Manuela Pimentel conheceu Alexandre Farto (Vhils) numa exposição em 2015, numa exposição em Washington, e agora surgiu a oportunidade ela expor na galeria do artista, a Underdogs, em Lisboa. Com ele Manuela Pimentel partilha o material "pobre" que utiliza nas suas obras, os cartazes de rua. Eis-me, sou uma poeta, irei ao entardecer é o título da exposição que inaugura hoje, e é um verso da artista para quem a palavra é cada vez mais importante no seu trabalho artístico. “É o primeiro poema que eu escrevo. Nunca tinha escrito um poema. E assumi-o, isto está entranhado em mim e, de alguma forma, eu queria escrever algo nesta peça e saiu-me esta frase. E tive a coragem de a escrever e agora de a assumir como um título de uma exposição”, diz Manuela Pimentel ao DN. .A artista diz que esta mostra encerra uma trilogia que começou com À Flor da Pele, em 2022, na galeria This is Not a White Cube, e Poéticas Revolucionárias, apresentada em 2024 no Museu Nacional do Azulejo, onde evoca figuras como José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto. Manuela Pimentel, que colaborou com poetas como Nuno Júdice e Filipa Leal, diz que a poesia está "entranhada" nela, "como se fosse natural", e que agora se tornou visível, ganhando espaço na sua produção artística. “Sinto-me uma poeta de imagens. Não uma poeta de palavras, mas uma poeta de imagens, vejo as minhas obras como poemas. E é isso que eu tenho para dizer. Eu quero deixar uma morada poética no mundo. Esta frase saiu-me no outro dia e soou-me muito bem”.A poesia foi ganhando espaço na produção artística de Manuela Pimentel, que já colaborou com poetas como Nuno Júdice ou Filipa Leal. “Sinto-me uma poeta de imagens. Não uma poeta de palavras, mas uma poeta de imagens, vejo as minhas obras como poemas. E é isso que eu tenho para dizer. Eu quero deixar uma morada poética no mundo.”O trabalho de Manuel Pimentel é indissociável dos azulejos que são a sua imagem de marca e que se mantêm nas suas peças. “Continuam, porque eu acho que os azulejos, essa identidade portuguesa, essa forma de ir buscar memória, ajudam-me a chegar às pessoas. Elas identificam-se muito com estas paredes de azulejos que eu recrio, que eu reinvento”.Essencial para a artista é percorrer as ruas das cidades, onde recolhe não apenas cartazes mas também objetos que incorpora nas suas obras. Como uma porta verde, antiga, na peça Impermanência. Nesta obra, Manuela Pimentel mostra o seu processo de trabalho. “Eu uso uns papéis vegetais para fazer muitas vezes os desenhos dos azulejos, para os reinterpretar e para os passar para os grandes painéis. E normalmente esses desenhos estão guardados, nunca são mostrados. E, pela primeira vez, eu mostro estes desenhos, estão colados num biombo, como se estes segredos estivessem guardados atrás da porta.”Ao revelar o que ninguém vê quando está sozinha a trabalhar, aborda a questão da “verdade” no mundo atual. “Eu tenho nesta peça este lado de verdade, também como uma crítica ao que se ouve e ao que se vê hoje em dia no mundo a acontecer, para que a verdade venha sempre ao de cima, e seja sempre vista de uma forma construtiva”. .A artista procura o que passa despercebido à maioria das pessoas nas ruas do Porto, onde tem o seu atelier, mas também de Lisboa e de outras cidades do mundo. “As viagens dão-me essa matéria-prima, dão-me essa tinta, essa vontade de falar sobre o mundo no meu trabalho”.Com uma carreira de mais de duas décadas, Manuela Pimentel nota mudanças naquilo que vê durante as suas deambulações urbanas. “Eu sinto muita diferença, os lugares estão mais limpos. Porque a era digital acaba por substituir estes cartazes colados nas paredes. Há lugares onde eu ia buscar os cartazes que já não existem, desapareceram”.Diz que agora tem de ir “mais longe”, para as periferias, na sua busca por cartazes e que a intervenção nas paredes, que era “muito forte no 25 de Abril”, agora acontece cada vez menos. “Esta vontade que as pessoas têm de riscar as paredes e de dizerem coisas, acho que as redes sociais retiraram muito isso das ruas. É muito mais fácil escrever no Instagram ou no Facebook. Chega a muito mais gente do que propriamente ficar escrita numa parede de uma rua.”Mas não teme ficar sem matéria-prima, “porque o mundo é muito desigual. Então, há sempre um lugar que vai ter esta informação. Haverá sempre um lado do mundo que me vai dar este mote.”A azulejo é também uma ponte para o mundo, e a artista tem viajado também a convite das embaixadas. Em janeiro esteve no México. “O meu trabalho tem muito este lugar de intervenção, de manifesto. O México tem muito isso nos seus artistas murais e revolucionários também.” Além disso, sublinha, há sempre a “curiosidade de saber como é que eu trabalho as peças. Porque eu não faço azulejos de verdade. Eu transformo estes cartazes em azulejos. Inspiro muito as pessoas a quererem saber como é que eu faço isto. Como é que eu recrio estas paredes de azulejos.” .Com o seu trabalho artístico, Manuela Pimentel quer também transmitir uma mensagem de otimismo, de esperança, no meio deste mundo turbulento. Ela quis que a sua peça Diário das Nuvens I-V - João Paulo Cotrim integrasse esta exposição, para que as pessoas "olhem para o céu e sonhem".Com esta exposição, a Underdogs lança uma série de 49 peças da artista. Chama-se Calçada da Estrela, porque foi numa rua de Lisboa que Manuela Pimentel se inspirou. “Os azulejos caem e depois as pessoas não têm o azulejo igual para substituir e vão colocando outros. Fica um padrão todo misturado que cria uma reação em quem passa, porque aquele puzzle foi mal completado”, diz Manuela Pimentel sobre a inspiração para esta obra.Cada uma das 40 peças é única. "É uma edição muito particular, porque ela não é um múltiplo. Ela não se reproduz de si mesma, não é uma edição normal. É feita através de uma peça que eu produzi e depois recortei em quadradinhos de 14x14, que é o tamanho do azulejo antigo. Se daqui a muitos anos se juntarem as peças, ela volta a ser uma obra única. Portanto, quem adquirir estes pedacinhos vai ter um original desta edição de 49." .Vhils e as camadas que formam a identidade. No espaço digital, elas vêm de onde? .Antigo e contemporâneo unem-se em exposição no Museu do Chiado