“Em italiano eu nunca tinha pronunciado a palavra mãe”
Sul de Itália, 1975. Ida Maria está a fazer tratamentos para um linfoma quando descobre que está grávida. Tem 37 anos e quatro filhos. Confronta-se então com um dilema: interromper a gravidez e prosseguir os tratamentos que a podem salvar ou ter a criança e pôr a própria vida em risco. “Não é uma decisão fácil, nenhuma opção é óbvia e nenhuma decisão deixa de ter consequências. A questão é ter a liberdade de poder fazer a escolha mais certa naquele momento, tendo em conta as condições físicas, psicológicas, familiares de uma mulher que se encontra na possibilidade de arriscar a sua própria vida para vir a ter um filho”, explica Paola D’Agostino. Ida Maria é a sua mãe. Ida Maria morreu em 1978, tinha Paola pouco mais de dois anos. E é a sua história que a autora italiana conta agora em Ocupação da mãe.
Um romance que escreveu em português. Um assunto tão pessoal exigia o distanciamento de uma língua que não a língua materna? “Sim, senti a necessidade de criar um distanciamento literário, porque o que eu queria contar era o aspeto coletivo desta história, que é minha, é autobiográfica, mas que tem um valor de memória coletiva, de história coletiva. E quis também encontrar a linguagem certa para ter um distanciamento que permitiria, a mim como ao leitor, estar à vontade nesta história”, explica Paola, a viver em Portugal desde 2000.
Formada em Literatura Portuguesa Contemporânea em Nápoles, a escritora explica: “Foi-me fundamental naquele momento imaginar este livro em português. Eu brinco, digo que esta é a minha primeira longa-metragem em português, e na verdade eu escrevia em português há já uns anos”. Até agora, apenas poesia por ser “um terreno que me dava um prazer especial em investigar as esquinas, os recantos mais escondidos da língua que estava a explorar”, explica a também autora de Largo das Necessidades (2006) e Este Frio e Outras Histórias de Amor (2011), além de Tancredi, o Napolitano (2021), no qual Paola pegou na personagem de Os Maias de Eça de Queiroz e conta a sua história.
Agora com Ocupação da mãe, o próprio título acaba por ter um duplo sentido. “Eu estou também a ocupar uma língua, não é só uma ‘ocupação da mãe’, é uma ocupação de uma língua. E eu devia, para poder escrever este livro, imaginar que fosse uma nova língua materna, que eu de alguma forma adotava. No meu caso era uma língua de segunda geração, sendo que era uma autogeração, eu gerava-me a mim própria nesta nova língua.”
Nascida em Sapri, em 1975 como conta no livro, Paola cresceu naquela localidade do sul de Itália rodeada por uma ausência feita de silêncios e tabus. E só agora, confessa, conseguiu pôr por palavras a relação com Ida Maria e dizer “mãe”. “Em italiano eu nunca tinha pronunciado esta palavra. Nem mesmo com os meus irmãos. Nunca lhes confessei isto, digo-o agora pela primeira vez, mas, por exemplo, quando quero perguntar coisas sobre a mãe comum, fico sempre na dúvida. Digo a mãe? Digo a nossa mãe? Sendo que ela nunca foi verdadeiramente “nossa” mãe. Digo a vossa mãe? Também não posso, mesmo se eu também tive uma outra ‘mãe’. Então sempre tive um pudor ligado à palavra mãe”, explica a autora, que no livro refere como foi Isabella, uma das irmãs de Ida Maria, que a criou.
Mas porquê contar esta história agora? “Foi preciso chegar aos cinquenta anos, que é a idade que se diz ser da maturidade. E também foi preciso aprender a fazer perguntas. Quando procuramos uma verdade, procuramos uma resposta, mas eu a dada altura percebi que o que devia procurar eram as perguntas certas a colocar para obter um cenário. Eu não diria uma resposta, porque a ideia deste livro é que não há respostas, não há uma única forma de interpretar a realidade. E foi também, da minha parte, perceber que provavelmente uma das responsabilidades deste tabu tinha sido minha, por não ter sabido até então colocar as perguntas. Há pessoas que me dizem: ‘tiveste uma coragem incrível em escrever este livro’, mas a coragem teria sido escrever este livro aos 20 anos, aos 30. Aos 50 já tiveste tempo para saber analisar o terreno em que as perguntas devem nascer.”
Com Ocupação da mãe editado em junho em Portugal, Paola diz estar a pensar “rescrever o livro em italiano”. Questionada se o assunto é demasiado pessoal para recorrer a um tradutor, admite que sim. “É demasiado pessoal, e acho que a própria dinâmica do livro implica que seja eu a reescrevê-lo.”
Quanto à reação dos familiares em Itália que passarão a ter acesso ao texto na sua língua, a autora recorda que “no momento em que estás a escrever, estás sozinha, e claro que tentas ser o mais fiel possível às pessoas envolvidas na história, à própria memória. Mas quando escreves, vais sempre ocupar um território sagrado, que é o limite entre a tua memória e a memória dos outros. Não há uma única memória, há a forma como nós elaboramos as memórias, e esta forma era minha, e só podia ser minha, não podia ser negociada com ninguém.”
Paola garante ter tido todo apoio da família nesta tarefa de pôr a mãe por palavras - “até as minhas sobrinhas ajudaram a procurar fotos”. Mas a autora recorda que a personagem principal do livro é mais do que a sua mãe, é todas as Idas Marias do seu tempo. “No caso da minha mãe, a escolha entre ter o filho ou abortar surgiu por uma questão médica, mas que implicava toda a formação religiosa dela. Porque, naquela altura, as mulheres, na condição social da minha mãe, não tinham uma formação académica, na maioria dos casos, não tinham estudos que conseguissem levá-las a questionar as indicações morais que recebiam. É por isso que digo que, mais do que uma questão individual, é uma questão coletiva. Porque a minha mãe, esta mulher que eu descrevo como Ida Maria, é uma rapariga que eu estou a conhecer, que acontece ser a minha mãe, mas é uma rapariga do seu tempo, do seu lugar, do seu momento histórico, e é isso que eu vou interrogar”, explica Paola que, a certa altura escreve no livro a essa personagem ausente: “Salva-te, mãe! Não morras por mim. Não morras por ninguém!”
É por Ida Maria representar todas estas mulheres, diz Paola, que “tenho uma ternura especial por esta rapariga, que não é apenas a ternura de uma filha que olha para a mãe, é a ternura de uma rapariga que, 50 anos depois, com os direitos adquiridos em relação ao corpo das mulheres, à sua possibilidade de escolha, olha para uma pessoa que não teve esses mesmos direitos. E é isso que me parece importante quando me ponho a escrever esta história.”
Para Paola, “a não-ficção literária tem esta característica de conquistar um valor quando consegue contar uma história, que pode ser uma história comum, da qual o leitor se pode apropriar, que pode levar o leitor a fazer perguntas, a perguntar-se a si mesmo o que é que eu faria. Porque eu não sei o que faria nesta situação. Acho que ninguém sabe.” No fundo, este “é o verdadeiro ponto trágico do livro - quando nós, enquanto mulheres, enquanto homens, na condição humana em que estamos, pensamos que há perguntas que nunca terão uma resposta certa. Esta parte da minha história, que é uma história comum a muitas mulheres, é que me interessava habitar.”
Uma história de mulheres, onde se destaca um homem: O Turco, como Paola identifica o pai, recorrendo à sua alcunha. “É uma forma de adquirir uma distância também do meu pai e vê-lo como uma personagem literária”, explica. Uma personagem que recorre ao silêncio para lidar com a morte da mulher. “Eu penso que o silêncio, no caso desta personagem complexa que é o meu pai, no livro, é uma armadura, mas também é uma estratégia de sobrevivência à dor”, admite Paola. E explica: “Quando chegamos à idade adulta começamos a ver os pais como pessoas e não apenas como nossos pais. E eu, ao analisar esta personagem, percebo finalmente comportamentos e formas de encarar a vida que são daquela pessoa que esteve naquela história e que eu finalmente consigo olhar profundamente. E talvez perceber - e digo talvez porque nunca percebemos completamente os abismos das pessoas, das personagens, das histórias.”
Ao longo do livro, Paola destaca várias vezes as semelhanças físicas com a mãe e como algumas pessoas da sua terra começavam mesmo a chorar quando a viam numa altura em que decidiu adotar a moda dos lenços na cabeça, trazendo à memória os que a mãe usava durante os tratamentos. “É difícil tentar construir uma identidade que possa prescindir deste acontecimento autobiográfico [a morte trágica da mãe], que numa comunidade pequena como aquela de onde eu venho é marcante. Tem lados positivos, porque tens atenção, tens muito amor, mas tens sempre um peso mesmo involuntário”, admite. E explica que a sua estratégia para lidar com este peso foi “a ironia”. “Aprendi a rir-me destes acontecimentos. Aliás, foi sempre uma grande ação transformadora da realidade, utilizar a ironia, até para ler o meu próprio corpo.” Mas admite que a adolescência foi a parte mais complexa. “Na adolescência eu tive um conflito com uma pessoa que não existia fisicamente mas que tinha uma existência muito forte na minha vida, na construção da minha identidade”, recorda.
Esse conflito com essa ausência foi uma das razões que a fez sair da sua terra, primeiro para estudar em Nápoles, e depois vir para Portugal? “A distância, a condição do exílio, entre aspas, fortalece a identidade. E neste caso eu tinha este aspecto da minha identidade que precisava de trabalhar e que na distância conseguia trabalhar com mais autonomia, com mais serenidade provavelmente”, remata. E agora que lhe tomou o gosto, Paola admite que depois de Ocupação da mãe poderão vir aí mais livros escritos em português.
