Na província de Sichuan, na China, três rios - o Minjiang, o Qingyi e o Dadu - confluem junto à cidade de Leshan. Sobre a imponente falésia da montanha Lingyun, permanece sentada há mais de 1300 anos uma colossal estátua de Buda. Trata-se do Grande Buda de Leshan, uma escultura em pedra do Buda Maitreia com 71 metros de altura, a maior do mundo esculpida em penhasco.Em 1996, a UNESCO incluiu o Grande Buda e o Monte Emei na Lista do Património Mundial, reconhecendo-os como Património Cultural e Natural da Humanidade.Um projeto de séculos nascido de compaixãoA construção do Grande Buda teve origem num voto de compaixão. Há muitos séculos, a confluência dos três rios gerava correntes violentas que provocavam frequentes naufrágios, pelo que um monge chamado Haitong fez o voto de esculpir uma imensa estátua de Buda na face do penhasco, na esperança de apaziguar as águas turbulentas e proteger as populações locais.Sob a direção de Haitong, esta obra monumental teve início em 713 d.C. e prosseguiu com apoio imperial e popular ao longo de quatro reinados. Foram necessários 90 anos para a conclusão do projeto, em 803 d.C. Mais do que uma criação artística, esta obra foi uma maratona de fé, perseverança e esforço coletivo ao longo das gerações.A engenhosidade escondida por trás da estátuaO que impressiona não é apenas a imponência da estátua, mas também a sofisticada engenharia interna que a protegeu das intempéries por mais de mil anos. Em 2020, Leshan enfrentou uma inundação de grandes proporções, mas a estátua permaneceu intacta graças a um engenhoso sistema de drenagem oculto, cuidadosamente concebido pelos artesãos da Dinastia Tang.Os artesãos escavaram discretos canais de drenagem e cavidades de ventilação quase impercetíveis entre as espirais do cabelo, nas pregas das vestes e atrás das orelhas do Buda, tendo integrado ainda sistemas distintos para o escoamento das águas subterrâneas no interior da estátua..O conjunto destas soluções constitui uma rede sofisticada de ventilação e controlo da humidade, assegurando a proteção eficaz da estátua contra a infiltração das chuvas e a erosão. É essa sabedoria ancestral que permitiu ao Buda atravessar os séculos e manter, até hoje, a sua presença solene e majestosa.Uma experiência que impressiona os sentidosPara sentir verdadeiramente a grandiosidade do Buda, podemos descer até aos seus pés pelo passadiço à esquerda da estátua. De lá, ao erguer o olhar para os seus 71 metros de altura, sente-se de imediato um assombro quase físico - a materialização da ideia de que “a montanha é um Buda e o Buda é uma montanha”. Pode ainda percorrer-se o íngreme “Caminho das Nove Curvas”, do lado direito, subindo até ao miradouro junto à cabeça do Buda, onde é possível apreciar de perto os detalhes esculpidos em pedra do rosto sereno e das 1021 espirais de cabelo.. Já a partir do rio, num passeio de barco, a visão panorâmica da estátua transporta-nos através do tempo para o esplendor da Dinastia Tang.Do Grande Buda ao diálogo globalVisitar o Grande Buda de Leshan é mais do que contemplar uma obra-prima de dimensão mundial; é testemunhar o extraordinário esforço da Humanidade em busca de fé e serenidade. Cada detalhe da escultura narra uma história milenar de compaixão, perseverança e sabedoria. Diante dela, não se sente apenas a frieza e a magnitude da rocha, sente-se igualmente o calor de uma herança que atravessou mais de dez séculos e a marca intemporal de um engenho excecional. É uma experiência profunda, que merece ser vivida em pessoa.Curiosamente, o Grande Buda tornou-se também um símbolo de amizade entre povos. Para celebrar o estabelecimento de laços com a cidade francesa de Issy-les-Moulineaux, a cidade de Leshan ofereceu uma réplica requintada do Buda, que hoje parece contemplar, à distância, a Torre Eiffel - um belo símbolo do encontro entre as civilizações do Oriente e do Ocidente.. INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS