O recente livro de Ian Leslie sobre os Beatles, John & Paul – Uma história de amor feita de canções, tem no título apenas o nome de dois dos membros da banda, mas os restantes oito não foram esquecidos. Nos capítulos iniciais, Leslie conta como da formação inicial pré-histórica de 1958 irão passar pela de 1960 e chegar à formação definitivamente histórica de 1963: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Nesse percurso orbitam outras épocas pré-Beatles em formações como a dos The Quarrymen ou dos Johnny and the Moondogs alguns elementos que rapidamente desaparecem: o baixista Stuart Sutcliffe, o guitarrista e cantor Tony Sheridan e os bateristas Tommy Moore e Pete Best. George Harrison também aparece cedo no quarteto que ficará para a história, apesar de ter apenas 15 anos; o baterista Ringo Starr só entrará depois da gravação do primeiro single de sucesso. Ainda faltam dois beatles: o empresário Brian Epstein, conhecido como o Quinto Beatle, e o produtor George Martin.Da investigação de Ian Leslie resulta um manancial de informações sobre a banda britânica como raramente se leu na história da música pop. Não será por acaso que Leslie retrata os Beatles principalmente através da dupla de compositores e vocalistas de uma forma muito rara para uma banda razoavelmente coesa. Não sendo o primeiro livro de Ian Leslie, tendo publicado já Born Liars, Curios e Conflicted, respectivamente ensaios sobre a convivência com a decepção, a importância da curiosidade e a longevidade das relações. Além destes livros é autor regular na imprensa inglesa como na revista The Economist e em jornais como Financial Times e The Guardian. Neste último foi publicada em março de 2025 uma entrevista de Anthony Quinn em que este disseca num “relato brilhante a relação entre Lennon e McCartney, desafiando mitos, encontrando novos significados nas suas composições e revelando algumas surpresas”. Diga-se que é bem verdade no caso de “novos significados nas suas composições” a sensação de impacto sobre o leitor, que é obrigado a ter um qualquer aparelho à mão que lhe permita (re)ouvir as canções que Ian Leslie vai desmontando, bem os truques e a genialidade de Lennon e de McCartney para as compor.Essa é uma situação que na entrevista de Ian Leslie concedida ao The Guardian está bem reafirmada por Quinn: “É uma experiência estranha e fascinante quando se descobre que músicas que estão na nossa cabeça desde a infância ainda revelem detalhes novos e inesperados meio século depois.” Para o autor, as canções dos Beatles não seguem os princípios da indústria pop porque em vez de perderem como seria de esperar qualidade adquirem uma cor sempre nova, daí que diga: “Uma música que pensávamos conhecer bem, de repente soa melhor do que nas primeiras 100 vezes que a tínhamos ouvido antes”. Isto pode parecer paradoxal ou até frases feitas para promover o livro por Ian Leslie, no entanto o leitor que fizer esta experiência vai confirmar que é verdade. Uma sugestão: as canções Please Please ou She Loves You do início; a Hey Jude ou Get Back mais para o fim da banda.A estrutura do livro John & Paul divide-se em 43 capítulos, cada um deles com o nome de uma canção da banda. As histórias que vão perpassando por estas quase 500 páginas não são todas inéditas, mas o facto de o autor dominar um registo literário e memorialista que consegue transformar casos isolados numa história única e com nexo é fundamental para o leitor ser incapaz de interromper a leitura. Não é a primeira vez que alguém se intromete na beatlemania para explicar o sucesso da banda e relatar todas as partes de que foi feita. Essa busca pelo livro perfeito que os retrate tem-se mantido desde o estourar inicial dos Beatles, vários enquanto existiam e muitos após Paul McCartney ter colocado a lápide sobre a campa da banda ao introduzir um questionário no seu primeiro álbum a solo, McCartney, em que dizia de forma muito clara que a parceria Lennon-McCartney jamais voltaria a compor novas canções, tanto que a 10/04/1970 o jornal Daily Mirror fez a sua manchete com “Paul abandona os Beatles”.Leslie faz a leitura deste rompimento e diz: “John foi completamente apanhado de surpresa pelas perguntas e respostas de Paul, e ficou furioso. Se havia alguém que podia pôr fim aos Beatles, tinha de ser ele próprio!” Aliás, já não seria a primeira vez que Paul surpreendia John, como quando compôs Yesterday e a cantou como um beatle a solo, como relata Leslie: “Grava-a em dois takes” e, acrescenta, “tanto John como Paul terão percebido que McCartney funcionava a um novo nível. Yesterday pôs fim à sequência de singles da autoria de Lennon e contribuiu para a mudança interna no equilíbrio de poder do grupo”. Uma página à frente e Leslie faz a explicação sobre esta balada, que, “quanto mais se a analisa mais bizarra a canção se torna porque baseia-se numa interação entre melodia e acordes que remontam a centenas de anos." A história de Yesterday oferece a página onde Portugal entra neste livro (p.145), as férias de Paul e da namorada Jane Asher em Albufeira em fins de maio de 1965. Paul regressará ao Algarve em 1968 e estará vários dias na Praia da Luz, Lagos e Monchique, desta vez com Linda. Na segunda localidade, Linda tira-lhe uma fotografia em frente a uma traineira chamada Paulo e numa das imagens reproduzidas no encarte de McCartney veem-se apenas as letras que formam o nome Paul - na terceira localidade andou de burro. . Ian Leslie considera que é em 1967 o momento em que "John e Paul estão mais sincronizados, em que as suas vozes se completam e até sonham os mesmos sonhos. No entanto, as diferentes personalidades foram-se impondo, em parte pela influência das drogas e pela dependência de John por Paul: só quando está a trabalhar com Paul é que se sente um génio”. Um bom exemplo foi o single repleto de rivalidade com as canções Penny Lane e Strawberry Fields Forever escritas por cada um deles. Afinal, era uma dupla de adolescentes que se encontraram pela primeira vez no verão de 1957 numa festa em Woolton e ambos tinham vivenciado a tragédia da morte da mãe recentemente e, justifica Leslie, era através da “música que poderiam dizer o que sentiam sem o dizerem de forma expressa”.O autor justifica o subtítulo de John & Paul por considerar a amizade dos dois beatles como uma verdadeira história de amor e recupera o que John dissera a brincar a Paul nas sessões Get Back: "É como se fossemos amantes". A dissolução da banda não demorou a dar-se após essas gravações, daí que Ian Leslie considere que o momento de publicação do seu livro é o correto pois a visão que agora se tem da banda não existia antes da sua separação, nem do assassinato de John Lennon, e depois destes cinquenta e alguns anos existe a possibilidade e o distanciamento para se compreender o que foram os Beatles e o que conquistaram para a sua geração”.Na verdade, a investigação e a escrita de Ian Leslie transformaram John & Paul – Uma história de amor feita de canções num verdadeiro testemunho sobre os Beatles e o qual foi o impacto das suas canções. Além de que se lê como um romance e recomenda-se até a quem iria gostar dos Led Zeppelin. . JOHN & PAUL – UMA HISTÓRIA DE AMOR FEITA DE CANÇÕESIan LeslieZigurateSara Veiga (tradução)479 páginas O regresso à peste por Gonçalo M. Tavares Entre os livros que despertaram a atenção dos leitores na reta final de 2025 está a epopeia de Gonçalo M. Tavares, O Fim dos Estados Unidos da América. E não é um livro qualquer, pois fisicamente ultrapassa as 900 páginas, sobre o qual o editor Carlos Vasconcelos não se quer comprometer em definir se é prosa ou poesia, um trabalho que o escritor tem guardado desde 2020, que foi considerado pelo júri do Público como o melhor livro de ficção e o do Expresso pô-lo em segundo lugar… O leitor que estava atento, curioso e foi assistir à apresentação de O Fim na Fnac-Barata da Avenida de Roma, encheu os lugares do auditório como o autor não esperava: “Estou surpreendido e sou sincero porque já fiz várias apresentações deste livro e é muito simpático estar aqui tanta gente”. Feito o aquecimento, o escritor não mais pára de se confrontar com esta Epopeia, questionando-se sobre todas as suas facetas: “Parece um livro do outro século, para cada um ler este calhamaço à sua própria velocidade e ao ritmo que imprime a cada um.” De imediato, Tavares coloca fronteiras a quem queira dar um tempo errado a O Fim: “Uma Viagem à Índia é de 2010, este foi escrito em 2019 e em 2020 estava pronto naquilo a que chamo de matéria-bruta”.. A influência do Covid-19 e o relato da pandemia que o autor foi publicando no Expresso entre março e junho desse ano, textos reunidos no livro O Diário da Peste – Ano 2020, devem ser separados deste novo livro: “Estava a escrever um livro sobre uma peste que entra nos Estados Unidos e é um vírus disciplinado que fica apenas lá e não ultrapassa as fronteiras. No primeiro capítulo está o futebol americano, o meu personagem Bloom de outros livros que vai assistir a jogos e cruza-se com uma mulher que está a vender pipocas, a La Rosa, uma jovem mexicana pobre. Todos os personagens são varridos por uma ironia benigna. Será um livro que tem algum divertimento e também uma segunda camada. Aliás, no início escrevo nem prosa nem poesia, bem pelo contrário, e esta epopeia feita com essa linguagem hesitante e suspensa entre os dois géneros e num tom satírico faz com que ninguém esteja a salvo de alguma caricatura, seja politicamente de direita ou de esquerda, nem sequer o narrador se livra de críticas.”Gonçalo M. Tavares faz questão de referir o cruzamento entre Bloom e mundo clássico grego: “Há personagens que vêm das tragédias gregas, há muito Édipo, há muito sobre a questão da impossibilidade de fugirmos ao destino. Também brinco com a ideia de que os gregos são os do mundo da reflexão e os americanos são os do mundo da ação. Claro que isto é uma também caricatura, até porque não pretendia fazer um ataque aos Estados Unidos – esta ressalva é importante porque este é um livro de 900 páginas e as pessoas leem o título e já têm a sua conclusão feita de imediato. É preciso ver que os Estados Unidos são diferentes, por exemplo, em termos de uma potência da natureza que não existe na Europa. Quanto à política atual, não quero falar muito, mas é evidente que este Trump é um tipo absolutamente abjeto. Nesse campo, este livro é de pura ficção.”De súbito, o escritor avança para várias leituras de capítulos de O Fim dos Estados Unidos da América. Já se notara que estava desejoso de o fazer, de mostrar aos leitores o que o texto tem para dizer: “Se alguém tiver o livro, se quiser seguir-me, vamos para página 43…” Mais para a frente lerá páginas em que a sonoridade das palavras é muito importante: “É como se o som também fosse contando uma história; o que senti aqui é que o som da língua portuguesa tem um pensamento também…” . O FIM OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICAGonçalo M. TavaresRelógio D’Água912 páginas