que nem sonho alcançar. Mas fico muito lisonjeado, embora ele não esteja retirado - não quero dizer que sou o novo Fatih Akin! Fiquei muito agradecido pelas suas palavras nos Prémios do Cinema Alemão. É como que um professor.
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