D. João VI não era o primogénito de D. Maria I, mas o irmão morreu e passou a ser o herdeiro e logo depois a mãe foi declarada louca e ele teve que assumir-se como príncipe regente. Mas não estava bem preparado para governar, pois não?Sim, não estaria certamente preparado para ser rei porque à partida estaria destinado a uma vida um pouco mais na obscuridade. Tendo o irmão mais velho como sucessor do trono, D. João teve uma educação um pouco mais despreocupada com aquilo que seriam as matérias governativas e, portanto, teve que ser um pouco em cima do acontecimento que aprendeu a governar e a ter que tomar decisões importantes, principalmente num contexto político que não se adivinhava fácil.Entre o momento em que morre o irmão e aquele em que a mãe é declarada incapaz acontece a Revolução Francesa de 1789…D. João passa a ser regente logo a partir de 1792, ainda não de forma oficial, mas é já ele que toma as decisões, portanto três anos após a Revolução Francesa. E poucos anos depois começava aquilo que viria a ser o acontecimento que marcaria os primeiros anos do século XIX, ou seja, as Invasões Francesas.D. João é visto tradicionalmente como um monarca que não consegue tomar decisões, mas na verdade está entre a pressão do velho aliado britânico e a da França Napoleónica. Quando Portugal é invadido em 1807 e decide mudar a corte portuguesa para o Brasil, é uma fuga ou é uma retirada estratégica?De facto, D. João VI estava numa situação bastante difícil porque não conseguia fazer face a nenhuma das duas fações, nem face ao tradicional aliado inglês nem à França Napoleónica. E portanto acontece voltar-se a uma ideia que já tinha aparecido algumas vezes ao longo da História de Portugal que seria deslocar a corte para o Rio de Janeiro. Quando se fala em fuga é talvez no sentido de ter sido feita de uma forma apressada, mas também podemos interpretar a demora como sendo uma decisão difícil de tomar, não só por toda a logística que implicava, mas também por passar a ideia de que estaria a abandonar a população, não só a de Lisboa, mas Portugal. Porém, de um ponto de vista estratégico, de um ponto de vista político, foi uma decisão bastante inteligente a ida para o Brasil. D. João foi o único monarca que conseguiu realmente enganar Napoleão, porque caso contrário aquilo que iria acontecer a Portugal era o mesmo que aconteceu em Espanha, em que o monarca foi deposto e foi substituído por um apaniguado de Napoleão. Com essa solução, conseguiu salvaguardar a independência de Portugal e continuar a governar não só Portugal, mas também o Império a partir do Rio de Janeiro..D. João quando faz a travessia do Atlântico em 1807/1808, ainda é o príncipe regente e a mãe vai a bordo. E só será coroado no Brasil, quando D. Maria I lá morre. Mas na verdade é ele, por vontade própria, o primeiro monarca da história a cruzar o Atlântico, e depois, uma segunda vez, em 1821, no regresso a Lisboa. Nos 13 anos no Rio de Janeiro deixou marcas no Brasil importantes até para o futuro Brasil país?A partir do momento em que ele atravessa o Atlântico e chega ao Rio de Janeiro, nada mais voltou a ser igual no Brasil, que deixa de ser colónia. Logo a começar pela transferência da corte, pois vão ser criadas uma série de instituições que depois viriam a ser decisivas para o Brasil enquanto país independente. Falo de uma série de academias militares, academia de ciências, a fundação também da biblioteca e a criação de uma série de elites políticas que depois vão ser decisivas para a transição para a independência. Portanto, a marca de D. João VI fica.Além disso, deixa lá o filho, D. Pedro, que vai ser o primeiro imperador do Brasil. Que escapa ao destino republicano das colónias espanholas.Exatamente. O nosso Pedro IV, o D. Pedro I do Brasil, enquanto regente, vai tomar essa decisão de cortar as relações com Portugal e de declarar a independência do Brasil.D. João VI regressa a Portugal pressionado pela Revolução Liberal de 1820. Por um lado, tem que reconhecer a independência do Brasil, mesmo que, no fundo, o país continue governado pelos Braganças. E em Lisboa tem que aceitar jurar uma Constituição que lhe impede ser rei absoluto. Foi, outra vez, um momento complicado de tomada decisão?Sim, mais uma vez, D. João está perante a necessidade de olhar para a realidade e ver que era impossível fazer face aos acontecimentos que estavam a suceder, a não ser tentar tirar o melhor partido deles. Não podia reprimir a revolução liberal, porque não tinha uma força militar à disposição, até porque, do ponto de vista social, havia um apoio a essa revolução. Portanto, havia que retirar aquilo que de positivo se podia retirar. Ou seja, aceitar e, por muito que lhe custasse, tornar-se rei liberal, com poderes bastante mais limitados e jurar a Constituição. Chegou a fazê-lo.Em 1826, D. João VI morre. Sabe-se que já tinha reconhecido o Brasil, e que o imperador D. Pedro I do Brasil era apesar de tudo o herdeiro do trono português, mas D. Miguel, apoiado pela mãe, Carlota Joaquina, tinha ideias diferentes. D. Carlota Joaquina é a suspeita principal do envenenamento que hoje em dia se considera praticamente certo que D. João VI sofreu?Aparece exatamente como a principal figura que teria mais a ganhar com o desaparecimento de D. João VI. Há que recordar que rei e rainha viviam já há largos anos afastados. Ele continuava na ótica da rainha a ser um entrave a que ela pudesse ter alguma influência sobre o poder, nomeadamente através de D. Miguel. Apesar de não haver provas conclusivas, D. Carlota Joaquina é uma das figuras que aparece como uma daquelas que poderá ter levado à morte D. João VI, através das laranjas envenenadas que ele terá consumido no pequeno-almoço do dia 4 de março.."Visão de D. João VI como medroso que abandonou o povo português foi propaganda de Napoleão"