Festivais de música em Portugal: "Até ao momento tudo se mantém"

Concertos de março e abril estão a ser cancelados ou adiados mas até agora não afetam os festivais em Portugal. Nos EUA, a Live Nation, a maior promotora de eventos musicais, não está a conseguir controlar os danos.

Esta quinta-feira, o músico Nick Cave anunciou no seu site oficial o adiamento da digressão que o traria a Lisboa a 19 de abril para um muito esperado concerto na Altice Arena. No dia anterior, Álvaro Covões tinha já confirmado ao jornal Blitz o adiamento para data incerta desse concerto, assim como do de Bon Iver (15 de abril), também na Altice Arena, e de Yes (no dia 24) no Campo Pequeno, em Lisboa. Devido à pandemia de covid-19, com as medidas de distanciamento social que impedem eventos com mais de 100 pessoas e com as limitações às deslocações entre vários países, é impossível garantir a realização de qualquer concerto nos próximos tempos.

"Isto cada dia é um dia, mas obviamente que relativamente aos concertos de abril, face aos acontecimentos recentes, estamos a trabalhar no sentido de mudar as datas", afirmou o diretor da promotora Everything Is New que, apesar de tudo, sublinhando que adiar não é cancelar. "Estamos a trabalhar para arranjar novas datas", garante agora ao DN. Além disso, a promotora que organiza o festival Nos Alive não tomou ainda nenhuma decisão de alterar o evento previsto para 8 a 11 de julho.

"Faltam 111 dias para o festival e queremos acreditar que até lá a situação em Portugal e no resto do mundo vai voltar ao normal", diz Covões ao DN. "O que nós temos de fazer hoje é tomar todas as precauções indicadas pelas autoridades para que a situação se resolva o mais rapidamente possível. Se não vai ser uma tragédia", antevê. Neste momento, a Everything Is New já tem um plano de contigência que prevê a montagem do Nos Alive numa prazo de apenas duas a três semanas. Isso é algo que não seria possível em Glastonbury, que se deveria realizar no final do junho e que já foi cancelado, porque a montagem do evento numa quinta em Somerser demora pelo menos três meses.

Esperar para ver: essa é, para já, a posição dos promotores dos festivais de música em Portugal. Apesar dos eventos de março e de abril estarem comprometidos, ainda há esperança de que a vida volte à normalidade a tempo de se realizarem os festivais de verão, cuja temporada abre geralmente com o Nos Primavera Sound (11 a 13 de junho) e com o Rock in Rio Lisboa (20 a 28 de junho).

"Estamos a seguir de forma atenta o momento que atravessamos e seguiremos rigorosamente todas as indicações das autoridades de Saúde, como fazemos sempre, tendo como primeira prioridade o bem-estar do nosso público e de todas as equipas envolvidas na realização dos festivais", esclarece ao DN a assessoria da Música no Coração, responsável por eventos como o Sumol Summmer Fest (3 e 4 de julho), Super Bock Super Rock (16 a 18 de julho) ou Meo Sudoeste (4 a 8 de agosto).

"Os festivais de verão estão ainda a alguns meses de distância e estamos a trabalhar para que se realizem nas datas previstas. Importa agora que todos sigamos todas as recomendações das autoridades competentes, mostrando todo o nosso respeito pelo trabalho incansável dos profissionais de saúde, que não podem ficar em casa, para que nos possamos voltar a reunir com os nossos públicos este ano, no nosso ponto de encontro habitual, os Festivais de verão", diz a promotora de Luís Montez.

Live Nation: a queda de um gigante

É claro que as promotoras portuguesas estão a seguir com atenção a situação no resto do mundo, em particular na Europa e nos EUA. Depois do cancelamento do festival Glastonbury, em Inglaterra, e do Festival Eurovisão da Canção, que este ano se deveria realizar nos Países Baixos, na passada quarta-feira, a americana Live Nation, a maior empresa de entretenimento ao vivo do mundo, viu o preço das suas ações voltar a cair quase 15% na bolsa de Nova Iorque, situando-se atualmente, depois de vários dias em queda, nos 33,92 dólares (31 euros).

Desta forma, a empresa norte-americana que detém participações em diversos festivais em todo o mundo caiu para um valor de mercado de pouco mais de 5,8 mil milhões de euros. Ainda a 19 de fevereiro a Live Nation tinha, segundo o Music Business Worldwide, um valor de mercado de cerca de 14 mil milhões de euros, tendo portanto derrapado quase dois terços em apenas um mês.

Esta é uma má notícia para todos os acionistas, incluindo o próprio CEO, Michael Rapino, que na sexta-feira tinha comprado cerca de um milhão de dólares em ações numa tentativa de inspirar a confiança entre os investidores mas que agora está a acumular prejuízos.

"Embora a extensão e a duração do impacto no setor de eventos ao vivo sejam incertas, acreditamos que o desempenho operacional da Live Nation Entertainment Inc. possa ser prejudicado pelo crescente número de eventos adiados, presença de público abaixo do esperado ou futuros cancelamentos", disse a S&P Global, analista financeira que está a considerar a hipótese de reclassificar as ações da Live Nation que estão neste momento classificadas como BB-menos.

Antes disso, a Live Nation já tinha tomado a decisão, sem precedentes, de suspender todos os concertos mais próximos, indefinidamente. Na quinta-feira, 12 de março, a Live Nation e a AEG, as duas maiores empresas de eventos ao vivo do mundo, anunciaram a suspensão de todos os eventos até ao final de março. Juntamente com outras promotoras, as duas gigantes do entretenimento anunciaram ainda a criação de uma task force global para fazer frente a este problema: "Neste momento, recomendamos coletivamente que eventos de grande escala até o final de março sejam adiados. (...) Temos a sorte de ter a flexibilidade de reagendar concertos, festivais e eventos ao vivo, conforme necessário, e esperamos em breve voltar a juntar os fãs a todos os seus artistas favoritos e eventos ao vivo."

Entre as digressões canceladas estão as de Billie Eilish, Jason Aldean, Zac Brown Band, Cher, Kiss, Post Malone, Tool, Lynyrd Skynyrd e Chris Stapleton. Coachella (que seria já em abril), SXSW, Bonnaroo, Ultra e outros grandes eventos musicais também foram cancelados ou adiados.

A Live Nation é uma promotora de eventos norte-americana criada em 1996. Em 2010 juntou-se à Ticketmaster para criar a Live Nation Entertainment. No seu site, esta empresa anuncia que produz mais de 40 mil concertos e mais de 100 festivais por ano, vendendo 500 milhões de bilhetes, o que só é possível graças aos 44 mil empregados que tem em todo o mundo. Entre os nomes que trabalham com a Live Nation estão nomes tão diferentes quanto U2, Madonna, Megadeath. Janet Jackson, James Taylor, Ed Sheeran, Niall Haron, Rhianna, Guns N'Roses, Rod Stewart, John Legend e Ricky Martin.

Rock in Rio: à espera para ver

Em declarações ao Blitz, em junho de 2018, Rafael Lazarini, vice-presidente para o Desenvolvimento de Negócios da Live Nation na América do Sul garantiu que a empresa ia instalar-se em Portugal "num futuro próximo". Lazarini dizia na altura que "estava identificada a oportunidade" e que a estratégia devia passar "pela exploração dos mercados locais". Sublinhou ainda que Portugal fazia - e faz - parte do roteiros das maiores digressões.

A Live Nation é também, desde 2018, sócia da holding proprietária do Rock in Rio, tanto no Brasil como em Portugal, primeiro com uma participação de 50% que no ano passou foi ampliada para 60%. No entanto, Roberta Medina não se mostrou disponível para comentar esta situação complicada para a empresa nem quais os planos para o Rock in Rio Lisboa agendado para os últimos fins de semana de junho.

Ao DN, a assessoria de imprensa do festival respondeu apenas: "Estamos a acompanhar a situação relativa ao covid-19 e em contacto com as autoridades de saúde portuguesas, seguindo as suas recomendações. Até ao momento, tudo se mantém."

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