Paulo Rezzutti diante do retrato de D. João VI no Palácio de Queluz.
Paulo Rezzutti diante do retrato de D. João VI no Palácio de Queluz.FOTO: Paulo Spranger

”Eu brinco, quando dizem que D. João VI fugiu, que ninguém foge com biblioteca”

Historiador brasileiro Paulo Rezzutti publicou agora em Portugal 'D. João VI - A História Nunca Contada' (Penguin) e conversou com o DN sobre este rei que para escapar a Napoleão atravessou o Atlântico e fez do Rio de Janeiro a sua capital durante 13 anos.
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Quando Paulo Rezzutti se deixa fotografar no Palácio de Queluz junto de um retrato de D. João VI, sabe que o monarca que surge ricamente vestido foi uma figura de relevo na História de Portugal e também na do Brasil, mas de início não era para ser assim. Afinal o herdeiro de D. Maria I era o príncipe D. José. D. João era o irmão mais novo, em teoria destinado a uma vida pouco relevante na corte. Contudo, a morte do Príncipe do Brasil com 27 anos, em 1788, mudou tudo.

O historiador brasileiro, autor deste recém-publicado entre nós D. João VI - A História não contada, concorda que foi uma grande mudança nos planos da Dinastia dos Braganças, além da tragédia pessoal para D. Maria I, já viúva de D. Pedro III, mas rejeita a tese de que o novo herdeiro da coroa estivesse impreparado: “Um príncipe é realmente sempre preparado para esta eventualidade. A questão é que havia toda uma influência na educação de D. José ainda da época de Pombal. Então, Pombal conseguiu influir na educação dos dois príncipes, mas deu mais ênfase a D. José. E ele morre adulto. Ninguém está esperando perder um irmão com 27 anos. E com 21, de repente, D. João tem essa questão de ter que assumir a posição de primeiro na sucessão do trono. Mas o que acontece com ele não é a questão da falta de preparo, é a questão de como lidar com os partidos internos da corte, que ainda é uma corte fragmentada pela divisão criada pelo Marquês de Pombal. Ainda há uma nobreza ávida para voltar para os cargos de poder, de mando, com seus privilégios e tudo mais, e tem uma burguesia em ascensão. Por exemplo, quando ele é obrigado, por causa da doença da mãe, a assumir a regência, a primeira regência dele é interina. Havia ministros que herda da mãe que queriam convocar cortes para confirmar se ele poderia assumir. Há um questionamento até mesmo se ele poderia assumir como regente”.

Depois da morte do rei D. José, em 1777, o Marquês de Pombal, primeiro-ministro todo-poderoso, caiu em desgraça, mas mesmo com D. Maria I no trono havia admiradores do homem que mandou reconstruir Lisboa depois do grande terremoto. E a ascensão inicial de D. João, durante muito tempo príncipe regente pois só se tornou rei em 1816, foi marcada por esse choque de fações, tal como pela loucura da mãe e pela turbulência europeia pós-Revolução Francesa.

Rezzutti até defende que D. João surpreende pelo que sabia: “nós vemos várias coisas, como, por exemplo, um esclarecimento da parte dele que não havia nem com a mãe. Por exemplo, ela não vacina os filhos com varíola. D. José morre com varíola. O próprio D. João pega varíola, mas pega uma forma branda. D. João vacina os filhos, faz uma campanha de vacinação aqui em Portugal, que o Duque de Lafões vai ser a pessoa que vai tomar isso à frente, e mesmo morrendo o primogénito, ele continua reafirmando que é importante. Com D. João começa a questão da vacinação no Brasil. Tanto que quando ele vai para o Brasil, ele vê que o pus vacínico, de que era feita a inoculação, já não estava mais tão potente. Ele manda produzir mais e aí instituiu as vacinações dentro das igrejas para o povo ter certeza que aquilo pode ser feito, porque Deus não vai se zangar. Ele acredita na ciência da época e acredita que a ciência pode, inclusive, ajudar financeiramente o Tesouro. Então, quando vai para o Brasil, invade a Guiana Francesa e traz espécies já aclimatadas nos trópicos do Jardim La Gabrielle para o Rio”.

Rezzutti está entusiasmado. Mas antes de falarmos dos 13 anos de D. João no Brasil, olhemos para a época, com a mãe a enlouquecer e a Europa em turbulência. Pressionado pela França de Napoleão, e ao mesmo tempo pela aliada Grã-Bretanha, o príncipe regente ganha fama de indeciso. “A grande questão de D. João é a seguinte. Se ele ficasse em Portugal, perdia. Ele perdeu a Guerra das Laranjas. Então, se numa guerra com a Espanha Portugal foi derrotado, imagina o que pode acontecer com a tal da famosa La Grande Armée, que naquele momento não tinha perdido nada na Europa. Napoleão já tinha deposto reis, já tinha trocado governantes e tal. E você tem, do outro lado, a Inglaterra pressionando também para ele não ficar aliado aos franceses. A decisão de D. João era assim: se ele ficasse em Portugal, aliado dos franceses, ele perderia o Brasil para os ingleses. Tanto que uma das comunicações que é feita antes de informar o vice-rei do Brasil que a corte estava mudando, era para fortalecer a linha costeira brasileira contra ataques britânicos. Então, já sabia que era uma hipótese perder o Brasil. Numa carta ele lamenta, ele fala para Napoleão, ‘não posso ser seu aliado, porque Portugal não produz trigo o suficiente. Se eu ficar aliado aos franceses, os ingleses fecham os meus portos com os navios dele e eu não consigo trigo para o povo. E um povo sem alimento, a posição aqui dentro seria muito complicada’. Dentro desse contexto, eu também não saberia decidir e enrolaria os dois. É o que ele faz, enrola a Inglaterra. E enrola França. Até com subornos”, explica Rezzutti.

Quando D. João, com Carlota Joaquina e os filhos e as filhas, embarca para o Brasil, em finais de 1807, fala-se de fuga. As tropas francesas estão às portas de Lisboa. “A partida realmente foi tumultuada, a biblioteca da Ajuda é embalada e fica no cais. Não foi embarcada, mas ela foi tão bem embalada que estava chovendo, e os livros continuaram perfeitos. Eu brinco, quando dizem que D. João fugiu, que ninguém foge levando uma biblioteca”, diz Rezzutti, lembrando que a ida da corte para o Brasil era um velho plano, embora nunca posto em prática pelos reis portugueses, até ser mesmo necessário.

“Desde o século XVI, o prior do Crato, você já tem isso. Depois isso vai retomar na época do D. João IV, que é o primeiro Bragança no trono. Ele dá para o primogénito o título de Príncipe do Brasil, já com uma ideia de um plano, porque são 28 anos de luta com a Espanha. Retomar a independência de Portugal não foi um passeio no parque. Então ele pensou em casar D. Teodósio com uma sobrinha do rei da França, os dois iriam para o Brasil e Portugal seria entregue para um regente, que seria o Duque de Orleães, pai da Princesa do Brasil. Acaba não dando certo, mas há a ideia. Com D. João V, a mesma coisa. Com D. José I também, por causa da provável guerra com a Espanha e com a França. Na verdade, quem vai executar é D. João VI, que escapa à captura de Napoleão, enquanto o rei de Espanha é preso e é deposto”, explica.

E como foi a instalação dos portugueses no Brasil? Muita gente a desembarcar de repente. “É um grande estranhamento. O Brasil era praticamente uma propriedade privada da coroa portuguesa. Então não havia possibilidade de qualquer estrangeiro desembarcar no Brasil se não houvesse ordens para isso. Então você não podia fazer turismo no Brasil, não existe essa possibilidade. Então a Europa só vai saber um pouco do Brasil na época da invasão holandesa. D. João chega lá, brinca-se no Brasil que é a segunda descoberta do Brasil. Então é um facto muito importante a chegada dele e de muito estranhamento tanto desses colonos, desses portugueses que estavam lá estabelecidos, não dá para se falar em brasileiros ainda, mas também da Corte que chega e descobre um país tropical. Aí tem várias piadas das mulheres se enfaixando a cabeça, porque vem as mulheres da Corte portuguesa com os penteados e tudo mais, e as roupas. É tudo muito estranho. Um dos estranhamentos é a questão dos frangos, porque essa Corte, pelo deslocamento, pelas leis portuguesas, esses cortesãos tinham o direito de comer da mesa do rei. Então o rei tinha que dar alimento para essas pessoas. São capturados tantos frangos que não tem nem frango para doente no Rio de Janeiro. Então tem esse estranhamento todo”.

D. João, já aclamado rei, regressou a Portugal em 1821. A Revolução Liberal do Porto, em 1820, fez-se pelo regresso do monarca e contra os britânicos mandarem no país depois de terem ajudado a derrotar três invasões napoleónicas. No Brasil, ficou o príncipe herdeiro, D. Pedro, que acabou por liderar o processo de independência e ser o primeiro imperador do novo país, a partir de 1822. Rezzutti diz que há melhor memória do pai do que do filho, “porque não há algo controverso com D. João. E D. Pedro tem algo controverso. Tem alguns laivos absolutistas no meio de um liberalismo, e há um enfrentamento entre elites por causa dele. Ele está no meio de uma questão que envolve o processo de abolição, que ele assina um tratado com a Inglaterra para acabar com o tráfico atlântico. Isso pega mal nas elites e acaba levando a um processo em que ele acaba renunciando ao trono para o filho, que será D. Pedro II do Brasil”.

É quando D. Pedro vem para Portugal para lutar contra o irmão, D. Miguel, que usurpou a coroa à sobrinha, D. Maria II. O filho mais velho de D. João VI, que foi D. Pedro I do Brasil e D. Pedro IV de Portugal, acabará por morrer como duque de Bragança no mesmo quarto no Palácio de Queluz onde nasceu. Mas essa é uma outra história, que o historiador brasileiro também já contou, pois da série de livros intitulada ‘A História não contada’ constam várias biografias, desde a imperatriz Leopoldina até Domitila, amante de D. Pedro, passando por D. Pedro II do Brasil.

D. João VI voltou a Portugal por pressão das cortes liberais, que queriam que jurasse a Constituição e devolvesse a Lisboa o estatuto de capital do Império Português, mas antes parecia querer ficar indefinidamente no Brasil e em 1815, já derrotado Napoleão, até tinha criado o Reino Unido de Portugal e do Brasil, que punha fim ao estatuto de colónia e tentava justificar aos olhos dos monarcas europeus a sua permanência na América do Sul. “Ele gostava do Brasil”, realça Rezzutti. “Ele reclama do Rio de Janeiro, mas ele nunca quis sair de lá, e eu acho que era aquela reclamação de que, ‘olha o fardo que eu estou tendo que arcar’. Meio que fingia que não gostava, mas acabou se estabelecendo lá, e também fazia bem para quem ouvisse, para não ter a ideia que o rei queria ficar. Ele vai criar as estruturas para uma nação, porque quando ele chega no Brasil não havia nada. Por exemplo, quem queria estudar Direito ia para Coimbra. Aqui em Lisboa, ele já começa a criar algumas coisas no Brasil. E quando ele chega lá, aí é outro mundo. Tem uma frase do antigo diplomata brasileiro Alberto Rangel, que é uma das epígrafes do livro, que ele fala que os pés de D. João fizeram mais pelo Brasil do que 20 mãos dos seus antecessores. Quer dizer, só o facto do rei estar lá, no caso, o príncipe regente ainda, deu um impulso que não havia. Então, éramos proibidos de ter manufatura pelo Tratado de 1795 para obrigar a comprar o tecido vindo da Inglaterra. Isso cai por terra. Havia espécies que não podiam ser plantadas. Arroz tinha que ser importado. Várias coisas tinham que vir de Portugal. Vinho, azeite, aí também tem a ver com os monopólios. Então tinha várias coisas que não havia no Brasil antes de 1808, ano da chegada da família real. A tipografia chega no Brasil com a primeira prensa a vir com o futuro Conde de Linhares no navio. Ela tinha vindo da Inglaterra e nem desembarcou em Lisboa”.

Voltando ao impacto da vinda dos Braganças para o Brasil, Rezzutti assinala o quanto inédito isso foi. Vieram, e faz as contas, três reis (e um imperador entre eles) e três rainhas: os futuros reis D. João VI, D. Pedro IV (I do Brasil) e D. Miguel, D. Maria I (que morrerá no Rio de Janeiro), D. Carlota Joaquina e D. Maria Isabel (filha de D. João que vai casar com Fernando VII de Espanha).

“Vamos substituir para os dias de hoje. Os monarcas eram os influencers da época. Então eles congregavam interesses e só a sua estada naquele local criava um ambiente de unidade. Porque todo mundo conhecia D. João. Por exemplo, o Brasil comemorou o casamento do D. João. Há relatos do casamento dele sendo comemorado no Rio de Janeiro, enquanto estava sendo feito em Lisboa. Então há essa ideia desse rei, desse príncipe e tal. De repente isso está materializado no Brasil. Claro que há uma união em volta dessa pessoa. Então eu acho que isso ajuda também a manter essa integridade territorial. Porque D. João VI e seus sucessores controlavam as capitanias que depois vão virar províncias. Há uma centralização de poder. Nessa centralização de poder é que se mantém o território. Mais tarde, D. Pedro escreve numa carta para ele e fala ‘lembro-me bem quando o senhor me chamou no seu quarto e disse que se fosse para fazer independência, que faça você antes que algum aventureiro faça’. E por aventureiros leia-se republicanos. Estava cheio de aventureiros na América Latina. Bolívar, San Martin, vários. E cada um representava um interesse. Bolívar tenta manter a unidade da América de língua espanhola, mas os interesses locais não permitem. Mas uma figura imperial tem um poder maior. E no Brasil houve a centralização no Rio”, conta.

D. João VI morre em 1826 e D. Pedro, que está no Brasil, torna-se D. Pedro IV de Portugal, mas para não acumular dois tronos abdica para D. Maria II. Há outras biografias de D. João VI, de quem Napoleão disse ser o único que o enganou, como a de Fernando Dores Costa e Jorge Pedreira. Esta de Rezzutti oferece-nos a visão brasileira de um monarca que tem vindo a melhorar a imagem à medida que novos estudos são publicados. O biógrafo continua cá a apresentar o livro e estará no dia 13 de junho na Feira do Livro de Lisboa.

Paulo Rezzutti diante do retrato de D. João VI no Palácio de Queluz.
“Ao ir para o Brasil, D. João VI foi o único monarca que conseguiu realmente enganar Napoleão”
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