Esta é uma exposição com 14 curadores, uma equipa mista com elementos do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC) e do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Organizar esta mostra que combina peças das duas instituições foi uma espécie de jogo de ping pong, com muitas trocas de ideias ao longo de um ano. Intitulada Dos Gestos e das Formas - Diálogo de Coleções, abriu ontem ao público e a escolha das cerca de 60 peças mostradas no Museu do Chiado ficou fechada apenas na semana passada, revela ao DN a diretora do MNAC. Filipa Oliveira explica que a ideia para esta exposição nasceu de uma conversa com a diretora do MNAA, Maria de Jesus Monge, que propôs ao MNAC fazer uma conferência no museu sobre a relação entre a arte antiga e os museus de arte contemporânea. Ela, por sua vez, propôs-lhe antes fazer uma exposição do Museu de Arte Antiga e do Museu de Arte Contemporânea, “porque foi a mesma coleção até 1911”. Foi nesse ano, após a implantação da República, que o Museu Nacional de Belas-Artes e Arqueologia dividiu a sua coleção por duas novas instituições, o MNAA e o MNAC. .Em conversa com o DN estiveram cinco das 14 pessoas envolvidas na curadoria Dos Gestos e das Formas - Diálogo de Coleções. Do MNAC, além de Filipa Oliveira, juntaram-se as curadoras Maria de Aires Silveira e Adelaide Duarte, e do MNAA Anísio Franco e Ramiro Gonçalves. Porque esta exposição nasceu de um processo coletivo pouco habitual. “Esta exposição é o resultado de um diálogo em conjunto. Eu, por exemplo, nunca faria esta exposição”, observa Maria de Aires Silveira, que é imediatamente secundada pelos outros curadores.Adelaide Duarte sublinha que não olhou para o processo desta exposição “como uma revisitação daquilo que foi um passado comum, mas como um ponto de partida para reolhar as coleções que são muito distintas do ponto de vista cronológico, e o que isso significa do ponto de vista estético, e reaproximá-las”.Dos Gestos e das Formas - Diálogo de Coleções está dividida em quatro núcleos: Corpo, Tempo, Engenho, Material/Imaterial. A ideia, diz Anísio Franco, foi “criar temas que atravessassem as barreiras cronológicas”. São temas, acrescenta Filipa Oliveira, “que trazem ao público relações absolutamente inesperadas que fazem com que se olhe novamente para obras, ou até para artistas, que conhecemos muito bem, de uma forma diferente”. . Será possível ver peças nunca expostas e em diálogos inéditos, fazendo com que, como diz Anísio Franco, as obras sejam apreciadas de outra forma. “O que me interessava era que as pessoas que conhecem as obras do Museu de Arte Antiga as encontrassem aqui e elas tivessem um sentido tão novo e tão diferente que não as reconhecessem como arte antiga.” Acrescenta a diretora do MNAC que “o Anísio dizia que o objetivo dele era que quem viesse ver a exposição não soubesse distinguir o que era arte antiga e o que era arte contemporânea. E eu acho que há algumas obras em que é mesmo assim”. Convidados a destacar uma peça desta exposição, os cinco curadores partilham as suas escolhas. Anísio Franco escolhe Vidraça, um vidro de uma janela do século XVIII, que isolado mais parece uma obra contemporânea. “É uma peça que parece nada, mas que na verdade tem tudo. E que nunca foi vista”. Filipa Oliveira escolhe a escultura Inês de Castro, de Simões de Almeida Jr., de 1880. “É um gesso que esteve num jardim durante muito tempo, e está praticamente a desaparecer, está transformada pelo tempo”. . Maria de Aires Silveira elege Maternidade, obra de Fernando Fernandes, de cerca de 1960, em cerâmica policromada. “É uma obra extraordinária, que pode fazer a ligação com todas as salas da exposição. Atravessa, de certo modo, os tempos, tanto pelas formas, como pelas cores”.Adelaide Duarte aponta para Salomé, uma pintura em óleo sobre tela, de Alice Jorge, de 1960. “Acho-a de uma sensualidade extraordinária, muito distinta da sensualidade do Rodin, o Rodin apetece tocar, agarrar, a escultura pede toque. Esta não, é uma sensualidade muito racional, mental. É de um desenho absolutamente magnífico”. Ramiro Gonçalves, do Museu Nacional de Arte Antiga, destaca uma estatueta animal (um macaco), em basalto, que se presume ser de uma civilização antiga da América Latina, e que esteve durante anos sem ser inventariada. Trata-se de uma peça que ele considera ir de encontro ao espírito "inusitado" desta exposição. “No princípio estranha-se muito, mas depois entranha-se. Aquela peça tem uma história muito curiosa, ela apareceu na escadaria do museu [de Arte Antiga]”. Não se sabe quem a deixou lá.A diretora do MNAC revela que a exposição, que pode ser visitada até 20 de setembro, inclui também quatro poemas inéditos de Filipa Leal, que foi convidada a escrever sobre cada um dos núcleos expositivos. “Como não há uma dimensão historiográfica na exposição, interessa-nos essa dimensão mais sensorial, mais sensível, mais poética na relação das obras.”.Desconstruindo preconceitos sobre a construção com terra: o caso do solo de Lisboa .Rosa Barba: Quando o celuloide se torna matéria escultórica