No seu livro, que assume como muito pessoal, há uma Carolina que procura reconstituir a vida do Carlos e da Carole. Como é que chega Dulce, a autora, a esta personagem da Carolina?Demorei muito tempo a chegar a ela porque, na verdade, a sua história está muito colada à minha própria experiência pessoal de sobrinha de um tio que fez um pedido e abriu a “caixa de Pandora”. Precisava de ter distanciamento para poder, de facto, partilhar a narrativa com alguma isenção, com algum caráter menos emocional, pelo inevitável afeto associado à personagem. Na verdade, também resultou do encontro com outras pessoas que tinham mesmo a profissão de seguranças em locais isolados, o que lhes dava alguma liberdade de movimento e de reflexão e espaço para lerem. Isso fascinou-me porque pensei, “então, se calhar este é o caminho da minha personagem”. Ela tinha de ser alguém jovem, adulta, mas de uma geração que não vivenciou o antes e que vai ser surpreendida pela revelação familiar. Ao mesmo tempo, tinha de ter uma profissão que lhe permitisse liberdade de movimentos e de descoberta. Portanto, a personagem Carolina resultou, também, desse encontro com outras pessoas reais.Quando olhamos depois para as duas personagens que são realmente centrais na história, o Carlos e a Carole, o Carlos é o português que, a certo momento, se insurge contra a ditadura. Aconteceu com várias pessoas e ele é representativo dessas pessoas. A Carole, por seu lado, é uma francesa utópica, que por causa do Maio de 68 ou de ter um namorado português, ou por ambas as coisas, se envolve na política portuguesa?A Carole foi construída muito com base no testemunho direto. Agora, esse testemunho não me deu toda a informação. É uma jovem que cresceu durante o Maio de 68, que estudou na Sorbonne. Mas obrigou-me a muita pesquisa e investigação para compor a personagem, porque não tive, de facto, acesso a pormenores, não sabia, por exemplo, o que era ser adolescente durante o Maio de 68 em França. Também percebi que o seu posterior envolvimento com outra língua e outro país, resultou de um conjunto de fatores diversos que influenciaram a própria geração a que pertencia.Carole é uma mulher que quer mudar o mundo e o mundo acontece ser Portugal?É isso mesmo, eu acho que tem a ver com essa ideia. Apercebi-me que as personagens principais, apesar de oriundas de meios socioeconómicos e culturais tão distintos, fizeram, em certa medida, um caminho comum de tomada de consciência. No caso de Carole, temos uma jovem da alta burguesia que começa a tomar consciência daquilo que é a realidade da pessoa comum, dos trabalhadores. Vivencia um conjunto de experiências que suscitam uma mudança interior, nomeadamente, o facto de se envolver nas barricadas na Sorbonne, contra a realidade política de uma França conduzida por um “De Gaulle fossilizado”, como a narradora refere a dado momento; ou o seu voluntariado nos Bidonvilles, que possibilita o primeiro contacto com o português. Move-se contra as injustiças e incongruências daquele mundo, que é um mundo um pouco fechado e que a sua geração tenta abrir quase a pontapé nesse Maio de 68. A partir daí, vai ter esta veia idealista, mas que também é, possivelmente, genética. O pai de Carole é poeta, ele próprio vivenciou as inconsistências do mundo pela via literária, e ela vai bebendo disso e vai bebendo daquilo que é a realidade dela, mas assume o seu próprio papel, o que é muito interessante. Depois há o apaixonar-se por uma língua que não é a sua, o português. Ela vibra com aquela língua e quer saber mais. É um período de autodescoberta, também, que a leva a tornar-se verdadeiramente nesta personagem aventureira, eu diria, mas, sobretudo, rebelde e idealista.Há uma outra parte do livro que acho que é desafiante para si, na dupla condição de familiar de um ex-prisioneiro político e também de autora, que é quando começa a ter que abordar no romance questões como a tortura. Foi um desafio psicológico?Muito grande, foi muito difícil chegar aí. Eu tinha diálogos com o meu tio de grande proximidade, o que me permitiu abordar este tema com abertura, mas, em simultâneo, tomei consciência dos espaços do “não dito”. Os processos da PIDE não têm o registo das torturas. É pelos testemunhos diretos que vamos percebendo que aquilo, de facto, aconteceu e em que moldes é que aconteceu. A investigação também nos dá esse suporte. Porém, conseguir chegar a isto com ele, fez-me perceber que esta realidade lhe deixou um legado que ainda hoje subsiste. Isso, para mim, talvez tenha sido a coisa mais difícil de apreender.O seu tio é um homem que é hoje octogenário, e claramente moldado pelo que passou?Por estas experiências difíceis, sim. Sei que isso ainda hoje sobrevive dentro dele pelo facto de ser uma pessoa que tem de lidar com a depressão, com a dificuldade de dormir…. Tomei também consciência de que, para ele, e para tantos que passaram pela tortura, não houve, do ponto de vista da sociedade, do Estado, preocupação com a saúde mental. Não houve essa preocupação, porque não havia a sensibilidade que existe hoje. Estes homens e mulheres nunca tiveram direito a acompanhamento psicológico. Hoje, octogenários ou não, vivem com estes segredos, com este sofrimento, e fizeram o melhor que puderam com isto. Com mais dificuldade ou mais resiliência, lá encontraram recursos dentro de si para lidar com estas memórias traumáticas. Mas, de facto, o silêncio e a dor ainda moram em muitos deles, aquilo tudo ainda está lá…Nesse ponto, creio que O Processo tenta fazer uma travessia entre a memória traumática e a coragem desta geração que mudou o destino de quem somos hoje, apesar dos custos por vezes ocultos…Procurou proteger o seu tio com esta forma ficcional de abordar o tema, mas quem está próximo consegue identificar facilmente de quem se trata?Em certa medida, sim, mas mantive o nome próprio dele, de alguns amigos e de outras pessoas que privam ou privaram com ele e que fizeram parte da narrativa, por terem um percurso histórico no contexto da luta contra a ditadura, mas, também, para permitir que a personagem se mantivesse ligada à realidade..E este seu tio tem sido pressionado de alguma forma a assumir que é a inspiração da personagem que está no romance?Ele assume por si próprio. Sente-se muito orgulhoso deste romance. Aliás, foi-se entusiasmando com a perspetiva de a história dele ser um livro. Acho que esta geração sobre a qual O Processo se debruça, tem muito esta consciência de perenidade, neste momento da vida, e da importância do seu papel. E o facto de isto ser passado para um livro que não denigre nenhuma imagem, nem faz juízos de valor, pelo contrário, tenta de alguma forma seguir o caminho, perceber as motivações com alguma imparcialidade, é importante. Se foi bom ou se foi mau, foi o que foi. Creio que, para eles, é meritório. Da perspetiva que tenho tido, sentem-se acarinhados pela oportunidade de terem voz, de terem corpo, tornando-se personagens, tal como o meu tio.A Dulce nasceu em 1973, portanto um ano antes do 25 de Abril. E certamente aprendeu coisas sobre esta época. Mas mesmo professora, doutorada, mesmo sendo uma mulher sempre interessada, houve coisas que teve que descobrir para este romance?Eu tenho uma experiência pessoal de privação de liberdade porque estudei num colégio interno feminino. Portanto, para mim, a liberdade, a consciência da liberdade, chegou-me pela experiência educativa. Vivi a privação da família, a privação dos contactos sociais normais, porque éramos só raparigas. A liberdade foi uma aprendizagem, porque passei de um regime muito fechado para a escola pública, em que a liberdade era total e tive de aprender quais eram os limites da liberdade, porque a liberdade tem limites. Assim, não me foi muito difícil, pela minha experiência pessoal, perceber um pouco o que é a privação de liberdade a um nível mais psicológico ou até físico, pela limitação espacial. Aquilo que verdadeiramente me surpreendeu, que eu aprendi, que considerei inspirador, prende-se com as características das pessoas que fui entrevistando e que entram também no romance. A resiliência que tiveram de ter em tempos de grande perigosidade, a criatividade para resolver certas situações… A coragem. Eu acho que a coragem revelada naquela época foi a coisa que mais me surpreendeu, porque hoje em dia fazem-se apelos para alguém ajudar em alguma coisa, ou para as pessoas se manifestarem em relação a alguma questão, e esta coragem parece diluída. Mas também é verdade que era um tempo próprio e especial…Estas pessoas tinham ideologia, tinham sonhos, mas sobretudo tinham coragem, porque sabiam que havia um risco físico grande se qualquer atividade fosse descoberta.Exato, eles sabiam as consequências, e esta coragem foi talvez aquilo que mais me maravilhou e inspirou a seguir a história do meu tio, porque eu não vejo essa coragem hoje em dia. Talvez seja fruto dos tempos, se calhar ela adormece e volta a surgir no momento certo, assim espero. Só descobrimos até que ponto somos resilientes e corajosos quando as circunstâncias o exigem… Eu tive a perceção, quando li o livro, que havia uma história principal, que é claramente centrada no seu tio e na própria Carole, no sentido da luta política. Há uma segunda história, que é aquela paixão da Carole pela língua portuguesa, que vai persistir, mas há também uma terceira história que acho que também está lá presente, que é esta aventura da emigração para França. A tradição de emigração em Portugal é muito antiga, mas esta emigração durante o Estado Novo, sobretudo para a Europa, era um ato de desespero, mas também era um ato de coragem. Muito, e era até um ato de coragem, em certa medida, para aqueles que ajudavam a fazer a passagem da fronteira. No caso dos jovens d’O Processo, alguns deles envolveram-se nisso mesmo sabendo que também podia haver consequências e, no entanto, não recuaram. Quem é que atravessava a fronteira? Os jovens que não queriam ir para a guerra, os jovens que não se identificavam com este regime, aqueles que estavam a fugir da possível prisão. Eram muitos os jovens que iam embora.Mas havia também quem fugisse da pobreza. Do regime, sim, mas por causa da pobreza do país.Exatamente, prioritariamente iam os homens que, depois, podiam ou não, chamar a família, iam em busca de um destino melhor. Mas neste contexto global, houve um êxodo sanguíneo, imensas pessoas que vão à procura de outras circunstâncias de vida a vários níveis. Para fugir da guerra, por melhores condições financeiras, por melhores condições intelectuais, artísticas.Fez muita investigação na Torre do Tombo, que tem um espólio enorme para quem quiser estudar sobre esta época e outras. Na escola, a história contemporânea de Portugal, este período do Estado Novo, é ensinado com alguma profundidade?Eu não sou da área de História, mas creio que os docentes de História têm feito um grande esforço para tornar a História, nomeadamente, este período, muito real e próxima, levando os jovens a visitas de estudo, partilhando testemunhos. Parece-me que esse esforço tem sido feito. Questiono-me, contudo, se é suficiente ou se a linguagem estará adequada aos jovens. Preocupa-me que as humanidades estejam numa fase crítica, porque a História sozinha não faz nada. Tem de haver um esforço de interpretação, de capacidade de leitura. Não pode ser só ónus dos professores de História. A interdisciplinaridade é fundamental, a História não deve ficar fechada na disciplina de História, deve antes comunicar com outras áreas.Por questões geracionais, muitas vezes os jovens já têm pais que não viveram isso e já não têm sequer avós para testemunhar. Portanto, perde-se também esse testemunho oral que as pessoas recebiam até agora, não é?Sim, felizmente há projetos que ainda tentam e conseguem fazer esta recolha pela mão dos próprios jovens, algo extremamente meritório. Mas, de facto, está-se a perder essa capacidade, porque as pessoas vão partindo, por isso é tão necessário que a escola faça esse caminho de recolha de informação e de diálogo direto com aqueles que testemunharam e que viveram aquele tempo. A História viva é a coisa mais importante que pode haver. O Processo é prova disso mesmo.O seu tio algum dia tinha dado o seu testemunho, por exemplo, em atividades para as escolas, ou era uma pessoa que guardava tudo para ele?Não, não. Colaborou em várias revistas no período pós-ditadura, pós-25 de Abril, e teve, a nível associativo, uma vivência muito ativa e dinâmica do ponto de vista cultural. Não tanto centrada nas escolas. Mas sei que, por exemplo, a Associação 25 de Abril tem feito um trabalho muito meritório em levar às escolas estas gerações que ainda estão vivas e que testemunharam tudo. E há museus, como Peniche ou Aljube, que partilham de forma exemplar e didática a história dos que lutaram pela liberdade e pela democracia. Uma última pergunta. Carlos e Carole não se chamam Carlos e Carole?Chamam-se Carlos e... [risos].Estado Novo: Livro revela que PIDE recebeu formação da Gestapo e da CIA