Mieke Everaet e Jorge Pé-Curto, cada um junto a uma das suas obras.
Mieke Everaet e Jorge Pé-Curto, cada um junto a uma das suas obras.Foto: Leonardo Negrão

‘Fragiel&Sólido’. Diálogo entre uma ceramista belga e um escultor português

A ideia de unir as peças em porcelana de Mieke Everaet e as obras em mármore de Jorge Pé-Curto nasceu da imaginação da curadora Griet Meert. O resultado pode ser visto no Instituto Camões em Lisboa até dia 29 de abril.
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Um personagem carrega uma espécie de enorme menir no topo do qual um outro personagem está sentado. A obra de Jorge Pé-Curto chama-se A Divisão do Trabalho e é uma das que integra a exposição Fragiel&Sólido, que pode ser vista no Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, até 29 de abril (entrada livre). Nesta mostra, as obras em mármore do escultor português entram em diálogo com as taças da ceramista belga Mieke Everaet, num contraste muito humano entre força e a fragilidade.

Tudo começou precisamente no dia em que outra belga, Griet Meert, viu pela primeira vez A Divisão do Trabalho. Há uns anos, “vi a peça no Alentejo, em Estremoz”, explica a curadora. A também coordenadora do centro Viva-Cultura e professora de português apaixonou-se logo pela escultura de Jorge Pé-Curto, de tal forma que só o facto de ir viajar de avião a impediu de a comprar. Mas não desistiu de contactar o escultor alentejano. E após “muitos anos e muitos contactos, consegui convencê-lo a fazer uma exposição na Bélgica”.

Foi em 2024 e para acompanhar as esculturas de mármore de Jorge Pé-Curto, Griet Meert lembrou-se de convidar a ceramista belga Mieke Everaet. “Conheço a Mieke há muitos anos”, conta a curadora, que então imaginou uma exposição que juntasse “o mármore do Alentejo, um material sólido, mas com uma mensagem sobre a fragilidade humana, e um material frágil como a porcelana, que apesar de frágil resulta numa peça sólida”. E depois do sucesso em Baardegem, uma aldeia perto de Aalst, na região da Flandres, a exposição chegou agora a Lisboa.

“As peças que estão aqui são ilustrativas do meu percurso. Eu sou um artista da matéria, um escultor da matéria. O que hoje se poderia dizer que é uma espécie em vias de extinção, tal é a predominância da arte conceptual”, explica Jorge Pé-Curto ao DN poucas horas antes da inauguração da exposição. Nascido em Moura, mas a viver em Almada desde os dez anos, o escultor garante que a escolha das peças que agora podem ser vistas na sala de exposições do Camões I.P. reflete muito “o gosto da Griet”. Mas todas se inserem na temática central da obra de Jorge Pé-Curto: o papel do Homem e a sua relação com a natureza.

Caçadores de Ninhos, de Jorge Pé-Curto.
Caçadores de Ninhos, de Jorge Pé-Curto.Foto: Leonardo Negrão

Esta é bem visível em Caçadores de Ninhos, a peça colocada em destaque para a inauguração. “Trata-se do Homem predador insaciável. Na natureza e nos ecossistemas, o predador tem um papel fundamental de equilíbrio. Mas o Homem não. O Homem é um desestabilizador”, explica o artista, que também trabalha outros materiais.

Para Mieke Everaet, apesar das inegáveis diferenças, há “um equilíbrio entre materiais como a porcelana e o mármore”. Rodeada pelas suas obras, a ceramista belga recorda que “a porcelana é terra, o elemento-base do nosso planeta. É o elemento mais puro, mais branco. O mesmo se passa com o mármore”. Para ela, “porcelana e mármore são materiais iguais, com o mesmo valor”. Mas destaca a forma como Jorge Pé-Curto, com o seu material, cria peças tão sólidas, enquanto ela cria peças tão frágeis com a porcelana.

Formada em Artes Plásticas e Cerâmica na Academia Real de Belas-Artes de Antuérpia e no Instituto Nacional Superior, Mieke Everaet há 30 anos que se dedica ao “símbolo milenar da arte cerâmica: a taça”, como se lê no dossier de imprensa da exposição. Mas porquê a taça? “Para mim a taça não é um objeto de uso comum, é um elemento de conforto, de proteção, onde se guardam lembranças”, explica.

Foto: Leonardo Negrão

Apesar de logo em 1991 ter descoberto - e passado a admirar - a artista portuguesa Vera Sousa, cujo obra descobriu na Europália (exposição dedicada à cultura portuguesa que decorreu em Bruxelas), só em 2024 Mieke Everaet veio pela primeira vez a Portugal, para um congresso da Academia Internacional de Cerâmica em Alcobaça e nas Caldas da Rainha. Mas a impressão foi tão forte que passou a integrar elementos da cultura portuguesa em algumas das suas peças, dos azulejos à calçada portuguesa.

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