Daniel Cardoso foi convidado para coreografar para a CNB.
Daniel Cardoso foi convidado para coreografar para a CNB. Foto: Gerardo Santos

Daniel Cardoso e o livro “perfeito” para a dança contemporânea

Coreógrafo assina o bailado 'Elsewhere Within Stillness' no espetáculo 'Desassossego' da Companhia Nacional de Bailado, que inclui também uma peça de Marcelino Sambé. Em cena até domingo no Teatro Camões, o desafio foi criar movimento inspirado na obra de Fernando Pessoa.
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Elsewhere Within Stillness partiu do Livro do Desassossego e é a coreografia que abre o espetáculo Desassossego da Companhia Nacional de Bailado (CNB), composto por duas peças. A outra é de Marcelino Sambé (Eles, invertidos) e ambos os bailarinos e coreógrafos foram convidados pelo diretor artístico da CNB, Fernando Duarte, a criarem uma peça com base no livro assinado por Bernardo Soares, “semi-heterónimo” de Fernando Pessoa. Daniel Cardoso e Marcelino Sambé ainda ponderaram criar uma ligação entre as duas coreografias, mas a solução final foram duas peças independentes. “Temos estéticas, percursos e linguagens muito diferentes. E acabamos por ter um programa mais rico para o público”, diz Daniel Cardoso ao DN.

O coreógrafo diz que não conhecia a fundo o livro de Pessoa, mas que foi “surpreendido pela positiva”. “O livro, na forma como está construído e desconstruído, não tem um fio condutor. É feito de tantas ideias, sentimentos e sensações que acaba por ser perfeito para a dança contemporânea”. Elsewhere Within Stillness é, pois, um bailado abstrato, mas em que “é possível termos sensações e sentimentos que o livro também nos dá”, diz o coreógrafo.

A peça foi construída em torno das figuras de Fernando Pessoa e Bernardo Soares. “Trabalhei a ideia de uma pessoa cuja cabeça se multiplica em inúmeras outras, uma multiplicidade que é representada simbolicamente pelos chapéus em cena”.

Coreógrafo trabalhou com 12 bailarinos da Companhia Nacional de Bailado.
Coreógrafo trabalhou com 12 bailarinos da Companhia Nacional de Bailado. Foto: Hugo David

Da sua leitura da obra, Daniel Cardoso retirou que “as ideias vêm de um sítio que não o exterior, vêm de dentro. O livro acabou por me recordar isso. Parece-me uma temática muito atual: esta tendência para procurarmos constantemente respostas no exterior, sem pararmos para escutar o que vem de dentro, para deixar que a criatividade surja do nosso próprio interior”. E também a perspetiva de que “a arte e aquilo que nós criamos é muito mais valioso do que a vida real. Isso tem a ver com o que se passou comigo no último ano. Porque a vida real foi muito, muito dura e continua a ser um bocadinho”, diz Daniel Cardoso.

O coreógrafo explica que sofreu um acidente de mota há cerca de um ano e ainda está em recuperação. Para fazer este bailado, socorreu-se de um assistente, porque os seus movimentos estão limitados. "Este processo foi diferente dos outros, porque eu não estou fisicamente como estava há um ano, por causa do acidente que tive. Então foi um desafio gigantesco. Tive de ter alguém que me veio apoiar nessa parte, de poder passar o que eu queria fazer aos bailarinos.”

'Elsewhere Within Stillness', coreografia de Daniel Cardoso.
'Elsewhere Within Stillness', coreografia de Daniel Cardoso. Foto: Hugo David

A cenografia (Hugo F. Matos), o desenho de luz (Ricardo Campos) e os figurinos (Luísa Pacheco) vão de encontro a este mundo interior, criando uma atmosfera etérea no palco, com os bailarinos a parecerem mais espetros do que figuras de carne e osso.

Os figurinos, com saia a casaca, são iguais para bailarinos e bailarinas. "A minha ideia foi que eles fossem pessoas, que não fossem homens ou mulheres, inspirado na ideia da sexualidade de Fernando Pessoa ser dúbia. Não se sabe muito bem qual é a sexualidade dele, se heterossexual ou homossexual. Achei interessante jogar com isso".

O processo criativo de Daniel Cardoso começa com a escolha da música, e em relação a este bailado, diz que foi das escolhas mais difíceis que já teve de fazer. “Acho que foi a única peça que eu fiz até hoje, em que troquei de música durante o processo. Eu quando escolho uma coisa, fica”.

A música é o ponto de partida para a criação do movimento na presença dos bailarinos, que neste caso foram 12. “O movimento que eu crio é sempre em tempo real e a música acaba por ser o meu maior apoio. Não venho com o material preparado para o estúdio”.

Muito importante para o coreógrafo, mesmo durante a fase de criação, é a iluminação, que em Elsewhere Within Stillness é central, criando o ambiente onírico que caracteriza a peça. “A iluminação é importantíssima em todos os espetáculos que faço. Quando estou a coreografar, já estou a pensar na luz, sempre”.

'Elsewhere Within Stillness', coreografia de Daniel Cardoso.
'Elsewhere Within Stillness', coreografia de Daniel Cardoso. Foto: Hugo David

Fundador da Quorum Dance Company

Daniel Cardoso formou-se no Conservatório de Dança de Lisboa e depois seguiu para Nova Iorque para estudar na Martha Graham School of Contemporary Dance, companhia da qual foi bailarino. "Há uma particularidade no meu percurso: quando acabei o conservatório, convidaram-me para vir aqui para a CNB. A minha turma toda na altura, todos eles integraram a companhia", lembra o bailarino, que tinha outro objetivo.

"Eu queria ir para a Martha Graham Dance Company, em Nova Iorque. Era um sonho que eu tinha desde miúdo. Era naquela companhia que eu queria dançar. Não era uma qualquer, era aquela. Então, segui esse sonho e consegui atingi-lo. Trabalhei lá há muitos anos, e depois trabalhei com muitas outras companhias em Nova Iorque".

Após uma carreira internacional, que passou por países como a Dinamarca e o Brasil, voltou a Portugal. Regressou em julho de 2005 a pensar no Ballet Gulbenkian, mas nesse mesmo mês a companhia da Gulbenkian foi extinta após quatro décadas de atividade. Acabou por fundar a Quorum Ballet, que hoje se chama Quorum Dance Company, integrando alguns bailarinos do Ballet Gulbenkian.

A Quorum tem a sua sede nos Recreios da Amadora e tem tido o apoio da autarquia. A Câmara Municipal da Amadora está agora a investir num novo espaço para a companhia. “A Câmara tem-nos apoiado ao longo dos anos. E agora chegámos a um culminar da nossa colaboração: estão a construir-nos um espaço de raiz. Estão a renovar o Mercado da Damaia e dentro do mercado vão construir um edifício de raiz para a companhia”, revela Daniel Cardoso. O edifício ficará próximo do Cineteatro D. João V, uma das salas onde a companhia costuma apresentar os espetáculos, e terá três grandes estúdios. "Um dos estúdios está aberto para a rua, quase como um anfiteatro virado para o exterior. É um espaço mesmo muito bom."

Mas o apoio financeiro da câmara da Amadora cobre apenas uma parte dos custos da companhia, que depende da sua atividade dentro e fora do país. "Nós fazemos muita digressão internacional. Chegámos a mais de 20 países ao longo dos anos. Já fizemos muitos espetáculos ao longo de 20 anos. Trabalhamos muito a nível de circulação nacional, com novas criações todos os anos. Fazemos duas a três criações por ano".

Para marcar as duas décadas da companhia, a Quorum Dance Company produziu um filme, Quorum - 20 Anos em Movimento, que passou na RTP 2 a 8 de setembro e está disponível na RTP Play.

Ao longo das duas últimas décadas, Daniel Cardoso já criou mais de quarenta coreografias para a Quorum Dance Company e outras companhias, escolas e festivais internacionais. É a primeira vez que trabalha com a Companhia Nacional de Bailado.

“Acabou por ser o fechar de um ciclo. Há tantos anos que estou a trabalhar como coreógrafo, em Portugal e lá fora também, e ter este convite para criar uma peça de raiz aqui foi uma honra enorme.”

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