Com a aproximação do final do Festival de Cannes (amanhã é dia de prémios), os filmes vão-se cruzando nas memórias dos espectadores e, por assim dizer, dialogando uns com os outros. Será uma ilusão efémera, mas é um facto que nos pode ajudar a sistematizar algumas ideias gerais, talvez úteis para compreender o espírito do momento — “l’air du temps”, aplicando a expressão francesa que se justifica. Assim, depois de Moulin, do húngaro László Nemes (sobre Jean Moulin, líder da Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial), a competição revelou mais três títulos que, em tons diversos, nos remetem para momentos convulsivos da história da nossa Europa. Notre Salut, do francês Emmanuel Marre, será o mais estranho, e também o mais interessante, deste trio. A ação inicia-se em setembro de 1940, quando, depois da invasão da França pelas tropas de Adolf Hitler, é constituído o governo de Vichy, dirigido pelo Marechal Philippe Pétain. No centro dos acontecimentos está Henri Marre (interpretado pelo magnífico Swann Arlaud, que vimos, por exemplo, em Anatomia de uma Queda, Palma de Ouro de 2023), personagem fictícia, embora inspirada no bisavô do realizador: apoiante convicto do governo de Pétain, Henri tenta sobreviver no turbilhão de uma conjuntura em que, a partir de certo momento, os trabalhadores judeus que os ocupantes vão mobilizando para “trabalhos” na Alemanha estão, de facto, a ser enviados para campos de concentração. A estranheza do filme de Emmanuel Marre provém do seu “estilo” descritivo, dir-se-ia simulando uma reportagem. O efeito é tanto mais bizarro quanto há dois ou três momentos em que a ação é comentada por temas musicais posteriores ao próprio contexto em que tudo acontece. No limite, Notre Salut consegue a proeza de mostrar as ações de um governo cujo poder se vai esfarelando, ao mesmo tempo revelando as contradições de cada personagem. Entretanto, Coward, do belga Lukas Dhont propõe-nos uma história da Primeira Guerra Mundial, centrada num grupo de soldados cujos dotes teatrais acabam por transformá-los em protagonistas de pequenos espectáculos para levantar o moral das tropas. Depois de títulos como Girl: O Sonho de Lara (2018) ou Close (2022), Dhont volta a encenar personagens a lidar com as ambivalências da sua identidade sexual — neste caso, dois soldados que sabem que a sua paixão será punida, não apenas no interior do exército, mas também no seu contexto social. Há uma energia emocional que resulta do ziguezague entre as cenas íntimas e a crueldade dos combates, o que não impede que Coward seja, no plano dramático, um filme algo esquemático, em qualquer caso inferior aos trabalhos anteriores do seu realizador. .A homossexualidade recalcada surge também como tema transversal a La Bola Negra, da dupla espanhola Javier Calvo/Javier Ambrossi. A sua inspiração provém de um texto inacabado de Federico García Lorca (La Bola Negra, precisamente), agora transfigurado num labirinto de enigmas e fantasmas que assombram personagens de três momentos (1932, 1937 e 2017) da história espanhola. Mesmo se podemos ficar com a sensação de que se trata de uma derivação da lógica de uma mini-série histórica, La Bola Negra impressiona pelo labor do elenco e também pelos recursos invulgares, por vezes monumentais, da sua produção. .Cannes evoca a Resistência Francesa