Não é uma revista, nem um musical. “Nós chamamos-lhe ópera bufa no subtítulo, porque há uma ingenuidade muito grande na forma como estes dez personagens se relacionam uns com os outros e de como olham para a vida em si. A ópera bufa vive de histórias muito ingénuas”, diz Flávio Gil, que se juntou a Fernando Heitor e a João Paulo Soares para criar Variedades (...como uma ópera bufa erótica e satírica), que estreia no Teatro Variedades a 8 de julho, no dia em que a sala do Parque Mayer, em Lisboa, faz cem anos. As personagens da história são a varina, o marujo, o ardina, o vendedor de coplas, o cauteleiro, a menina da barraca de tiros, a viúva rica, a escritora, a costureira e o dono de um restaurante. É através destas figuras que se evocam os cem anos do teatro que abriu em 1926 com a revista Pó de Arroz, viveu os tempos áureos nas décadas de 1950 e 1960, e se foi degradando até fechar portas nos anos 1990. Ganhou nova vida em 2024, ao reabrir com nova cara. Os autores não queriam que o espetáculo fosse “uma enunciação de acontecimentos”. “O Variedades apresentou sempre maioritariamente espetáculos populares e de revista, mas aquilo que ali aconteceu foi muito moldado e influenciado por aquilo que acontecia na cidade, no país e no mundo. E para contar a história do Variedades era inevitável fazer a ponte com essa história”, diz Flávio Gil. A ideia de fazer este espetáculo partiu de Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, que com o edifício do Rossio fechado para obras, apresentou parte da sua programação no Variedades. Ele convidou Fernando Heitor para criar um espetáculo evocativo do centenário do teatro, mas acabaria por desistir. O projeto, porém, seria recuperado pela EGEAC - Lisboa Cultura, a entidade que gere o Variedades. . Fernando Heitor escreveu o texto a meias com Flávio Gil e João Paulo Soares tratou da parte musical. “Tivemos de fazer um trabalho de pesquisa aturado em relação a tudo, ao repertório que cá se representou, elencos, ouvir músicas, conhecer alguns textos que conseguimos na Sociedade de Portuguesa de Autores”, diz Fernando Heitor, que também recorreu às suas memórias pessoais. “Tenho 74 anos, conheci o Parque Mayer mais ou menos no final dos anos 60. Vivi aqui muita coisa, ainda não tinha idade nem para ir ao teatro, nem para entrar, e quando andava no liceu, aos domingos à tarde, já vinha para aqui, só para ver este mundo mágico.”Recolhido o material, os autores quiseram contar a história com “alguma originalidade”. “E então pegámos em dez personagens, pessoas que frequentavam o Parque Mayer em 1926 e de quem se dizia que eram a ‘fauna’ do Parque Mayer – pejorativamente, mas nós não o dizemos pejorativamente, dizemos com todo o carinho.” .Pegámos em dez personagens, pessoas que frequentavam o Parque Mayer em 1926 e de quem se dizia que eram a ‘fauna’ do Parque Mayer – pejorativamente, mas nós não o dizemos pejorativamente, dizemos com todo o carinho.”. Essas pessoas, sublinha Fernando Heitor, “existiram até os anos 80, enquanto isto esteve cheio, e havia teatro, e restaurantes, e bares, e isso tudo. Eram pessoas muito sós, que encontravam aqui no Parque Mayer algum aconchego que não tinham na vida”. Flávio Gil acrescenta que o Parque Mayer “era quase um oásis de liberdade dentro de uma cidade durante muito tempo oprimida. Era um lugar de encontro dos marginalizados, chamemos-lhe assim”. .Em Variedades (...como uma ópera bufa erótica e satírica), que estará em cena até 16 de agosto, as dez personagens, interpretadas por Bernardo Souto, Bruno Madeira, Carlos Malvarez, Cátia Garcia, Flávio Gil, Maria João Luís, Miguel Raposo, Sandra Rosado, Teresa Zenaida e Wanda Stuart, têm em comum serem órfãos de pai e mãe e terem assistido a todas as estreias no Teatro Variedades, “tanto enquanto vivos como depois de mortos, e mesmo à medida que vão morrendo”, revela Flávio Gil. Sim, porque tal como a varina, o marujo, o ardina, o vendedor de coplas ou o cauteleiro foram desaparecendo da vida de Lisboa com o passar das décadas, também as personagens deste espetáculo se vão transfigurando. Flávio Gil também participa como ator, é o ardina António. As personagens vivem na cidade mas têm origens muito diversas. “Só uma é que nasceu em Lisboa. São de Trás-os-Montes, de Ovar, do Ribatejo, de São Tomé e Príncipe, do Brasil...Qual foi a nossa ideia? Mostrar que os alfacinhas sempre foram pessoas que vieram de todo o mundo e aqui se instalaram. Não restringir os alfacinhas aos que nasceram na Maternidade Alfredo da Costa, como eu”, diz Fernando Heitor. Os dez amigos juntam-se no Natal, na Páscoa, num arraial de Santo António ou na casa uns dos outros e partilham memórias. “E é em consequência disso que surgem algumas evocações de espetáculos ou de parte deles”.São cerca de duas dezenas de canções, algumas delas inéditas, criadas para este espetáculo. “As canções não são apresentadas inteiras, senão não saíamos daqui. Há dois grandes êxitos musicais mais conhecidos que saíram do Teatro Variedades, o Zé Cacilheiro, do José Viana, e Cheira a Lisboa, da Anita Guerreiro. Esses era inevitável ter. Temos coisas da Amália, Lisboa Antiga, da Hermínia Silva, também foi estreada aqui, e canções menos conhecidas do grande público, mas que ajudam a contar a história.”O espetáculo terá música ao vivo, com a banda dirigida por João Paulo Soares (que também toca piano) a incluir Nuno Allan no baixo, Miguel Majer na bateria, Maria João Cunha no acordeão, Henrique Fialho no clarinete e Eurico Cardos na viola de arco. . No dia da estreia de Variedades (...como uma ópera bufa erótica e satírica), na próxima quarta-feira, será também lançado o livro 100 Anos de Variedades e inaugurada a exposição Um lugar chamado Variedades. A programação que marca o início das celebrações do centenário da sala de espetáculos inclui também uma visita guiada aos bastidores do teatro (com entrada livre, sujeita a inscrição prévia), o espetáculo de dança AXIS no exterior do edifício, e a exibição do filme O Parque das Ilusões (1963, Perdigão Queiroga), integrada no ciclo de cinema Rostos do Variedades. Há acontecimentos insólitos nestes cem anos de história do Variedades. Fernando Heitor aponta para uma fase em que no palco do teatro se falava espanhol. “Soube na pesquisa que durante a Segunda Guerra Mundial havia menos dinheiro para fazer grandes montagens de revistas, e era mais barato importar as zarzuelas [um género de teatro musical] espanholas. E durante três temporadas o Variedades só apresentou zarzuelas espanholas.” .Wagner Moura no palco do CCB: Na peça 'Um Julgamento' o veredito é do público.Macbeth na reabertura do Teatro D. Maria II, com entrada gratuita entre 18 e 20 de setembro