Vhils, nome artístico de Alexandre Farto, tem exposto as várias camadas de que são feitas as cidades trabalhando temas como a memória e a identidade nos espaços urbanos. As técnicas e os materiais que utiliza são diversos, desde a transformação de uma parede com martelos pneumáticos – os seus “pincéis”, diz o artista enquanto nos guia pelo seu atelier, no Barreiro –, à recolha de cartazes publicitários moldados pelo tempo, criando as necessárias camadas para serem reveladas pela sua mão. Agora, diz Alexandre Farto, tem de os ir buscar a Espanha, porque em Portugal já são difíceis de encontrar nesse estado cumulativo. Passadas duas décadas de carreira artística, Vhils continua a explorar o conceito de identidade, mas agora com novos contornos e outras preocupações.“Toda a discussão que havia no espaço público passou para o espaço digital. O espaço público era o ponto de encontro e a internet substituiu o espaço comunitário, físico. E nós não entramos na internet sem ter um filtro, um algoritmo, social media, um grupo, sem ter uma plataforma. O grande desafio e aquilo sobre o qual eu tenho estado a ler muito e a pesquisar tem a ver com a soberania digital e a maneira como a data tem o poder que tem, e como nós não temos controlo sobre ela e muito menos o nosso governo”. . Neste tempo em que vivemos mergulhados em ecrãs, os fatores que nos condicionam são mais difíceis de rastrear. “Quando eu cravo um póster de publicidade e estou a formar o rosto de uma pessoa que vive naquela cidade pelas suas camadas, estou a mostrar que nós somos influenciados pelo contexto do espaço público em que vivemos, de onde vimos, do bairro onde crescemos, da publicidade que vemos. Quando isso é transferido para a internet e para um espaço digital, essas camadas que nos formam são-nos dadas pelo feed de uma aplicação que é controlada do outro lado do mundo. O trabalho tem a ver com a identidade, com as camadas que formam a identidade, e essas camadas vêm de onde?”, questiona Alexandre Farto. .Somos muito propensos a ser influenciados, manipulados com algoritmos que são opacos, que não são transparentes.Alexandre Farto - Vhils.Para o artista, está à vista como “somos muito propensos a ser influenciados, manipulados com algoritmos que são opacos, que não são transparentes”, e o desafio a que se propõe é: “Como é que eu vou encontrar essas camadas que tento explorar na rua no espaço digital? O caminho será por aí”.Esta reflexão está na origem da nova série de trabalhos que Vhils está a desenvolver, a que para já deu o nome de Data Corruption, e sobre a qual o artista já levantou um pouco o véu a quem o segue nas redes sociais: “Não são imagens sobre data, mas data a comportar-se como matéria”. Sendo “work in progress”, a técnica e os materiais utilizados ainda estão a ser testados. “Vai passar por tudo e mais alguma coisa, ainda estou a fechar essa parte. Pode incluir vídeo, pintura em cima do vídeo, destruição de material digital ou construção com o material digital que está destruído, reutilização de material digital...” . O atelier do artista, além de ser o epicentro da sua criatividade, é também um sítio para produção e experimentação. Por exemplo, Luís, um dos 25 colaboradores de Vhils – que fez maquetes para a Expo98 e Parque das Nações – começou a fazer testes com resinas afinando a sua transparência para produzir peças que permitem ver as várias camadas de material sobreposto. Como se fossem “fósseis” da cidade, diz o artista.Alexandre Farto mostra-nos o espaço onde estão guardados os martelos pneumáticos e todo o equipamento necessário para viajar para os muitos locais do mundo onde tem feito murais, utilizando a técnica a que chamou de “scratching the surface”, a sua imagem de marca e assinatura inconfundível, que o tornou um dos artistas portugueses mais internacionais da atualidade. Passamos também pelo depósito de portas, muito usadas no seu trabalho e que vêm um pouco de todo o lado – uma delas, aponta, veio da China – e pelo estúdio fotográfico à entrada do qual, no chão, jaz uma capa do jornal francês Courrier International em tamanho grande. Vhils explica que foi convidado a fazer a capa de uma das edições desta conceituada publicação francesa e a definir os conteúdos. Será um dos projetos que o ocupará nos próximos meses. .Subimos as escadas e entramos num gabinete onde, num placard, se alinham as muitas ideias do artista agrupadas por material, série de trabalho ou projeto. "Acordo a meio da noite e escrevo, tenho mesmo quase uma base de dados de mil ideias que fui organizando", revela. A Inteligência Artificial, acredita o artista, é uma ferramenta que vai acelerar a concretização de muitas delas. "Toda a barreira tecnológica que existia para mim quando comecei, ou seja, tecnicamente como é que eu chegava de A a Z ou de A a B, toda essa barreira tecnológica vai desaparecer num espaço de 12 meses, 24 meses". Um dos projetos que está a desenvolver é uma colaboração com o CERN, o centro europeu de física de partículas, detentor do maior acelerador de partículas do mundo (The Large Hadron Collider ). Vhils já utiliza explosivos que fazem aparecer imagens em paredes de edifícios que são filmadas em slow motion, antes da estrutura desabar – “para mim a peça é o vídeo” –, mas desta colaboração com o CERN pode nascer algo ainda mais radical: uma obra de arte resultante do processo de fusão de partículas. “Estamos a tentar fazer um trabalho o mais micro possível, ou seja, já trabalhamos em escala grande, agora gostava de conseguir criar algo na colisão”. E mais não diz o artista sobre esta experiência.Outro material que nesta altura está a merecer a atenção de Vhils é o betão. Em colaboração com arquitetos, o artista tem explorado este material na fase em que é moldável. “É uma constante descoberta. Eu normalmente visito e revisito os media e os materiais que vou trabalhando. O betão sempre me fascinou. Não sei se pelo mal ou pelo bem, mas é um material que permite muita modelagem. E continuo a trabalhar numa série de projetos nessa direção em que o betão é quase um material que eu tento subverter e tornar mais humano”. . Muita solicitada, a arte de Vhils multiplica-se um pouco por todo o mundo. Neste ano, pai recente de gémeas, pretende reduzir as viagens, mas já sabe que terá projetos em França (onde fez um mural no aeroporto de Orly com 11 mil azulejos, uma parte do qual ainda não é visível ao público), no Dubai, em Miami e em Xangai.Em Paris, tem duas exposições previstas. A 21 de maio fará uma mostra individual na galeria francesa que o representa, a Galerie Danysz, e outra coletiva, em julho, para a qual fará uma instalação. Nesta altura tem uma exposição no MUCA, museu de arte urbana e contemporânea de Munique. Intitulada Strata - Selected works: 2005 - 2025, foi inaugurada em março de 2025 e estava previsto terminar no dia 1 de março deste ano, mas a exibição foi prolongada até 19 de abril.Em Portugal fará uma exposição em março de trabalhos em papel na Underdogs, a galeria que fundou. Nesta altura tem uma exposição no MUDE - Museu do Design, em Lisboa, das suas edições. Selected Editions 2008-2024 estará patente até 1 de março e mostra uma vertente da obras de Vhils que ele diz que aprendeu com Banksy, o artista britânico de arte urbana que permanece no anonimato. “Houve muita coisa que eu aprendi também com a maneira como o Banksy trabalhava em Londres, a parte das edições, das fotografias, que era uma coisa desconhecida para mim, mas que também tem uma história em Portugal muito forte. O Banksy conseguiu perceber que era uma maneira de interligar-se com o público e com a comunidade que colecionava e também de financiar os seus próprios projetos”. .Recebemos muitos pedidos, temos de fazer uma triagem. A causa tem de fazer sentido para o atelier e para o corpo de trabalho que eu tenho seguido. Seja uma comunidade que está a ser despejada, que não consegue ser ouvida, seja uma figura histórica que foi significativa e que as pessoas querem homenagear.Alexandre Farto - Vhils.Vhils faz muitas comissões, essenciais para manter o atelier – mas também responde a pedidos de comunidades e nesses casos autofinancia esses projetos. “Recebemos muitos pedidos, temos que fazer uma triagem. A causa tem que fazer sentido para o atelier e para o corpo de trabalho que eu tenho seguido. Seja uma comunidade que está a ser despejada, que não consegue ser ouvida, seja uma figura histórica que foi significativa para uma zona e que as pessoas querem homenagear... É um trabalho difícil, é preciso uma gerir e equilibrar isso com as obrigações do atelier.”Os próximos projetos financiados pelo seu atelier, adianta o artista, serão realizados em França e possivelmente no sul de Portugal e serão homenagens a escritores que escreveram sobre o mar. Vhils já retratou, por exemplo, José Saramago numa praia da Lourinhã, em 2020, e mais recentemente, em 2024, marcou o rosto de Sophia de Mello Breyner Anderson no Caniçal, na Madeira. .Alexandre Farto começou a interessar-se pelo graffiti muito novo, aos 11, 12 anos. “Havia muita coisa que chegava, eram fanzines na altura, cópias de revistas de graffiti dos Estados Unidos e de França, trocávamos na escola, desenhávamos, fazíamos competições de desenho, guardávamos o dinheiro do lanche e comprávamos umas latas e íamos para trás do pavilhão da escola, depois víamos quem tinha mais estilo...Veio dali esse bicho de desenhar, ao mesmo tempo era um ato de rebeldia e uma afirmação de existência, dizeres que existias e fazias, tinhas uma coisa pelo que lutar, podia ser desporto...” Começou a assinar Vhils por uma questão meramente gráfica e assim se foi impondo nas comunidades de graffiters no Seixal, onde cresceu, depois em Almada e em Lisboa. O comboio que entretanto ligou as duas margens do Tejo também ajudou. “O graffiti foi um pouco esse poleiro para conhecer pessoas fora desse sítio onde eu vivia. Lembro-me de na altura pintar um comboio - que era muito difícil de pintar - e esse comboio circulou, e o pessoal de Almada via o meu trabalho, e as pessoas de Lisboa viam o meu trabalho. E perguntavam, como é que ele pintou, como é que ele fez...E isso fez-me conhecer o pessoal do graffiti de Almada".Juntou-se a esse grupo de Almada que por sua vez se juntava aos grupos de Lisboa e assim chegou à capital. "Não havia rivalidades, não havia gangues, isso é um bocadinho um mito trazido de fora. Era uma subcultura, como havia o rap, o hip hop, hardcore, punk, todas estas subculturas de que as margens de Lisboa são muito férteis, todas elas tinham o seu microcosmos de ação, de conversa, de pontos de encontro”. .Street art mete-nos numa caixinha e depois fica difícil sairmos de lá e termos um discurso um bocadinho mais consistente.Alexandre Farto - Vhils. Vhils tanto faz arte urbana como arte para galerias e desde muito cedo percebeu que levar a sua arte para dentro de portas abriria outros horizontes. Fez a sua primeira exposição em espaço fechado aos 17 anos, integrado no coletivo Visual Street Performers, constituído por sete "writers de graffiti" (Hibashira, Hium, Klit, Mar, Ram, Time e Vhils), nas antigas instalações da Interpress, no Bairro Alto. Essa exposição pioneira de há mais de duas décadas viria a ser visitada pela galerista Vera Cortês que o convidou para a sua galeria e ainda hoje representa o artista em Portugal. “Foi a primeira vez que vi potencial de trabalhar dentro de um espaço e a profundidade que conseguias dar ao conceito de trabalho que fazias. Ou seja, na rua fazes uma coisa, as pessoas passam rápido, tens de ter um impacto rápido, há uma interação muito fugaz com o trabalho. Quando moras dentro de um espaço interior, consegues ter um discurso, um tema, consegues ter profundidade, porque as pessoas também já vão pré- disponíveis a receber um input de alguma forma.” Além de, acrescenta, "não tinha que fugir por estar a trabalhar. Foi aí que entrei no circuito”.Estudou em Londres na Byam Shaw School/Central Saint Martins College of Arts and Design, e a convite de Bansky participou no Cans Festival, em 2008, naquela cidade. O seu mural acabaria por aparecer na capa do jornal The Times dando-lhe exposição global. "Isso deu-me visibilidade, não só em Portugal, porque já existia, mas internacionalmente a coisa começou a ganhar peso, tinha um site muito básico na altura, e começámos a receber e-mails com convites e projetos". Foi nessa altura que começou a criar uma equipa. "Eu estava sozinho e tinha que arranjar uma maneira de dar resposta. Aquela era a minha oportunidade, tinha que a agarrar, comecei a responder aos e-mails todos, a organizar tudo, e depois precisava de pessoal para me ajudar e o pessoal que eu conhecia era do graffiti." . Perguntamos-lhe se a street art entretanto virou mainstream, mas Alexandre Farto rejeita desde logo esse rótulo: "Eu não sei se lhe chamaria street art, porque não chamamos a um artista de atelier um atelier artist. Street art mete-nos numa caixinha e depois fica difícil sairmos de lá e termos um discurso um bocadinho mais consistente". Falamos então de arte urbana? "Quando estou a trabalhar na rua sim, mas quando estou a trabalhar no atelier é arte. É só porque normalmente essas caixas discriminam, criam-se uma série de preconceitos". .O ano em que o húngaro Arpad Szenes terá uma exposição só dele.Benjamin Weil: "A missão principal da coleção do CAM é estar fora, não é ficar aqui”