Guardas no telhado: as feras da cumeeira da arquitetura tradicional chinesa
Estas feras não são simples ornamentos: o seu número obedece a regras e a sua disposição segue uma sequência ordenada, respeitando um antigo sistema que assinala a hierarquia do edifício – quanto mais alta a categoria, mais longa a fila. O grau mais elevado desse sistema pode ser encontrado no Salão da Suprema Harmonia, na Cidade Proibida de Pequim. No extremo da cumeeira, um imortal montado numa fénix lidera o cortejo, e atrás de si perfilam-se dez feras, caso único entre os edifícios antigos existentes na China. Quem são elas? E por que são dez?
A história começa com um prego. O telhado dos palácios era coberto com telhas vidradas, um tipo de telha de cerâmica com revestimento de esmalte. As telhas das várias vertentes do telhado encontravam-se sobre a cumeeira, mas era precisamente aí que surgiam mais problemas, pois as telhas podiam escorregar e a chuva infiltrar-se.
Os artesãos fixavam as telhas da cumeeira com pregos de ferro e depois cobriam cada cabeça de prego com uma pequena fera, para impedir que a chuva penetrasse no buraco do prego. Aquelas transformaram-se, de peças utilitárias, em criaturas míticas às quais foram atribuídos significados simbólicos ligados à invocação de bênçãos e à proteção da casa, assumindo uma nova tarefa: assinalar o estatuto hierárquico do edifício.
Na conceção tradicional chinesa, os números ímpares são considerados yang, representando o princípio masculino e a dignidade, pelo que as feras da cumeeira só se usam em números ímpares como um, três, cinco, sete e nove (sendo as dez feras do telhado do Salão da Suprema Harmonia a única exceção a esta regra, por ser este o edifício de categoria mais elevada); quanto maior o número, mais elevada a categoria do edifício.
Assim, basta contar as pequenas feras nos cantos dos beirais para se ler, aproximadamente, o estatuto de um edifício. O palácio imperial levou este conjunto de regras ao extremo. Então, quem são, afinal, os membros desta fila do Salão da Suprema Harmonia?
À frente de todos está o líder, um imortal montado numa fénix. Atrás do imortal, alinham-se dez feras em ordem. As primeiras três são o dragão, a fénix e o leão. O dragão traz a chuva e, na era do regime imperial, era símbolo do poder; a fénix é a rainha das aves; o leão é o rei das feras e guarda o palácio.
Mais atrás vem um par de cavalos divinos: o cavalo celeste tem asas e pode voar, enquanto que o cavalo marinho pode mergulhar nas profundezas do mar. Seguem-se o suanni, semelhante a um leão, e o yayu, com cauda de peixe e escamas, ambos lendariamente capazes de invocar nuvens e fazer chover.
Em oitavo lugar está o xiezhi, que, segundo a lenda, com um único chifre na cabeça, sabe distinguir o certo do errado e investe sobre a parte em falta numa disputa; durante centenas de anos foi o símbolo da Justiça na China.
Depois do xiezhi vem o douniu, com cabeça de boi e corpo de dragão, lendariamente capaz de conter cheias. A décima, que fecha a fila, tem cara de macaco, asas nas costas e um bastão ritual na mão, mas o seu verdadeiro nome não chegou aos nossos dias. Por estar em décimo lugar, os artesãos chamaram-lhe simplesmente hangshi, em que shi significa dez. Só o Salão da Suprema Harmonia a usa para fechar a fila. Reza a tradição popular que é a encarnação do deus do trovão e do relâmpago, e diz-se que pode proteger contra os raios, a par do fogo, uma das maiores ameaças para um palácio construído em madeira.
Além das feras, há no telhado figuras de peso ainda maior. Nas duas extremidades da cumeeira principal do salão, agacha-se, de cada lado, uma fera enorme com cabeça de dragão e cauda de peixe, com a boca aberta tragando a cumeeira. É o chiwen, vulgarmente chamado “fera traga-cumeeiras”, cuja função é selar a junta onde as vertentes do telhado se encontram.
O par de feras do Salão da Suprema Harmonia é o maior entre os edifícios antigos existentes na China, pesando cada uma cerca de 4,3 toneladas, aproximadamente o peso de três automóveis.
Pôr guardas no telhado não é ideia exclusiva da China. Nas paredes externas das catedrais góticas europeias também encontramos gárgulas de pedra, mas têm funções muito diferentes. As gárgulas europeias são condutas de escoamento – a água da chuva é expelida pela boca da fera –, mas carregam também um sentido religioso de expulsar o mal. As pequenas feras do Palácio Imperial não escoam água, guardam as cabeças dos pregos, assinalam a hierarquia e representam também o desejo de atrair boa fortuna e assegurar a proteção da casa.
Da próxima vez que visitar o Palácio Imperial, comece por olhar para cima, para a cumeeira. Contando do imortal montado na fénix até à décima fera descobrirá que estas pequenas feras não são apenas ornamento: por trás delas está um sistema de hierarquia que se prolongou por centenas de anos, bem como os votos e a reverência que os chineses colocaram no telhado.
INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS

