Qual foi a importância de António Lobo Antunes para a literatura portuguesa? Para Francisco José Viegas, professor, editor e diretor da revista Ler, "é imensa e variada, não só por ele ter atravessado vários estilos, vários registos, vários interesses, mas também porque é de uma imensa originalidade e sofisticação", diz ao DN.António Lobo Antunes, considera, está entre os três ou quatro escritores portugueses que na sua escrita não procurou dar lições de moral ou lições sobre a história política e social do século XX: "Não, ele fazia o retrato através das suas personagens, daquela polifonia de vozes que ele tinha, que ele guardava, que ele misturava, aquelas personagens faziam uma polifonia, era uma espécie de ópera". . A força de Lobo Antunes, diz Francisco José Viegas, vê-se também pela influência que exerceu sobre outros escritores. "Ser influente é, de facto, ter uma voz muito poderosa; nós podemos falar de quem escreve 'à Lobo Antunes', de quem foi marcado por aquele estilo, por aquelas preocupações". Um deles, aponta, é Francisco Mota Saraiva, vencedor do Prémio Literário José Saramago 2024 com ao livro Morramos ao menos no Porto, e outro é Rodrigo Guedes de Carvalho que, além de jornalista da SIC, é escritor. "Foram muito influenciados pelo António Lobo Antunes, porque ele captou muito bem o espírito do tempo, da pluralidade do tempo, e do facto de não ser possível, a partir de certa altura, contar uma história com princípio, meio e fim. Não porque não haja princípio, meio e fim, mas porque geralmente nos apetece começar para outro lado qualquer e isso foi uma grande lição. Acho que isso faz parte da originalidade do Lobo Antunes". Nos dois primeiros romances de António Lobo Antunes, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, diz Francisco José Viegas, "percebia-se que estava ali uma coisa nova, percebia-se que aquilo não era uma coisa para fazer história da guerra, ditadura de guerra, aquela coisa contra o colonialismo, contra a guerra colonial. Não, era para transmitir um ambiente". O editor recorda-se de não ter partido para a leitura daquelas obras com muito entusiasmo. "Eu lembro-me de que fiquei muito reticente a princípio, não gostava muito da história da ditadura de guerra e também não havia praticamente [outras obras], e lembro-me de ler aquilo e dizer: "isto não é propriamente a história das desgraças, há aqui qualquer coisa". E essa qualquer coisa depois eu acho que cresceu quando o Lobo Antunes - não é que tenha esgotado a guerra, porque ela votava sempre nos seus livros -, mas quando mudou e passou a escrever sobre Portugal e histórias particulares". Entre a sua ampla produção literária, Francisco José Viegas destaca o Manual dos Inquisidores, de 1996. "É um portento. Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura (2000) também, a A Ordem Natural das Coisas (1992), mas o Manual dos Inquisidores é, para mim, é um dos seus grandes livros". Aquilo que motivava Lobo Antunes a escrever, afirma, eram "as suas obsessões, as suas histórias, as pequenas histórias que ele conhecia. Quer dizer, é aquilo que faz um escritor, um escritor a sério. Por isso é que eu insisto sempre que o António Lobo Antunes é um dos grandes retratistas da sociedade portuguesa da segunda metade do século XX, como José Cardoso Pires ou Agustina... mas mais o Cardoso Pires, a Agustina tinha outra têmpera"."Não por querer fazer história, não por ser historiador, mas porque as suas personagens respiravam esse mundo e transmitiam esse mundo", acrescenta. O Manual dos Inquisidores é o exemplo maior disso, considera. É um romance sobre poder, sobre a relação entre ministros e Salazar e "não há ali os maus, não, ele dá-nos aquela coisa fina, sofisticadíssima. Nós, a certa altura, estamos no meio de um mundo irrespirável e não damos conta. Isso é que é a grande arte dele". Do ponto de vista formal, Lobo Antunes não se prendia a nada. "Não havia preocupação, mas era uma condição da própria escrita dele. Deixou que a prosa fosse completamente contaminada pela linguagem poética, que é uma marca essencial do António Lobo Antunes, esta contaminação. Ele não ficava preocupado. Estou aqui a fazer poesia... Não, ele deixava ir."A partir de certa altura António Lobo Antunes ficou fascinado pela poesia, lia os grandes poetas, revela o editor. "Não é por acaso que ele começa a pôr como títulos dos romances versos de grandes poetas. E era um bom leitor de poesia. Sou aliás, testemunha disso. Falei com ele várias vezes sobre poesia e sobre essas coisas", diz o antigo secretário de Estado da Cultura.A fama de "mau feitio"Francisco José Viegas admite que António Lobo Antunes não era uma pessoa com quem era fácil lidar, mas com o tempo a situação também foi mudando. "Era difícil, nós tivemos uma fase em que não nos dávamos, tivemos outra fase em que nos demos muito bem, felizmente foi a última metade da nossa relação, que foi muito boa, porque, a certa altura, ele perdeu também aquela fama de enfant terrible. Mas ele tinha um mau feitio natural que não era desagradável de todo". Diz que de António Lobo Antunes não tem "uma única queixa", e que "na última fase era uma pessoa de uma grande ternura, uma coisa inesperada". Eterno candidato ao prémio Nobel da Literatura, António Lobo Antunes morre sem o receber. Mas para Francisco José Viegas, "o Nobel perdeu Lobo Antunes, não foi ele quem perdeu o Nobel. Acho que o Nobel perdeu a oportunidade de ter Lobo Antunes", diz ao DN. Diz o editor que o tema foi importante para o escritor, mas que a certa altura, já não era um assunto. Quer dizer, ele tinha pena, mas não era um assunto e dedicou-se mais a escrever do que a fazer guerra por causa disso. Acho que se conformou com isso, mas sem grande tristeza".O Governo decretou um dia de luto nacional pela morte do escritor (7 de março). "É uma grande figura e é importante percebermos que a figura de luto nacional pode ser decretada não só por políticos e futebolistas, mas também por pessoas ligadas à cultura, à literatura, à música, etc.", sublinha Francisco José Viegas..António Lobo Antunes (1942-2026): O escritor dos livros insones."António Lobo Antunes mudou a literatura portuguesa"