Eis uma situação sempre frustrante: descobrir um filme medíocre que não sabe aproveitar o talento dos seus atores… Em todo o caso, creio que há ainda pior: observar a genuína entrega dos ctores num filme que nunca está à altura da qualidade dos seus intérpretes… É, a meu ver, o caso de Foe, coprodução Austrália/EUA dirigida pelo australiano Garth Davis a partir do romance homónimo do canadiano Iain Reid - tal como a tradução portuguesa do livro (ed. TopSeller, 2019), o filme surge entre nós com o título Intruso e está disponível na plataforma Prime Video..A ação decorre no ano de 2065, com uma legenda inicial a informar-nos que a escassez de água e terra habitável levou os governos a desenvolver planos para colocar os humanos noutros planetas, ao mesmo tempo que foram criados “substitutos” desses mesmos humanos. A vocação de tais “duplos”, dotados de Inteligência Artificial, será assumir as tarefas necessárias nas zonas mais devastadas….A acumulação de clichés não podia ser mais adequada a modas temáticas que vão alagando a oferta mais visível (e também mais promovida) das plataformas de streaming. O que, como é óbvio, não significa que os resultados sejam automaticamente desinteressantes, quanto mais não seja porque a história nos ensina que há grandes filmes que não receiam começar, precisamente, por clichés..Há, aliás, uma derivação que é (ou poderia ser) o trunfo mais forte de Foe/Intruso. Assim, Hen e Junior, o casal que descobrimos numa quinta carregada de referências nostálgicas à segunda metade do século XX, foi escolhido para protagonizar uma experiência pioneira: Junior deverá partir para uma das novas colónias, porventura noutra galáxia, ficando Hen na companhia de um “substituto”, criado à imagem de Junior. Há mesmo um enviado do governo que, além de trazer a notícia da mobilização obrigatória de Junior, tem a missão de estudar o seu comportamento, garantindo que o “duplo” replicará todas as nuances da sua personalidade….Enfim, por mais sugestivo que este dispositivo possa ser (será mesmo?), resta saber o que fazer com ele - cinematograficamente, entenda-se. Acontece que o filme, além de muitas indefinições dramáticas (por exemplo, quem é o enviado do governo e qual o programa que está a executar?), se vai esgotando em dois registos de absoluto esquematismo: apresentando sequências desgarradas quase sempre apoiadas em diálogos de grande convencionalismo, ou encarando as paisagens através de um decorativismo fácil capaz de preencher os momentos de “transição” da ação..Saoirse Ronan e Paul Mescal, respetivamente como Hen e Junior, entregam-se de alma e coração às suas personagens, num esforço tanto mais inglório quanto lhes falta material dramático para dar consistência a essas mesmas personagens - por vezes, sobretudo no caso de Mescal, apostando num overacting cujos exageros apenas acentuam o simplismo geral do projeto. É bem verdade que ambos já foram nomeados para Óscares (ela quatro vezes, ele uma), mas neste caso não parece que possam repetir tal proeza.