O escritor Itamar Vieira Junior fecha a trilogia iniciada com 'Torto Arado', continuada com 'Salvar o Fogo', e agora o novo romance 'Coração Sem Medo'.
O escritor Itamar Vieira Junior fecha a trilogia iniciada com 'Torto Arado', continuada com 'Salvar o Fogo', e agora o novo romance 'Coração Sem Medo'.D.R.

A destruição de uma mãe por Itamar Vieira Junior

Escritor brasileiro Itamar Vieira Junior regressa com um romance que fecha o ciclo iniciado com 'Torto Arado', continuado com 'Salvar o Fogo' e agora 'Coração Sem Medo'.
Publicado a
Atualizado a

Por muito que custe a Itamar Vieira Junior aceitar ainda lhe é impossível fugir ao seu romance Torto Arado. Talvez no próximo livro que publique, após o que acabou de chegar às livrarias portuguesas há uma semana, Coração Sem Medo, essa situação seja possível. Não só porque o seu primeiro romance ultrapassou um milhão de exemplares vendidos no seu país, bem como está a “infetar” o mundo em mais de três dezenas de traduções a história de Belonísia e Bibiana, uma espécie de escravas e vítimas da expulsão das terras que permitiram a sobrevivência da família. Conta a história que Itamar deu início ao manuscrito de Torto Arado ainda era um adolescente de 16 anos [que se autobiografa parcialmente desta vez no personagem Cainho] e que, após perder esse borrão inicial, regressa ao livro já doutorado e com uma vivência da realidade do interior da Baía.

No romance que se seguiu, Salvar o Fogo, Itamar progride para fora do cenário anterior e coloca a dupla dos seus personagens principais, Moisés e Luzia, a protagonizar duas vidas em muito diferentes e sob a tirania da religião [tema que inexiste neste novo romance]. Em Coração Sem Medo, a ação desloca-se para um bairro pobre de Salvador e, mesmo que a personagem Rita Preta regresse momentaneamente ao interior deste estado brasileiro, é a cidade o local escolhido por Itamar Vieira Junior para esta nova obra. Que, ainda por cima, tem um final inesperado, mas de uma enorme justiça para uma mãe que percorre todo o livro em busca de um filho desaparecido.

Quando se questiona Itamar como é confrontar-se novamente com os leitores após o romance mais bem-sucedido na literatura brasileira recente e se foi por isso condicionado neste projeto literário, a resposta é aquela que um escritor que em poucos anos salta do desconhecimento para o sucesso mundial pode dar: “O que tento sempre é não criar expectativas. Sei que cada livro tem o seu caminho e o que aconteceu com Torto Arado foi algo de muito bom, diria até excecional. Mas, penso sempre que o meu projeto literário não se pode resumir a uma história e a um livro. Portanto, não parei de escrever e os leitores continuam também a descobrir o que ando a fazer.” Acrescenta: “A expectativa do leitor é uma pergunta que repito constantemente, no entanto respondo a mim próprio que tenho um projeto literário que não posso trair. Daí que faça o correto: continuar a escrever.” Insiste-se no sucesso inicial e escuta-se o escritor dizer apenas “É, aconteceu…”, para logo continuar: “O que aconteceu com Torto Arado foi algo completamente inesperado. Quem imaginaria que uma história tão simples e banal, que trata de pessoas que ainda vivem uma situação de escravidão no interior da Baía fosse conquistar tantos leitores? Não havia como prever, mas aconteceu e não me importo que digam sempre que me apresentam que é o autor de Torto Arado. Já não me incomoda...”

O tema do romance Coração Sem Medo é em muito estranho ao dos dois anteriores, no entanto o escritor não evita que a protagonista Rita Preta regresse à propriedade central de Torto Arado, fechando a trilogia com um piscar de olhos a esse retorno a uma outra vida também repleta de violência. Itamar diz que não será por acaso que este regresso está no volume final da trilogia: “Quando concluí o primeiro livro, já tinha consciência de que estas três histórias funcionariam bem como uma constelação de narrativas e de personagens diferentes, que, embora sejam histórias distintas contém figuras que se reencontram nesse emaranhado de dramas.” Considera que não poderia ser de outro modo: “A cada vida humana abre-se uma perspetiva que pode ser infinita; somos a continuação da história daqueles que vieram antes de nós, dos nossos pais e avós, mesmo que involuntariamente. Ao ter essa noção, senti que o que deveria deixar nesta trilogia foi aquilo que escrevi e, ao mesmo tempo, tratar de um direito tão elementar para qualquer ser vivo como é o direito à terra, ao território, ao lugar que habitamos e vivemos, ao local onde existimos, ainda tão em disputa em muitas partes do mundo.”

É impossível não perguntar a Itamar qual foi a continuação mais difícil: Salvar o Fogo ou Coração Sem Medo? A resposta é fácil, parece: “Acho que é sempre o último livro; estou certo de que Coração Sem Medo foi o mais desafiador. É natural que sejam os livros mais recentes a desafiarem mais por irmos ficando mais críticos em relação ao nosso trabalho e que quanto mais escrevemos mais exigentes ficamos. Este livro foi desafiador por essa razão e porque foi difícil encontrar a maneira certa de narrar a história, tanto assim que a comecei muitas vezes até encontrar o tom desejado para a narrativa - começava e deixava de lado se não me satisfazia.”

Esse desafio está bem patente no novo registo deste volume final da trilogia e sente-se em poucas páginas, como se Itamar não fosse apenas o escritor mas também um cineasta que conta a história através das imagens de um filme. Diz dessa alteração: “Os escritores têm essa possibilidade destrutiva e de fazer um exercício quando escolhem falar de um território de modo que consigam narrar o que se precipita para dentro e para fora de uma personagem. Nunca sabemos se dará certo e seria mais cómodo nem tentar, mas não aceitaria esse comportamento. Preciso tentar e acho que resultou bem no romance.”

De que trata Coração Sem Medo? Em poucas palavras pode dizer-se que acompanha o dia a dia de uma mãe em busca do filho que foi levado pela polícia e de quem não tem mais notícias. Um relato de grande violência e que vai passando por todas as etapas de uma tragédia que completa a radiografia sobre a brutalidade que atinge os jovens ao abandono e os pais que lutam por um salário e não podem estar sempre presentes. Além dessa situação, Itamar vai mais longe e toma como protagonista Rita Preta, uma mãe que cuida dos seus três filhos e que sente essa violência policial interpor-se entre ela e um deles. Uma das questões que se põe ao leitor é até que ponto o romance resulta de uma investigação real ou mais não é do que ficção. O escritor confessa que o tema surgiu devido ao seu interesse sobre o quotidiano dos lugares em que habita, no entanto alarga o âmbito dessa temática: “Creio que esta história de uma mãe que vive uma busca ou um luto por um filho é algo que atravessa a dramaturgia, a poesia, o teatro e a literatura de todos os tempos. Se voltarmos às tragédias gregas, por exemplo a da história de Hécuba de Eurípides, vamos encontrar a mãe que é uma rainha, depois escrava e tem os filhos mortos e enquanto vive aquele luto sem fim planeia a sua vingança. Também se a tem na peça Mãe Coragem e Seus Filhos, de Bertolt Brecht, em que esta mãe vive uma guerra e a dor de perder os filhos. Ou um romance de que gosto muito, o Ana-Não, de Agustín Gómez-Arcos, e que conta a história de Ana Paúcha, que atravessa a Espanha em busca do seu último filho que foi preso pela ditadura franquista após os outros terem morrido na Guerra Civil. Esta é uma história humana e no Brasil há muitas mulheres periféricas, muitas delas negras, que viveram e vivem ainda esse drama, que não é muito diferente do já contado pela humanidade em todos os tempos na história universal. O que me espanta é que ainda hoje se vivam situações dessa natureza.”

Itamar Vieira Junior aproveita para referir outras histórias não tão distantes da do seu romance e do seu tempo: “O meu interesse nos lugares que habito e no ambiente em que vivo mostram-me que essas histórias existem no meu país, dramas que venho acompanhando desde há muito tempo. Em Salvador, por exemplo, há cerca de doze anos houve uma chacina executada pela polícia num bairro da periferia chamado Vila Moisés. Morei durante muitos anos num bairro em que um jovem, Davi Fiúza, desapareceu em circunstâncias muito semelhantes às do meu personagem Cid. No Rio de Janeiro, há As Mães de Acari, semelhantes às Mães da Praça de Maio na Argentina, mulheres que se reúnem depois de seus filhos desaparecerem numa abordagem policial. Esse é um drama do quotidiano e, para mim, a literatura deve restituir a humanidade que as manchetes de jornais não são capazes. É através da literatura que podemos criar e imaginar as personagens em toda a sua profundidade. É através da escrita e da arte que se restitui a humanidade que a indiferença de uma sociedade faz na desumanização da existência dessas pessoas.”

Se Itamar está do lado de uma mãe que perde o filho e a retrata, também não deixa de colocar um dos filhos a acusá-la de ser responsável pelo desaparecimento. Qual a intenção de levar ao máximo a culpa de uma mãe alheia ao que aconteceu? Itamar considera que o seu livro tenta reproduzir como uma família em que só a mãe cuida dos filhos pode não ser a ideal: “Ela não é uma mãe perfeita, como todos nós não o somos. O impacto da sua ausência enquanto está no emprego vai enfraquecer os laços frágeis de uma família, que sendo periférica e negra, são personagens com um destino inevitável na sociedade brasileira. No caso de Rita Preta, essa busca pelo filho não termina e nesse processo o que quer é encontrar a verdade. Muitas vezes, para encontrar a verdade, também se acusam aqueles que estão próximos pelas negligências e ausências. A própria Rita pergunta-se várias vezes onde é que errou e se estivesse em casa o desaparecimento do filho teria acontecido? A intenção é lançar luz sobre essas sombras que cercam as personagens.”

O registo de escrita de Itamar Vieira Junior levanta perguntas, uma delas é sobre qual será o seu método para extrair das personagens tudo o que vai dentro delas? Responde: “A escrita também carrega essa intenção, afinal a história antes de ser escrita preexiste no escritor e na sua mente. Nesse preexistir não precisa de palavras, é feita de imagens e de sentimentos, e ao escrevê-la existe sempre uma tentativa de reproduzir tudo aquilo que existe em nós através de palavras e, por mais vasto que seja o vocabulário da nossa língua portuguesa, que é infinito e também limitado, nem sempre é suficiente para colocar tudo para fora. Tenho a consciência de que a arte de escrever traz em si essa limitação e também uma imperfeição; posso tentar esmiuçar os personagens, fazer um movimento para dentro e para fora, entender o que pensam, o seu espírito e o mundo que os cerca, mas a tarefa de levar o leitor comigo para viver essa experiência nunca será completa. Tenho a consciência de que essa tentativa estará sempre longe do fim.”

A dado momento, Itamar coloca o filho Cainho a escrever em cadernos de forma a preencher as lacunas da sua história de vida. Não pode deixar de ser autobiográfico, questiona-se, e Itamar garante que todos os seus personagens têm um pouco do autor: “O Cid tinha uma rebeldia e uma vontade de conhecer o mundo que é muito minha, da mesma maneira que a Rita e a culpa que carrega ao desejar proteger todos à sua volta é algo que existe em mim. O Cainho tem uma sensibilidade para a escrita, para a leitura e para a literatura, e chega um momento em que não sabemos se iremos conhecer de facto o que aconteceu. É nesse momento que faço uma pequena homenagem à literatura, porque ela está a todo o momento a instigar a imaginação de histórias, a reconstituí-las, a pensar no passado, no presente e a projetar um futuro, colocando-nos perante o movimento da vida. E é nessa parte do romance que vamos, por fim, entrar nessa história sem nos preocuparmos se ela é fruto da imaginação daquele jovem, ou se é de facto a verdade escrita como faz a literatura. Talvez sejam as duas coisas, de que resulta o entendimento de que a literatura está sempre a dar-nos sentidos para a vida.”

Lá para o fim de Coração Sem Medo, acontece um regresso da protagonista à terra onde nasceu, a do Torto Arado, em que já nada reconhece e perde a presença do passado. Será uma maldade por parte do escritor? Itamar defende-se: “O que acontece com ela é o mesmo que a muitos outros num país em que, ao mesmo tempo, preserva algumas instituições do passado - o legado esclavagista é um deles – e também um país que muda muito rapidamente. Nessas áreas em conflito, de onde a Rita saiu e em que se reflete a história daqueles que não puderam permanecer no campo e foram para a cidade, ao dar-se um retorno o que se vai descobrir é que o lugar onde se nasceu já não existe. Tudo foi transformado numa plantação em que a produção é exportada e não serve para a alimentação das pessoas. Rita Preta vai confrontar-se com essas alterações e entenderá que todas as referências e todos os resquícios de que precisamos para reconhecer o lugar onde nascemos, onde fomos batizados se cristãos, o lugar onde estudámos, foram histórias apagadas entretanto. E ela precisa de lidar com esse apagamento da própria memória e entender que só existe o que está dentro de nós, as lembranças que carregamos.”

CORAÇÃO SEM MEDO

Itamar Vieira Junior

D.Quixote

349 páginas

Outras novidades literárias

FIM DO IMPÉRIO

O autor desta investigação é historiador interessado no tema Macau, sobre o qual já publicou várias obras esclarecedoras sobre a história do enclave. Desta vez, percorre o mandato de Vasco Rocha Vieira como governador de Macau (1991 a 1999) através de entrevistas realizadas com o protagonista, bem como por via da consulta da documentação pessoal, oferecendo desta forma um retrato em primeira voz com o responsável por devolver o território português à República Popular da China. Enquanto uma cápsula do tempo aguarda pela passagem de cinco décadas para disponibilizar muita da documentação sobre a transição de Macau, esse volume já permite uma intromissão através de uma das partes envolvidas e o conhecimento do que ela pensou sobre todo um processo político que fechou o último capítulo do império colonial português.   

MACAU – A ÚLTIMA TRANSIÇÃO

Alfredo Gomes Dias

Guerra & Paz

517 páginas

VIDA E MORTE

Após um primeiro título, A Morte Contada por um Sapiens a um Neandertal, chega agora A Vida Contada pelos mesmos, ou seja, um diálogo entre Juan José Millás e Juan Luis Arsuaga sobre a evolução do Homem ao longo dos tempos. O primeiro é escritor e tem a curiosidade própria sobre o que levou estes nossos dois antepassados e passar de uma “tribo” para a outra. O segundo é antropólogo e um dos académicos que melhor explica o que fez estes seres atingirem estágios diferentes. 

A CONSCIÊNCIA CONTADA POR UM SAPIENS A UM NEANDERTAL

Juan José Millás e Juan Luis Arsuaga

Presença

180 páginas

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt