Trio de narrativas de D. H. Machado recupera a intuição e confronta o leitor com a memória.
Trio de narrativas de D. H. Machado recupera a intuição e confronta o leitor com a memória. Andre Chanoca

Desvendar os mitos com a trilogia de D.H. Machado

Num ano, o romancista aborda a insegurança de Elvis Presley, oferece uma outra vida a Marilyn e Kennedy e desfaz a justificação para as guerras no Médio Oriente.
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Desde 2018 que D. H. Machado - poeta, dramaturgo e romancista - tem vindo a eclipsar da sua vida as atividades profissionais com que inicia a vida adulta – frequência dos cursos de Direito, Medicina e Relações Internacionais - para se dedicar de corpo inteiro à literatura. Já com vários títulos publicados, é ao lançar a novela Eu Sou Elvis que o autor alarga a sua base de leitores, tendo editado este ano dois novos romances na esteira desse anterior título amplamente elogiado: When Marilyn Met Jack e A Gramática da Guerra. Duas obras em registos diferentes e, também, de conceção mais demorada do que Elvis, escrito num único sábado e revisto no domingo seguinte, após ter sido impressionado pelo filme sobre o cantor norte-americano do realizador Baz Luhrman.

Para D.H. Machado o sucesso de Eu Sou Elvis não alterou o processo criativo dos livros que se seguiram: “Senti alguma responsabilidade, mas foi mais um desafio interior porque quero sempre ir mais além. Nem foi um romance planeado, o que contraria a minha forma de trabalhar, que é de estruturar tudo até o mais ínfimo pormenor. Eu conhecia a carreira dele, vi documentários e li biografias, mas ao ver este filme concentrei-me numa sequência de doze minutos em que Elvis está no camarim e é confrontado com a sua imagem a degradar-se e a incerteza sobre o percurso, porque em 1968 já não era a estrela principal do mundo da música. Nessa dúzia de minutos fechado no camarim, contrariado porque o empresário o força a fazer um especial de Natal para a televisão (’68 Comeback Special), Elvis faz essa retrospetiva íntima.”

O programa do canal NBC relançou a carreira de Elvis Presley e D.H. Machado considera que o seu livro fez o mesmo junto dos leitores: “Depois de lerem o livro foram ver o filme e procurar informações sobre ele, tendo percebido que nem sempre se conhece a história mais pessoal destes grandes mitos, que são humanos e com os mesmos receios e ambições. Em resumo, o que eu quis fazer no livro era mostrar a fragilidade que atingiu o Rei do rock nesses minutos”.

Se com Eu Sou Elvis, o escritor refaz o velho mito de que o cantor ainda “está vivo”, com When Marilyn Met Jack a aproximação é outra, como diz: “Especula-se muito sobre se houve realmente um romance entre Jack Kennedy e Marilyn. Há quem diga que sim, mas pode não ser mais do que um mito. No entanto, não foi esse o motivo por que escrevi o romance, antes por querer pegar em duas personagens que todos conhecem mas de quem desconhecemos a vida privada. Foi esse o objetivo: quem são fora da esfera pública? Situei a história enquanto jovens e em lugar não referido, porque o importante era o acaso que fez com que se conhecessem numa mercearia. É a partir daí que se desenrola muita da ação e só depois refiro a invasão à vida pública. Como o leitor quase sempre pensa neles enquanto figuras públicas, o que faço é estar sempre a direcioná-lo para aquilo que quero que sinta: o desconforto da vida pública a invadir a privada. Mesmo a questão do assassinato surge como uma notícia que aparece na televisão, como se fosse um ruído de fora e que é abafado, porque a personagem que quero como principal deste romance é a Marilyn. É uma mulher profunda, que gostava de arte, de boa literatura e queria ser algo mais num tempo em que não era fácil para o sexo feminino.”

Se tanto Elvis como Marilyn parecem ser uma quebra no padrão criativo de D.H. Machado quando se compara com a sua produção anterior, o mais recente romance ainda é mais. O autor explica: “Não se tratará de uma quebra, o que pretendi com ambos foi encontrar as omissões que existem na realidade e que gosto de explorar, como foi no caso do livro Nighthawks, em que escrevi sobre o quadro do Hopper e quis explorar o mistério sobre as quatro personagens que surgem na tela. Agora, em A Gramática da Guerra, parti de um trabalho que fiz há uns 20 anos e transponho essas conclusões para o personagem Thomas. Ele terminou a sua carreira de jornalista e está a fazer uma retrospetiva da vida e das guerras a que assistiu. Não reflete o que eu penso atualmente, antes o que concluí há duas décadas nesse trabalho que tinha o mesmo título que agora dei ao romance. O que fiz agora foi criar os mecanismos para colocar todos esses pensamentos, portanto pode-se dizer que tem muito de autobiográfico.”

Questiona-se se o escritor conseguiu transmitir em A Gramática da Guerra tudo o que pretendia, fugindo aos filtros com que as reportagens televisivas adulteram e suavizam a realidade. D.H. Machado hesita: “Não sei se consegui. Quando estamos a falar de guerra, há algo mais complexo por trás e o importante é motivar o leitor para a vontade em explorar algo mais e perceber que há mais além daquilo que vem de ter com ele através da televisão e dos jornais. Se fui capaz, quer dizer que o livro foi conseguido. O objetivo era mostrar a insuficiência da linguagem quando estamos a falar de guerra, bem como o tipo de linguagem que é utilizada, porque os conflitos são feitos de pessoas e de famílias.”

Termina-se com uma questão sobre o estado da literatura nacional. Está boa? Responde: “Temos coisas muito boas e outras menos boas. Temos romances excecionais e em Portugal acontecem boas surpresas. Como leio muito em inglês também posso dizer que é como em Inglaterra: há coisas muito boas e coisas menos boas. O problema é publicar-se muito no mundo inteiro, portanto o que é genial é em muito menor número.”

É difícil entre todos os livros que D.H. Machado já escreveu escolher o seu preferido, daí que opte por um estratagema: “Tenho uma ligação muito grande com o Auto-Retrato Enquanto Hamlet, porque é muito autobiográfico e tem a ver com o homem que se confronta e dialoga com o tempo. No entanto, normalmente gosta-se muito do nosso último livro. Há sempre uma ligação especial por ter acabado de sair, mas não se esquecem os anteriores pelo prazer que deram no ajuste da linguagem ao tema, como foi o caso de Rach 3, ou com a absorção da linguagem de Shakespeare para a peça de teatro Lady Macbeth [que vai ser levada à cena] sem perder a dinâmica de fala nas personagens. O mesmo acontece com a poesia, que carece de outro tipo de linguagem e que tem um ritmo diferente porque a escrevo à mão, numa forma de pensar mais pausada. Nos romances, prefiro o computador, porque sai tudo com mais rapidez. Neste momento, estou a construir um romance sobre Glenn Gould e o tempo em que fez as gravações das Variações Goldberg. Gosto de desafios e sei que há um leitor culto e que gosta de literatura mais desafiante; creio que há espaço para tudo. Além de que não acredito que um escritor consiga manter sempre uma qualidade total em todas as suas obras; o nosso Saramago tem obras excecionais e umas melhores do que outras.”

EU SOU ELVIS

84 páginas

D.H. Machado

The Poets and Dragons Society  

WHEN MARILYN MET JACK

180 páginas

D.H. Machado

The Poets and Dragons Society

A GRAMÁTICA DA GUERRA

220 páginas

D.H. Machado

The Poets and Dragons Society

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