“Mamã, vem comigo. Arranco-te do segredo da realidade (…) e agora venho eu buscar-te liberto-te, até para me abandonares.” Este livro foi a sua forma de resgatar sua mãe biológica e fazer-lhe justiça? De reconstituir a sua história e tentar perceber o que a levou a abandoná-la ainda bebé e a suicidar-se de seguida?Não parti para o livro com essa intenção, parti apenas para descobrir coisas sobre ela, mas tudo o que me contaram foi tão injusto e tão forte, e surgiu uma figura tão diferente da que eu imaginava, que decidi que esta história tinha de ser contada.Partindo do que estava publicado nos jornais da época, começou a perceber que a história verdadeira não correspondia ao que estava escrito na altura?Na verdade, era completamente diferente. Tecnicamente, comecei pelos testemunhos das amigas da minha mãe, visitando os locais, as casas que me revelaram muito, porque sabia que a minha mãe vivia na pobreza, mas até àquele momento eu não tinha sentido o cheiro daquela pobreza, não tinha visto as paredes, não tinha visto os locais. Portanto, essa foi a primeira coisa, e depois, aos poucos, fui reconstruindo tudo o resto, especialmente o ato final do suicídio, e foi completamente diferente de como tinha sido transmitido pela memória coletiva.Este livro envolveu trabalho jornalístico de investigação, quase como o de um detetive, que levanta hipóteses e, em seguida, novas hipóteses surgem e continuam a evoluir. Este trabalho foi importante para envolver o leitor nesta história?Eu só disse a verdade, por isso a primeira pergunta que me coloquei foi: qual é a minha posição nisto tudo? Sou eu a Lucia? Sei tudo sobre a Lucia? E a resposta foi: conto a história como as coisas realmente aconteceram, ou seja, sou eu que, passados 56 anos, procuro vestígios da minha mãe. E portanto, por força das circunstâncias, tal como eu estava envolvida, o leitor também está, porque acompanha a investigação praticamente comigo, acompanha as hipóteses; não é uma estratégia literária, sejamos honestos.“Acabei de afastar destas páginas a teoria do homicídio. Foram as páginas mais difíceis”, escreve quase no final do livro. Além de resgatar a sua mãe, sentiu também necessidade de fazer justiça à Giuseppe, o seu pai biológico? Foi assim que aconteceu, e fiquei feliz por ter sido dessa forma. Honestamente, não teria mudado muito para mim pensar que era filha de um assassino, mas é melhor assim, especialmente para a família dele, porque sempre acharam que ele era culpado. Mas, em vez disso, a recolha de todos estes dados, que são reais e me parecem plausíveis e convincentes, mostra o contrário. É melhor assim. Ainda bem que o fiz, fiz justiça a este homem que foi um pouco imprudente e descuidado, mas que ainda assim não era um assassino.Este livro é sobre Lucia Galante, a sua mãe, mas é também sobre todas as outras Lucias de Itália e do mundo, mulheres que sofreram com as convenções sociais e as injustiças do seu tempo? Sim, absolutamente. Quer dizer, eu já tinha escrito um livro sobre a minha mãe adotiva. Nunca pensei em escrever outro livro sobre outra mãe. Escrevi sobre Lucia precisamente porque a sua história era representativa de muitas outras mulheres e, na verdade, de muitos outros homens também. Porque quando existiam casamentos arranjados, até os homens eram obrigados a casar com mulheres que não queriam. Quer dizer, Luigi era provavelmente um rapaz homossexual que se viu com alguém que não queria, com a diferença de que ele batia em Lucia e ela não, o que obviamente não é pouco. Mas era uma situação com a qual muitas pessoas se reconheceram mais tarde, reconheceram histórias que ouviram nas famílias, que ouviram dos avós ou de outros familiares. Portanto, sim, absolutamente.Já voltamos ao livro sobre a sua mãe adotiva, mas antes, os seus pais biológicos abandonaram-na aos oito meses no centro de Roma sem qualquer identificação. Mas enviaram uma carta com os seus dados para o L’Unitá, o jornal do Partido Comunista Italiano. Esse gesto revela, como escreve, a preocupação deles de que fosse adotada por alguém que lesse aquela publicação, alguém de esquerda, com aqueles ideais?Acho que eles planearam tudo e que, milagrosamente, a minha vida acabou por acontecer exatamente como eles planearam.Mas podia ter corrido mal…Sim e nesse caso, não sei se teria escrito livros. É claro que eles selecionaram um público, selecionaram leitores que eram intelectuais, ou trabalhadores, mas em todo o caso de esquerda, pessoas de mente aberta porque sabiam que na altura existia uma esquerda que podia compreender algo assim.No livro, a sua filha Anna é a sua companheira ao longo da investigação. Como é que os seus filhos reagiram a este desejo de explorar a história?Nessa altura, o meu filho, Arturo, estava de férias com a namorada, mas isso também se encaixa de certa forma, porque esta é uma história em parte matrilineal, feminina, esta busca fundamental pela Lucia. A minha filha era crucial para mim, e o facto de ela estar fisicamente presente também era crucial, porque me obrigava a lembrar que eu também era mãe, não apenas uma filha à procura da mãe, mas que eu ainda tinha responsabilidades no presente. Além de Anna resolver questões a que nem eu nem os jornalistas da altura tínhamos conseguido responder. Colocava-se a questão de saber por que razão me deixaram sem nome, uma opção até mesmo perigosa, ou por que razão escolheram Roma - duas perguntas a que Anna respondeu..Fala também dos seus pais adotivos, Giacomo e Consolazione Calandrone. O livro de que falava há pouco, Splendi come vita, é uma longa carta de amor à sua mãe adotiva, com quem a sua relação nem sempre foi fácil. A frase que ela lhe disse - “eu não sou a tua mãe verdadeira” - foi difícil de ultrapassar; foi uma ferida difícil de cicatrizar?Para ela, sim, foi difícil ultrapassar isso, no sentido em que passei a minha vida com ela a tentar que sentisse que não havia diferença, mas não sei se ela percebeu ou se o sentiu. Certamente não procurei notícias de Lucia até que a realidade me obrigou a fazê-lo, por lealdade a Consolazione, para não a magoar, mesmo que já estivesse morta há vinte anos. Havia um pacto, por isso fiquei muito triste por ela não ter compreendido, não ter sentido o meu amor. Mas depois de publicar aquele livro descobri que é algo que acontece a quase todos os pais adotivos, quase todos os pais adotivos têm medo de não serem amados porque não são “verdadeiros”, o que é uma frase terrível, porque não é verdade que não sejam verdadeiros.Sim, mas a escolha de palavras de Consolazione foi bastante dura. Não foi difícil para si lidar com aquela afirmação?Não, para mim aquilo não era verdade, não era bem verdade. E sim, de vez em quando, a minha mãe atirava-me isso à cara, por isso era como se ela me estivesse a rejeitar, precisamente por mencionar essa coisa que a magoava. Era uma atitude um pouco distorcida, digamos assim, no sentido em que ‘eu sofro porque não sou tua mãe verdadeira, mas não sou a tua mãe verdadeira’, uma espécie de inversão de papéis.E Giacomo?Ele é o meu modelo. O próximo livro que vou escrever será sobre ele, já escrevi mais três depois deste, mas o próximo será para ele, porque é um homem como nenhum outro. É um homem que começou do nada. Era um operário que se tornou num homem que esteve na Assembleia Constituinte da República Italiana, que se alistou como voluntário, arriscando a vida por outro povo. Também é algo que passou para o meu filho, esta admiração é algo que se transmite. O meu pai é uma figura tão poderosa.A Maria Grazia iniciou a sua carreira como escritora na poesia. Há coisas que só podem ser expressas em versos?Bem, sim. Só mais tarde percebi isto, mas as partes dos meus livros em prosa em que uso poesia são as partes sobre as quais não sei nada. Ou seja, quando falo da morte. Ou seja, quando mergulho na água com a minha mãe. E também no meu último livro, quando falo de amor, quando falo do mar. Como é que se pode falar destas coisas senão em verso?.Já disse que publicou outros livros depois deste. Em Magnifico e tremendo stava l’amor fala de um caso real de violência doméstica e do crime cometido por uma mulher vítima de agressões durante duas décadas, e em Dimmi che sei stata felice segue três mulheres desde a II Guerra Mundial até aos dias de hoje. Em pleno século XXI é tão importante como sempre dar voz a estas histórias de mulheres, reais ou fictícias? Sim. E sente que é o seu dever fazê-lo?Acho que sim. Portanto, Magnifico e tremendo stava l’amor conta uma história que é um caso judicial real. Ou seja, uma mulher que matou o marido e foi absolvida porque ele a espancava há vinte anos. Portanto, é uma história verdadeiramente marcante. Foi uma surpresa para mim, porque pensei que iria ficar do lado dela, da vítima, mas enquanto escrevia o livro, também me afeiçoei a ele, no sentido em que não é um livro ideológico. É um livro que narra um laço doentio entre duas pessoas, e identifico-me com o agressor, no sentido em que, para escrever, é preciso identificar-se um pouco com todos. E dessa forma também me tornei Domenico, o homem que a espancou, da mesma forma que me tornei Luciana, que o matou, e tudo o resto no livro, neste turbilhão. O último livro, Dimmi che sei stata felice, que retrata os anos 1970, a estratégia da tensão, a criminalidade, é também uma história de amor entre duas mulheres. É quase ficcional, mas o contexto histórico é absolutamente real. O contexto contemporâneo é real, aliás, e bastante perigoso. Penso que é fundamental, pelo menos para mim, retratar os anos 70, para nos recordar o que aconteceu nessa época, para nos lembrar como a energia social desses anos foi destruída pela heroína, foi destruída pelas drogas e pelas bombas. Portanto, acho que sim, absolutamente, é importante contar uma história. Era também importante contar uma história de amor entre duas mulheres adultas, não as histórias comuns de jovens raparigas que tiveram um momento passageiro, não, é amor verdadeiro, um amor sem explicações, um amor entre duas mulheres que são casadas, que têm família, que são casadas com homens bons, portanto para elas não é uma segunda opção. Por fim, já falou sobre o projeto do livro sobre o seu pai. Será uma história verídica?Ah, mas entretanto escrevi outro.E pode contar-nos mais sobre esse livro?Sim. Escrevi um outro livro sobre uma rapariga nigeriana, vítima de tráfico humano, cujas duas filhas foram levadas pelo Estado italiano e colocadas para adoção. Este é hoje um caso muito atual. O livro será lançado a 8 de setembro e, no dia 16 de setembro, haverá uma audição em tribunal. Espero sinceramente que este livro ajude. Depois disso, claro, contarei a história do meu pai. Mas para contar a história do meu pai, preciso de estudar a história da Europa no seu todo. É um projeto enorme, porque trata-se da Guerra Civil de Espanha, da Segunda Guerra Mundial, da Assembleia Constituinte e da Constituição italiana, a redação da Constituição italiana. Mas neste momento estou a fazer uma pausa. .“Se tivesse escolhido o nome da minha mãe, se fosse Marie Rousseau, a história teria sido diferente”