Documentário "Free Solo" nomeado aos Óscares tem dois portugueses na equipa

O filme norte-americano "Free Solo", nomeado este ano para o Óscar de Melhor Documentário, conta na ficha técnica com dois nomes portugueses: Joana Niza Braga e Nuno Bento, da equipa de som.

O documentário da National Geographic acompanha o alpinista norte-americano Alex Honnold na escalada, sem cordas ou proteções, da parede de granito El Capitan, com 900 metros de altura, situada no Parque de Yosemite, nos Estados Unidos. A realização é de Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi.

Joana Niza Braga e Nuno Bento, ambos de 27 anos, são, respetivamente, foley mixer e foley artist do documentário. O trabalho deles foi "todo feito remotamente", a partir de Lisboa, na pós-produtora de cinema Loudness Films, onde há "um estúdio de foley bastante grande", contou aquela profissional, em declarações à Lusa. O foley permite criar sons que por vezes não são captados nas rodagens. "Muitas vezes aquilo que estamos a ver nos filmes, em termos de som, não está lá, não existe ou está muito mal gravado, especialmente no Free Solo' em que temos o Alex a escalar uma montanha gigante", referiu Joana, considerando que "deve ter sido muito difícil conseguir captar algum som decente" na rodagem daquele documentário.

Free Solo mostra a escalada sem corda de Alex Honnold, que desafiou a morte numa subida de 900 metros no rochedo El Capitan, nos EUA. O filme vai ser exibido em Portugal em duas únicas sessões (já esgotadas): 11 de março no Cinema São Jorge, em Lisboa, e 12 de março no Cinema Trindade, no Porto. Além da nomeação para o Óscar de Melhor Documentário (cuja cerimónia se realiza a 24 de fevereiro), o filme tem ganho outros prémios e recebido outras nomeações, por exemplo para os BAFTA (este domingo). Está ainda nomeado para os prémios da Cinema Audio Society (CAS) e para os Golden Real, os prémios da Motion Picture Sound Editors (MPSE).

O que faz um foley?

Com o foley, é possível "criar a ilusão de que existe essa proximidade com as personagens que estão no ecrã". "Por exemplo, temos o Alex a escalar e nós conseguimos ouvir a parede e todo o material dele, quando na verdade é tudo falso. É tudo criado por nós: pelo foley artist e pelo foley mixer, que juntos trabalhamos para conseguir tornar esse som verdadeiro para aquilo que estamos a ver", desvendou.

O processo é feito com o foley mixer na régie e o foley artist num estúdio ao lado, com os dois separados por um vidro. "Eu digo, por exemplo, 'agora preciso que faças os passos dele nesta casa em madeira enquanto ele usa ténis. O meu colega tem uma televisão e quando eu carrego play, para gravar, ele tem que olhar para a imagem e repetir exatamente aquilo que está a acontecer", descreveu.

O foley artist "faz os passos, dentro de um determinado tipo de chão - na Loudness há vários tipos de chãos e de props, como canetas, livros, garrafas, óculos, teclados de computador - e recria-se todo aquele som que é criado pela personagem". "Nós temos que fazer novamente a olhar para a imagem, de maneira síncrona, para que cole com a imagem. E quando as pessoas estão a ver o filme parece que aquilo que estão a ouvir é aquilo que está ali, quando é falso. O meu colega esteve a fazer os barulhos, sozinho, aquilo fica gravado e depois editado e fica como se fosse o som verdadeiro da cena", explicou.

O sonho de trabalhar para um Óscar

Três anos depois de ter terminado o curso de Cinema, na vertente Som, da Escola Superior de Teatro e Cinema, Joana Niza Braga tem o nome da ficha técnica de um filme nomeado aos Óscares, algo que "é um bocado surreal". "Para mim isto ainda é um bocado surreal estar a acontecer, ainda por cima não estou a trabalhar assim há tanto tempo. E claro uma pessoa diz sempre 'o meu sonho é um dia trabalhar num filme que esteja nomeado para os Óscares', mas nunca achamos que, especialmente em Portugal, isto possa acontecer", partilhou.

Aos 27 anos, Joana Niza Braga conta no currículo com um filme premiado. Em Balada de um batráquio, de Leonor Teles, filme vencedor do Urso de Ouro de Curta-Metragem no Festival de Cinema de Berlim, em 2016, foi responsável pela montagem de som. Foi através desse filme, da colega de curso Leonor Teles, que chegou à Loudness Films, onde estagiou e onde permanece até hoje. Nuno Bento começou a trabalhar na pós-produtora de cinema depois ter estudado Produção e Tecnologias da Música na ETIC/EPI e Som para Audiovisuais e New Media na Restart.

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