Paul Mescal e Saoirse Ronan em Foe/Intruso: dois talentosos atores não bastam para salvar um projeto banal.
Paul Mescal e Saoirse Ronan em Foe/Intruso: dois talentosos atores não bastam para salvar um projeto banal.

Em 2065 a vida não está fácil…

Através de um dispositivo tradicional de ficção científica, o filme 'Foe' (entre nós intitulado 'Intruso') vai-se enredando em soluções rotineiras, sem espessura dramática. Fica o esforço do par central de intérpretes, Saoirse Ronan e Paul Mescal, mas é pouco…
Publicado a
Atualizado a

Eis uma situação sempre frustrante: descobrir um filme medíocre que não sabe aproveitar o talento dos seus atores… Em todo o caso, creio que há ainda pior: observar a genuína entrega dos ctores num filme que nunca está à altura da qualidade dos seus intérpretes… É, a meu ver, o caso de Foe, coprodução Austrália/EUA dirigida pelo australiano Garth Davis a partir do romance homónimo do canadiano Iain Reid - tal como a tradução portuguesa do livro (ed. TopSeller, 2019), o filme surge entre nós com o título Intruso e está disponível na plataforma Prime Video.

A ação decorre no ano de 2065, com uma legenda inicial a informar-nos que a escassez de água e terra habitável levou os governos a desenvolver planos para colocar os humanos noutros planetas, ao mesmo tempo que foram criados “substitutos” desses mesmos humanos. A vocação de tais “duplos”, dotados de Inteligência Artificial, será assumir as tarefas necessárias nas zonas mais devastadas…

A acumulação de clichés não podia ser mais adequada a modas temáticas que vão alagando a oferta mais visível (e também mais promovida) das plataformas de streaming. O que, como é óbvio, não significa que os resultados sejam automaticamente desinteressantes, quanto mais não seja porque a história nos ensina que há grandes filmes que não receiam começar, precisamente, por clichés.

Há, aliás, uma derivação que é (ou poderia ser) o trunfo mais forte de Foe/Intruso. Assim, Hen e Junior, o casal que descobrimos numa quinta carregada de referências nostálgicas à segunda metade do século XX, foi escolhido para protagonizar uma experiência pioneira: Junior deverá partir para uma das novas colónias, porventura noutra galáxia, ficando Hen na companhia de um “substituto”, criado à imagem de Junior. Há mesmo um enviado do governo que, além de trazer a notícia da mobilização obrigatória de Junior, tem a missão de estudar o seu comportamento, garantindo que o “duplo” replicará todas as nuances da sua personalidade…

Enfim, por mais sugestivo que este dispositivo possa ser (será mesmo?), resta saber o que fazer com ele - cinematograficamente, entenda-se. Acontece que o filme, além de muitas indefinições dramáticas (por exemplo, quem é o enviado do governo e qual o programa que está a executar?), se vai esgotando em dois registos de absoluto esquematismo: apresentando sequências desgarradas quase sempre apoiadas em diálogos de grande convencionalismo, ou encarando as paisagens através de um decorativismo fácil capaz de preencher os momentos de “transição” da ação.

Saoirse Ronan e Paul Mescal, respetivamente como Hen e Junior, entregam-se de alma e coração às suas personagens, num esforço tanto mais inglório quanto lhes falta material dramático para dar consistência a essas mesmas personagens - por vezes, sobretudo no caso de Mescal, apostando num overacting cujos exageros apenas acentuam o simplismo geral do projeto. É bem verdade que ambos já foram nomeados para Óscares (ela quatro vezes, ele uma), mas neste caso não parece que possam repetir tal proeza.

Diário de Notícias
www.dn.pt