“Estamos no ar”. A expressão cheira a antigo. Cheira à casa da avó, com o som do rádio ou da televisão ligados, e um locutor ou apresentador a trazer cores vivas à sala de estar repleta de móveis escuros polidos, com naperons rendados e jarras de flores... De certa maneira, é para esse lugar mental que o título da primeira longa-metragem de Diogo Costa Amarante nos leva, revelando, por sua vez, um programa subtil: o desejo de olhar as solitudes contemporâneas como quem observa a coisa bela que é o movimento aleatório da vida, nas suas coincidências e desencontros, frequentado pela nossa melancolia coletiva. Mais do que o português, é esta a língua que se fala em Estamos no Ar..Filmado no Porto, para onde o realizador voltou depois de alguns anos fora, este filme de estreia no formato longo – que vem na sequência de um currículo exemplar de curtas-metragens, incluindo um Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2017 – traduz claramente a sensibilidade de Costa Amarante para os fenómenos subterrâneos da realidade à sua frente. Quer isto dizer que Estamos no Ar nasceu da circunstância muito simples de ver o polícia a quem arrendou o seu apartamento suscitar uma certa tristeza na vizinha da frente, que costumava tratar-lhe da roupa. Dessa discreta manifestação afetiva extraiu-se a história de Fátima (magnífica Sandra Faleiro) e Leonel (Romeu Runa), ela cabeleireira e ávida dona de casa, ele o polícia que precisa de quem lhe lave a farda, enredados numa lei de fantasias que passa também pelo filho de Fátima, Vítor (Carloto Cotta)..A saber: esse filho da cabeleireira, cujo ganha-pão é bater palmas num programa televisivo das manhãs, à noite usa a farda do vizinho para colorir as noites sexuais com um rapaz que conheceu online, enquanto a mãe suspira por semelhante carinho noturno com o polícia, fardado ou não... Já a avó (Valerie Braddell), mãe de Fátima, que vive num lar, tem insónias e delírios com o falecido marido, que volta e meia encarna o corpo da sua melhor amiga para atormentar a esposa viúva..Neste círculo de três gerações, Diogo Costa Amarante cria um sistema ressonante de comédia doce, meditativa, em que as “antenas” interiores das personagens nos mantêm sintonizados com diferentes cenários de fuga serena, seja uma paragem de camionistas ou uma fortuita viagem ao planeta Júpiter. E quando se diz comédia, não estamos a falar dos moldes grosseiros a que um certo cinema português nos habituou, como prolongamento da cultura popular televisiva. Pelo contrário, aqui está um conto urbano tecido com uma delicadeza capaz de segurar a nota perfeita de cada um dos seus atores simplesmente pela habilidade formal de conceber cada plano como uma conjugação graciosa de cores e movimentos invisíveis. Eis um filme que sabe escutar as frequências íntimas.