Cinco mil anos de escravatura

Cinco mil anos de escravatura

Novas investigações esclarecem os erros históricos e impedem o continuar de tomadas de posição sem conhecimento no debate sobre a prática da servidão humana ao longo dos séculos.   
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Cada vez mais os portugueses têm análises e investigações sobre um capítulo fundamental da história de Portugal: a colonização africana. Somados quatro livros recentes, temos mil e quinhentas páginas de factos, argumentos, teorias e opiniões que pretendem estabelecer uma revisão e a fixação do passado histórico. A escravatura e o tráfico dominam três dos volumes e no quarto está também presente para encontrar as razões da traumática descolonização das províncias ultramarinas em África iniciada em 1974. Além dos novos conhecimentos que são apresentados nestes livros, o principal a destacar é o olhar desumanizado que existia em relação aos seres humanos comercializados sem qualquer respeito.

O jornalista Laurentino Gomes transformou-se num dos principais investigadores da colonização portuguesa do Brasil, descrevendo com bastante humor o período que vai da fuga da corte portuguesa para o seu país até à independência brasileira e o fim da monarquia (1808, 1822 e 1889). A suceder a essa trilogia, o humor desvaneceu-se porque o tema era o da Escravidão, o primeiro título da sua segunda grande investigação histórica. O livro mais recente intitula-se Cobiça, Esplendor e Miséria, e retrata a realidade brasileira entre o século XVII e XIX. O relato da organização da colónia brasileira está muito focado na descoberta de ouro e pedras preciosas que enriqueceriam os cofres nacionais, bem como as outras formas de economia que vigoraram nessa colónia. Mas é em muito a questão da escravatura e de como o tráfico acontecia que ainda orientam a investigação do autor, que teve acesso a uma enorme quantidade de informação inédita e, principalmente, a transformou num relato histórico fundamental devido à sua fluência de escrita. 

O subtítulo do ensaio Cataclismo Atlântico de David Eltis é Repensar o Tráfico Atlântico de Escravos, frase que indica de forma clara a intenção desta investigação: acrescenta a essa revisão histórica impressionantes estatísticas, como a que quantifica numa das páginas (p. 101) aquele que foi um dos maiores transportes deste comércio, o da fragata Brasil que em 1658 leva de Luanda para Pernambuco 1200 escravos. Inclui também inúmeras descrições baseadas em testemunhos da época de vários intervenientes nessa prática comercial: a superlotação dos navios negreiros, as doenças a bordo, as revoltas dos escravos, a maximização do lucro e a aceitação como “condição infeliz” a das vítimas desse tráfico. O autor começa por analisar as várias épocas de escravatura desde a Antiguidade até aos últimos séculos, a sua proveniência e representação geográfica. Após essa panorâmica, rapidamente se dedica aos principais “responsáveis” num capítulo intitulado As Américas e o Comércio de Escravos no Atlântico: os Ibéricos e os Demais, a que acrescenta novos capítulos sobre a preponderância europeia na atividade e, antes de ir até à Abolição e ao presente, dedica-se a explicar O Sistema Português. Como o facto de no início do comércio de escravos também se preencherem os porões com muitas mercadorias, sendo que a partir de 1550 estava estabelecido o novo paradigma do tráfico e das embarcações construídas de forma a potenciar o transporte humano em quantidade.

Nas últimas páginas de A Verdadeira História da Escravatura de Martin Plaut estão duas situações interessantes para o leitor português: o tema das reparações tão em moda e que diz respeito apenas ao tráfico transatlântico de escravos, que representou no máximo 25% da escravização de africanos ao longo da história; e a total ausência de autores nacionais na bibliografia consultada. Sobre a primeira, não vale a pena comentar antes de ler esta enciclopédia sobre cinco mil anos de escravatura em África. O autor não se obriga a registar o que sucedeu aos milhões de escravos nas terras para onde foram levados, antes se preocupa com a prática no próprio continente africano, sendo que não evita dizer que “a escravatura perdura até aos dias de hoje, com os refugiados retidos nos centros de detenção oficiais da Líbia a serem vendidos pela melhor oferta”. Desde as caravanas de escravos que percorriam o Sara para norte e sul, negociando também produtos, além da rota mais antiga que é a do rio Nilo; a utilização constante da escravatura de não-muçulmanos pelo islão, que a levaram até à Península Ibérica, de onde partiram muitos escravos brancos, especialmente raparigas, no sentido contrário; a quase ignorância sobre o tráfico no Oceano Índico não evita que se saiba terem sido mais de 12 milhões os escravos aí comercializados; que a chegada dos portugueses ao Índico deu curso às redes já existentes e aperfeiçoaram-se esses sistemas como uma grande fonte de escravos da África Oriental, bem como da costa ocidental, para as plantações da América, a par da concorrência francesa, holandesa e britânica... Ainda o livro vai a meio quando se chega à disputa luso-britânica pelo comércio de escravos nesta reconstituição exaustiva e histórica, bem como quase infinita que é esta excelente investigação de Martin Plaut.

Também A Descolonização e os seus antecedentes, de José Sá Carneiro, não ignora o peso da escravatura/comércio na análise que faz ao fim do império colonial português com a descolonização. Logo na introdução esclarece que “sem uma perspetiva histórica da expansão europeia e do colonialismo, não se afigura possível avaliar com objetividade a descolonização”, que é o propósito deste livro. Certifica que “Portugal, Espanha, Inglaterra, Holanda, Bélgica, França e Alemanha foram os coautores da colonização das Américas, do comércio transatlântico de escravos e do colonialismo em África” e faz perguntas que continuam atuais: “Uma colonização singular?” ou “As variantes do racismo”. No entanto, sendo o tema a descolonização e esclarecidas as premissas para se chegar a conclusões sobre o que aconteceu após um processo de exploração humana de séculos, o processo histórico confronta-se com a guerra colonial a partir de 1961 e uma recusa de muitos militares anos depois em continuar os combates, de que irá resultar a Revolução de 1974 e a consequente independência das colónias portuguesas. O autor discorre sobre os vários passos em todos os territórios, a desmobilização militar portuguesa, as disputas entre movimentos independentistas e o inevitável êxodo dos colonos portugueses. No último terço do livro, a questão da escravatura é substituída pelo fim da colonização, mas a sua inclusão nos dois terços anteriores é muito benéfica para se entender a questão.     

COBIÇA, ESPLENDOR E MISÉRIA

Laurentino Gomes

Porto Editora

442 páginas

CATACLISMO ATLÂNTICO

David Eltis

Guerra & Paz

393 páginas

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA ESCRAVATURA

Martin Plaut

Clube do Autor

333 páginas

A DESCOLONIZAÇÃO E OS SEUS ANTECEDENTES

José Sá Carneiro

Gradiva

319 páginas

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