Hugo Gonçalves venceu o Prémio Fernando Namora em 2024 com o romance 'Revolução'.
Hugo Gonçalves venceu o Prémio Fernando Namora em 2024 com o romance 'Revolução'.Foto: Paulo Alexandrino/Global Imagens

Hugo Gonçalves: “O impacto do colonialismo no Portugal de hoje é muito maior do que se julga”

Autor de 'Deus Pátria Família' e de 'Revolução' – que foi traduzido para espanhol e que terá também uma edição francesa em 2027 – volta a escrever sobre a história recente em 'O Império do Fim'.
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O Império do Fim é o terceiro livro de uma trilogia ou não foi pensado assim?

Eu entendo que seja visto dessa maneira, mas nunca foi pensado como uma trilogia. Não me pus a escrever Deus Pátria Família a pensar que iria escrever três livros. Os três livros [Deus Pátria Família (2021), Revolução (2023) e O Império do Fim] são diferentes em termos de estrutura, de género e, em alguns momentos, até de linguagem. Não pensei em construir aqui um tríptico sobre o século XX português e o impacto que ainda tem no século XXI. Não foi uma decisão consciente. Acho que foi uma casualidade ou, então, uma motivação inconsciente de que não dei conta. Parece que os seres humanos, e isso está estudado, têm uma apetência para o número três, para as coisas que vêm em três. Se calhar é uma espécie de uma sina genética.

E o que é que te levou a escrever sobre a descolonização? Há alguma relação familiar com esse processo?

Bem, na verdade, o livro não é sobre a descolonização. É sobre essa trindade indissociável que é o colonialismo, a Guerra Colonial — que, para outros, foi a Guerra de Libertação — e a descolonização. Há vários livros sobre a descolonização, há vários sobre a Guerra Colonial e há menos sobre o colonialismo, é verdade. Eu tinha uma ideia inicial de escrever sobre a Guerra Colonial, mas rapidamente percebi que isso ficaria aquém, que seria apenas uma visão limitada de um fenómeno que funciona em três dimensões. Porque só existe Guerra Colonial porque existiu colonialismo, e só existe descolonização porque existiram a Guerra Colonial e o colonialismo. Aliás, acho que era Eduardo Lourenço que dizia que essa realidade do colonialismo, da Guerra Colonial e da descolonização era a grande ferida na psique coletiva portuguesa. Mas de facto o meu pai esteve na guerra, o meu padrinho também.

Em Angola?

Sim, em Angola, e o meu padrinho esteve na Guiné. Nunca foi uma coisa demasiado presente na nossa vida. Aliás, o meu pai não esteve no mato, esteve em Luanda, portanto tinha uma visão da guerra diferente de quem esteve a combater. Mas, em relação à ideia dos retornados, eu tinha um vizinho, o meu melhor amigo na altura, quando tinha quatro ou cinco anos, que era de uma família que tinha vivido em Angola. E o avô, que era uma pessoa doce, querida connosco, quando falava da descolonização, do Partido Comunista e de Mário Soares, tornava-se uma fera. Lembro-me perfeitamente disso. Portanto, há uma ligação emocional, mas tem a ver com o facto de, ao longo da minha vida, e conforme vais conversando com pessoas, lendo e aprendendo, notares um desfasamento entre a ideia geral que os portugueses têm do colonialismo, da descolonização e da guerra — seja pelo que não é falado, seja por aquilo que está escrito na pedra e que as pessoas não questionam jamais — e aquilo que eu ia ouvindo. E isso pode encontrar-se numa coisa tão simples como uma questão semântica: Guerra Colonial, Guerra de Libertação. Duas verdades ou duas visões sobre o mesmo acontecimento. Acho que um bom romance é uma questão bem formulada, e eu próprio me fui perguntando uma série de coisas sobre a nossa presença em África.

Procuras mostrar no livro diferentes pontos de vista sobre essa presença?

Sim, porque quando escrevo um livro, não estou a fazer história nem ativismo. Interessa-me os matizes e as contradições das pessoas, interessa-me tentar perceber por que razão faziam o que faziam. Numa entrevista recente, num documentário, Dulce Maria Cardoso, que nasceu em Angola e veio para Portugal, diz algo como ‘o colono podia ser, ao mesmo tempo, algoz e vítima’. E eu concordo plenamente com isso. Por isso, não queria, num tempo em que vivemos tão polarizados, em que tudo é tribalizado — és de um lado ou és do outro — e em que é cada vez mais difícil encontrar matizes, cair nesse maniqueísmo. A literatura serve precisamente para isso: para não cairmos nessa visão a preto e branco. E foi isso que tentei fazer com o livro.

Quando escrevo um livro, não estou a fazer história nem ativismo. Interessa-me os matizes e as contradições das pessoas, interessa-me tentar perceber por que razão faziam o que faziam
Hugo Gonçalves

Como é que te preparaste para este romance? Entrevistaste pessoas envolvidas nesses acontecimentos?

Li muito. Tenho uma vasta bibliografia, historiografia, livros de ficção que vão da trilogia do Castro Soromenho sobre o colonialismo, ao livro da Guerra Colonial do Aniceto Afonso e do Carlos Matos Gomes, aos clássicos da literatura sobre o tema, como Os Cus de Judas, O Fado Alexandrino [de António Lobo Antunes], o livro do João de Melo, Autópsia do Mar em Ruínas. Vou deixar muitos de fora, infelizmente, porque não me vou lembrar de todos. O livro da Dulce Maria Cardoso, da Isabela Figueiredo, li muito sobre essa época, vi muitos documentários, há coisas na RTP sobre a época, especialmente sobre a descolonização, mas também do tempo da guerra e do colonialismo. Falei com pessoas e, além das pessoas com quem falei e dos livros que li, parecia que havia ao longo da minha vida todas essas personagens que foram povoando o meu crescimento, da minha infância, ao tempo em que eu trabalhei como jornalista e que tinham, de alguma forma, criado uma cosmologia que eu podia utilizar no momento em que me sentasse a escrever.

O livro teve revisão técnica do coronel Aniceto Afonso.

Havia uma questão que, para mim, era fundamental. Fosse a história dos guerrilheiros angolanos, a dos retornados ou a dos soldados portugueses, num assunto tão dado à polarização, ao branco e ao negro, ao vilão e ao herói, ao mau da fita e ao bom da fita, a literatura não se coaduna com esse maniqueísmo. Tem de criar personagens tridimensionais, que sejam simultaneamente boas e más e que vão mudando ao longo da vida. E uma das coisas que eu não queria de todo era que, mais do que enganar-me no nome de uma arma, de um carro militar ou numa expressão militar, houvesse alguma coisa que um soldado ou um oficial me dissesse: ‘Isto jamais aconteceria.’ Eu posso ter escrito uma coisa que não aconteceu, mas que era provável que acontecesse, porque nenhum soldado ou oficial conhece tudo o que aconteceu num cenário de guerra. É impossível saber tudo. Posso ter criado uma situação que uma companhia não tenha vivido, mas que outra tenha vivido. O que eu não queria era cometer um dislate, escrever uma coisa que fosse um absurdo. E ter o coronel Aniceto Afonso, com a relação que tem com a guerra e com a historiografia da Guerra Colonial, a ler o livro e, de alguma forma, dizer-me ‘isto não está bem, isto está bem’, e ter o aval dele, para mim, era importante.”

Há em O Império do Fim também uma ligação ao presente. O objetivo foi chamar a atenção para questões que marcam hoje a atualidade em Portugal?

Não, quando estou a escrever um livro, não estou a pensar na atualidade, nem no que se vê nos jornais ou na polémica das redes sociais. Mas, enquanto estava a desenvolver as personagens, que passam pelo início da guerra, pela guerra, são mobilizadas, atravessam a descolonização e regressam a Portugal — no caso do Cosme, não era um regresso, porque nunca tinha vivido em Portugal, tinha nascido em Angola —, parecia-me inevitável. Eu queria saber onde estavam essas pessoas na velhice. A história não podia acabar em 1975. E, escrevendo sobre o presente, tive de refletir sobre qual é o impacto do colonialismo no Portugal de hoje. E esse impacto é muito maior do que aquilo que as pessoas julgam. Porque a descolonização não foi, não é exclusivamente o êxodo de milhares de pessoas e a independência dos territórios que se tornaram países. Há uma descolonização que ainda não foi feita: a mental.

Há pessoas que não admitem sequer essa discussão sobre o passado colonial, que a consideram uma ofensa, uma traição à pátria, porque acreditam que éramos os melhores colonizadores de sempre
Hugo Gonçalves

Falta “descolonizar o pensamento”, como diz uma das personagens deste livro?

Tu vês isso quando se fala da descolonização, desde logo pelo quão trágico esse tema é para muitas pessoas. Basta teres uma conversa sobre o passado colonial: há pessoas que não admitem sequer essa discussão, que a consideram uma ofensa, uma traição à pátria, porque acreditam que éramos os melhores colonizadores de sempre. Já várias pessoas me disseram: ‘Você não acha que eles estavam melhor connosco?’ Além dessa ideia ser questionável, aqui já não estamos tanto a falar de literatura, mas de uma visão sobre o que aconteceu. Luanda podia ser uma das cidades mais desenvolvidas de África, sem dúvida, mas a verdade é que a esmagadora maioria da população negra vivia em bairros de barracas, em musseques, sem água e sem luz, e não tinha direito à cidadania portuguesa. As pessoas esquecem-se disso. Os únicos que tinham esse estatuto eram os assimilados. Quando estudas a propaganda do Estado Novo, a política de colonização, a ideia de que somos um império pluricontinental e multirracial — ‘não, nós somos diferentes dos ingleses, nós até nos misturamos’ —, percebes que isto é uma propaganda estudada e construída. Vê-se nos documentos, nos cartoons nos jornais, nos artigos, até académicos, da época, a forma como essa ideia é vendida. E, todavia, ainda hoje, há pessoas que acreditam nisso, nessa ideia de benevolência, de que éramos diferentes e de que o que está lá atrás está lá atrás e não se deve questionar a grandiosidade desse tempo. Mas o colonialismo é uma história de violência. Isso é inquestionável.

Mas voltando ao impacto do colonialismo no Portugal de hoje...

Em relação ao presente, posso contar uma história que é muito pessoal, mas que acho que ilustra a minha necessidade de falar disto, ou seja, de como o colonialismo afeta a forma como vivemos hoje. Tenho dois filhos. O mais velho tem agora cinco anos e, na altura, devia ter três ou quatro. Há uma certa idade em que os miúdos ficam obcecados com veículos pesados, com betoneiras, reboques, essas coisas. Um dia, o meu filho ficou comigo a ver uma grua a trabalhar num estaleiro de obras e perguntou-me se podia trabalhar nas obras quando fosse grande. Eu disse-lhe: ‘Filho, se quiseres, tudo bem.’ E ele respondeu-me: ‘Papá, mas para trabalhar nas obras é preciso ser escuro.’ Ele não conhecia a palavra ‘negro’ ou ‘preto’, não sabia o que era o racismo, não tinha ainda sido aculturado dessa maneira. Mas havia uma evidência para ele: as pessoas que estavam ali a trabalhar eram todas mais escuras do que ele. E isso é o que eu chamo uma evidência cega. Nós sabemos todos isso. Vais a um restaurante de fast food em Lisboa e quem trabalha lá são portugueses negros, jovens. Vais aos parques infantis e quem toma conta das crianças são mulheres cabo-verdianas. São coisas óbvias, por isso é que eu as chamo de evidências cegas. Nós aceitamos isso e não questionamos.

Há uma certa falta de maturidade na sociedade portuguesa. Eu chamaria até a isso uma infantilidade: não sermos capazes de discutir o nosso passado sem rasgarmos as vestes ou assumirmos uma atitude de autoflagelação
Hugo Gonçalves

Falaste na ferida que ainda é o colonialismo e a descolonização na sociedade portuguesa. Como é que se ultrapassa?

Eu não sei se pode ser ultrapassada, deve ser debatida e não se resume à descolonização, mas também à questão do colonialismo. Acho que além deste desfasamento, desta distorção da realidade ou da nossa incapacidade de ver aquilo que é evidente, há uma certa falta de maturidade na sociedade portuguesa. Eu chamaria até a isso uma infantilidade: não sermos capazes de discutir o nosso passado sem, por um lado, rasgarmos as vestes e dizermos ‘como é que se questiona a grandiosidade do Império Português?’ ou, por outro, assumirmos uma atitude de autoflagelação, dizendo ‘somos terríveis, somos os piores do mundo’. Tem de haver uma conversa, na academia e na sociedade, sobre aquilo que foi a nossa história. É, no fundo, uma questão de maturidade. Se chegas a uma certa idade e queres ser uma pessoa madura e equilibrada, olhas para trás na tua vida e dizes: ‘Olha, fiz mal àquela pessoa. Naquela idade, era um bocadinho imbecil. Não devia ter dito aquilo ao meu pai ou ao meu irmão.’ Se fazemos esse exercício individualmente, e devemos fazê-lo, porque não fazê-lo enquanto nação? Porque não ter essa conversa?

A fotografia da capa do livro é desses anos em Angola?

As capas têm o condão de desiludir as pessoas, porque já me perguntavam muito quem era a mulher da capa do Revolução, se era uma mulher do 25 de Abril. E acho que não vale a pena estarmos aqui a romantizar, as capas são feitas muitas vezes através de fotos de bancos de imagens e de montagens. Fotografias documentais remetem muito para um livro de não-ficção. Tentámos algumas, mas muitas remetiam para um certo tipo de livro, porque também existe no mercado um certo saudosismo sobre o colonialismo, sobre como era a vida em Luanda, com a Baía de Luanda, e nós não queríamos isso, porque o livro não trata disso. Chegámos à conclusão que, sendo os protagonistas dois amigos de infância [Cosme e Mouzinho]e acompanhando a história dos dois desde a escola primária até aos 75 anos, fazia sentido colocar estas duas crianças na capa.

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