Foi em 2002 que Desmond J. Green decidiu vir viver para o Estoril. O engenheiro químico afastou-se na altura da empresa que criara, de gestão de resíduos perigosos, e começou à procura de casa. Com um filho ainda pequeno na altura, a Saint Dominic’s International School foi determinante para optar por Portugal. Já conhecia o Algarve, onde passara frequentemente férias com a mãe, mas nunca tinha vindo até à Grande Lisboa. Veio, instalou-se, criou um filho “lusófilo convicto” e foi na sua vivenda com vista para o mar que instalou não só a família, mas também a sua coleção de James Joyce. Livros, manuscritos, correspondência, fotografias, cartas, são muitos os objetos ligados ao escritor irlandês que Desmond foi juntando ao longo dos anos. E agora, em vésperas do Bloomsday - comemorado a 16 de junho, é o dia instituído na Irlanda para homenagear o personagem Leopold Bloom, protagonista do romance Ulisses - o DN foi conversar com Desmond e espreitar alguns dos objetos da sua coleção que não foram emprestados ao Museu da Literatura da Irlanda, como a maior parte. Mas como é que tudo começou? “Acho que foi uma espécie de acidente em alguns aspetos, e depois um interesse, e continuei a desenvolver esse interesse. E acabei por ter uma coleção bastante significativa, mas não sabia que a tinha, porque colecionava um pouco aqui e um pouco ali mas nunca tinha visto todas as peças juntas em nenhum momento”. Empenhado em partilhar a sua paixão pelo autor de Ulisses, mas também de outras grandes obras, desde Retrato do Artista quando Jovem, Gente de Dublin ou Finnegans Wake, Desmond decidiu emprestar a sua coleção ao Centro Ulisses, mais tarde rebatizado Museu da Literatura da Irlanda. Porque afinal “é muito bom ter uma coleção, mas tê-la numa caixa e ninguém a poder ver, nem nós próprios, é bastante inútil. É muito mais agradável se alguém puder desfrutar dela.”Além da possibilidade de ver a coleção no museu, os fãs de um dos maiores escritores irlandeses (apesar de não ter ganhado o Nobel da Literatura) têm agora oportunidade de apreciar as peças e a sua respetiva história no livro James Joyce: a Life in Books, de Luca Crispi, professor de Literatura na University College Dublin. “Quando temos uma coleção, cada objeto pode ser lido como um conto, mas todos eles têm uma ligação”, explica Desmond, sentado na varanda da sua vivenda, diante de um café que ele próprio preparou. .De capa verde, onde além do título se destaca o subtítulo “The Desmond J. Green Collection”, o livro exibe mais de 150 fotografias das peças. Mas não só - é uma verdadeira caixa de tesouros. “Nesta edição especial, temos uma caixa secreta e aqui dentro tenho fac-símiles de peças da coleção. Tentámos fazer os fac-símiles tão bons que as pessoas possam sentir-se tentadas a vendê-los como se fossem autênticos [risos]. Por isso, coloquei-lhes uma marca de água”, explica enquanto os mostra.E até a contracapa esconde segredos, neste caso a reprodução das primeiras e das últimas palavras de Finnegans Wake. Nas palavras do colecionador: “Uma verdadeira obra de arte sobre um obra de arte”. De volta ao interior da vivenda depois de terminado o café, e com algumas das suas peças preferidas espalhadas pela mesa da sala de jantar, Desmond vai explicando: “O que estamos a fazer é publicar 425 exemplares numa edição especial. E a razão pela qual são 425 é que esse foi o número de exemplares de Finnegans Wake publicados na sua primeira edição. Por isso, estou a igualar esse número. Faço coisas assim”, conta. Antes de acrescentar: “A outra coisa é que, se olharem para esta carta que escrevi, escrevi-a em Lisboa no dia 29 de março, que é o aniversário da minha mãe.”Duplos sentidos, um pouco ao estilo de Joyce, questionamos? “Sim, sem dúvida. Sabe, vão ser publicados apenas 29 exemplares destas caixas. E a razão para isso é que o meu aniversário é a 29 de maio. O aniversário do meu irmão é a 29 de dezembro. O do meu pai era a 29 de junho e o da minha mãe era a 29 de março.”Uma obra em paralelo com a Odisseia de HomeroNascido a 2 de fevereiro de 1882 em Dublin, James Joyce viveu boa parte da sua vida expatriado - Trieste, Roma, Zurique, Paris foram apenas algumas das cidades onde viveu com a mulher, Nora. Foi na capital francesa que em 1922 foi pela primeira vez publicado Ulisses, tendo na altura sido proibido no Reino Unido e nos EUA por ser considerado obsceno. Considerada como uma das obras mais influentes romances da literatura modernista, a história passa-se toda ela no espaço de um dia, 16 de junho de 1904, e estabelece uma série de paralelos com a Odisseia de Homero. Leopold Bloom é uma espécie de Ulisses, Molly Bloom é Penélope e Stephen Dedalus (alter-ego de Joyce e protagonista do seu primeiro romance, Retrato do Artista quando Jovem) surge como Telémaco do século XX. .Desdobrando sobre a mesa, delicadamente, um longo pedaço de papel finíssimo, Desmond J. Green explica: “Este é o esquema dos episódios de Ulisses. Estes são todos os episódios da Odisseia de Homero e estes são os equivalentes em Ulisses. Esta é a hora do dia em que se passa cada um. Este é o órgão do corpo a que se refere nesse capítulo. Esta é a forma de arte a que se refere nesse capítulo. Esta é a cor a que se refere nesse capítulo. E este é o símbolo que se encontra nesse capítulo. E estes são os pormenores técnicos. É uma narrativa, é uma coisa literária, é um catecismo, monólogo, narrativa e tudo isso. E estas são as correspondências que tem com a Odisseia. Existem apenas sete destes esquemas que foram criados por Joyce. Por isso, é um pedaço muito interessante da história sobre o Ulisses.”Em cima da mesa, temos ainda uma velha edição de Retrato do Artista quando Jovem. “Foi o primeiro livro que li de James Joyce”, conta Desmond e também “a primeira peça que colecionei. É uma edição Penguin de 1958”. Outro livro que cedo integrou a sua coleção foi Finnegans Wake. “Sei quando o comprei porque o meu nome está escrito junto à data -1961”, recorda agora, lembrando que depois disso “não colecionei mais nada durante talvez cinco anos”.Mas as peças acabaram por se ir juntando às primeiras a ritmo lento até que “quando fiquei um pouco mais rico, e pude pagar um pouco mais, comecei a comprar mais e depois ainda mais. Por isso é uma espécie de curva ascendente.”Entre os seus tesouros está mesmo uma primeira edição de Ulisses, encadernada a azul. .Nas estantes, espreitam mais livros de Joyce, o autor que morreu aos 58 anos em Zurique, para onde regressou após a invasão nazi de França. Mas também livros que ajudam a compreender a obra do autor de Ulisses e até uma biografia de Nora, a mulher de Joyce, que inspirou a sua personagem Molly Bloom. Apesar de não ter sido agraciado com o Nobel, ao contrário dos seus conterrâneos George Bernard Shaw, William Butler Yeats, Samuel Beckett e Seamus Heaney, James Joyce tornou-se numa espécie de instituição irlandesa. Com direito até a ter um feriado dedicado a um dos seus livros. No Bloomsday é tradição na Irlanda vestir-se como as personagens de Ulisses e não faltam um pouco por todo o país eventos alusivos à obra, como leituras, performances ou encenações. E para um irlandês, é imprescindível ler e estudar Joyce na escola? “Não sei se é obrigatório. Mas devia ser. Veja bem, o problema é que, na Irlanda, temos tantos bons escritores e poetas. É difícil escolher. É muito difícil incluí-los a todos. Temos Yeats, que é um poeta magnífico. Temos Beckett. Temos Seamus Heaney, que é um dos meus favoritos”, enumera Desmond. O antigo engenheiro químico na reforma garante estar convencido que “é muito importante que as crianças tenham de estudar os escritores do seu próprio país. Porque eles escrevem sobre a alma do seu próprio país de uma forma que é diferente, que um estranho não consegue fazer. E acho que é muito importante que os jovens captem a alma do seu próprio país. Porque eles têm isso como um valor central e uma plataforma.”E curiosamente, se a Irlanda tem um feriado dedicado a um livro, Portugal até celebra um poeta, Camões, no seu Dia Nacional..Manuel S. Fonseca: “Imagino António Lobo Antunes ao lado de Marcel Proust, James Joyce ou Jorge Luis Borges”