Lídia Jorge vence Prémio Camões 2026. “É um prémio que se sabe que existe, mas ninguém imagina que vai ter”
Foto: Paulo Alexandrino

Lídia Jorge vence Prémio Camões 2026. “É um prémio que se sabe que existe, mas ninguém imagina que vai ter”

Júri destaca “contributo para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa». Lídia Jorge diz que Camões "representa aquilo que é a alma e a vida portuguesa”.
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“Estou muito feliz por integrar esta já longa fila de escritores que têm recebido o prémio ao longo de todos estes anos, de todas as partes do mundo onde se fala a língua portuguesa. Portanto, sinto uma grande felicidade e, ao mesmo tempo, respeito”, disse Lídia Jorge ao DN pouco depois de ter sido anunciada esta quinta-feira, 2 de julho, vencedora do Prémio Camões 2026. “Fiquei um bocado incrédula. É um prémio que se sabe que existe, mas ninguém imagina que vai ter”, afirmou.

A escritora explica as razões porque este prémio é relevante para si: “De facto, Camões, a vida dele e a obra, são duas coisas juntas, juntas e indissociáveis. E, quando se tem o prémio Camões, há dois sinais. Por um lado, ter um patrono de uma qualidade literária insuperável e, ao mesmo tempo, um exemplo de uma vida de diáspora extraordinária que representa aquilo que é a alma e a vida portuguesa. Então, esses dois símbolos dão-me uma alegria enorme”. Para a escritora portuguesa que no ano passado venceu o Prémio Pessoa, os prémios dão “alegria para continuar”.

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De ‘O Dia dos Prodígios’ a ‘Misericórdia’. As histórias por trás dos romances de Lídia Jorge

O Ministério da Cultura, Juventude e Desporto avançou hoje, 2 de julho, em comunicado, que a decisão do vencedor desta 38ª edição do Prémio Camões foi tomada pelo júri por unanimidade. O júri esteve reunido à tarde, em formato online e destacou “o diversificado conjunto da sua obra e o grande contributo para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa”.

O júri realçou a escrita “marcada por uma prosa poética densa” e os temas abordados, como “a transição democrática em Portugal, a condição feminina, a emigração, os conflitos geracionais, as transformações sociais e o papel da memória coletiva na construção da identidade contemporânea”.

O júri do Prémio Camões é composto por duas personalidades portuguesas, duas brasileiras, e dois representantes dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP). Na edição deste ano integraram o júri os portugueses José Carlos Seabra Pereira e Ana Mafalda Leite, os brasileiros José Bessa e Lúcia Santaella, e Odete Semedo e Lopito Feijóo dos PALOP.

Nascida em Boliqueime, no Algarve, em 1946, Lídia Jorge estreou-se como romancista com a obra O Dia dos Prodígios, em 1980. É autora de uma vasta e diversificada obra literária, que inclui títulos como O Cais das Merendas (1982), Notícia da Cidade Silvestre (1984), A Costa dos Murmúrios (1988) e, mais recentemente, Estuário (2018) e Misericórdia (2022). Só este último livro, editado pela Dom Quixote, recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Urbano Tavares Rodrigues, o Prémio do PEN Clube Português, o Prémio Fernando Namora e o Prémio Médicis Estrangeiro, em França, em 2023.

Sou uma escritora, de certa forma, fora de moda, porque os escritores, a maior parte, dedica-se à sua obra e não se envolve com esta matéria confusa que é a política, a sociedade. E eu sou irrequieta, não é? Sou irrequieta e, portanto, envolvo-me.
Lídia Jorge

Conselheira de Estado, Lídia Jorge tem-se distinguido também pela sua intervenção cívica, que a faz dizer que é “uma escritora, de certa forma, fora de moda”. E isso, desenvolve, “porque os escritores, a maior parte, dedica-se à sua obra e não se envolve com esta matéria confusa que é a política, a sociedade. E eu sou irrequieta, não é? Sou irrequieta e, portanto, envolvo-me.” Para a escritora, esta faceta está “ao lado da obra” , mas admite que “é possível que as pessoas ao olharem para mim olhem vendo os dois campos”.

Lídia Jorge está a escrever um novo livro para ser lançado em 2027. “Será sobre o povo, sim. É o meu sujeito, é o meu personagem, é este povo. Este povo de que eu gosto, cheio de defeitos e de qualidades. É sobre ele que eu escrevo e vou escrever até ao fim”.

O Prémio Camões foi criado em 1988 pelos Estados português e brasileiro para distinguir autores reconhecidos pela valorização da língua portuguesa. É de 100 mil euros, repartidos por Portugal e pelo Brasil.

Para a Ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, «o Prémio Camões 2026 reconhece uma das mais relevantes vozes da literatura portuguesa contemporânea. Ao longo de décadas, Lídia Jorge construiu uma obra de enorme exigência intelectual e literária, contribuindo para afirmar a língua portuguesa como espaço de criação, pensamento e diálogo entre culturas».

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