Thumbnail, de Jaione Camborda
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Da Galiza chega cinema com amor e muito Minho

Entre a Galiza e o Minho uma ficção sobre uma mulher e a sua autonomia corporal. O filme chama-se O Corno do Centeio e é o cartão de visita de Jaione Camborda, grande vencedora da Concha de Ouro de San Sebastián. A cineasta contou ao DN como foi trabalhar em regime de coproduçãogalaico-minhota.
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Da Galiza ao Minho vai um pulinho. A rima vale o que vale mas a chegada de O Corno do Centeio, de Jaione Camborda aos cinemas é mais do que um pulo pequeno, é um passo maior para aproximar o cinema português ao espanhol, neste caso, ao galego. Um eixo galaico-minhoto que se constrói numa coprodução que venceu o Festival de San Sebastián e que aborda um caso de uma mulher a resistir entre dois países que impõem uma ditadura do corpo feminino, a Espanha franquista e Portugal do Estado Novo.

Numa rua pitoresca de Santiago de Compostela, a cineasta e produtora Jaione Camborda, recebe-nos no seu escritório num dia gelado de janeiro. No pequeno escritório da Esnatu Zinema há cartazes de O Corno do Centeio e o prémio que dá fama ao filme, a Concha de Ouro de San Sebástian. Jaione está sozinha no escritório um pouco a fechar todo este processo, sobretudo depois da estreia bem sucedida em Espanha – tornou-se no maior sucesso galego nas bilheteiras espanholas, logo a seguir a O Que Arde, de Oliver Laxe. É uma mulher feliz numa altura em que tudo lhe acontece: maternidade recente, o prémio em San Sebastián e agora as estreias em França e Portugal.

Aborto com o fungo do centeio

A história, rodada entre a Galiza e o Minho leva-nos até 1971 e começa junto à fronteira, do lado espanhol. Trata-se da jornada pessoal de uma mulher madura livre que é obrigada a fugir e a reinventar-se entre dois países mergulhados na negritude das ditaduras. Após um aborto feito a uma adolescente com o fungo do centeio (apelidado de “corno”), esta mulher parteira é procurada pelas autoridades e decide fugir para Portugal, mesmo percebendo que está grávida. Trata-se um filme de emoções fortes, cheio de respirações e silêncios, um retrato feminino muito seco sobre a autoridade de um corpo. Na sessão de gala no festival provocou desmaios: as cenas dos partos naturais impõem um certo abalo. A realizadora fala que a sequência inicial, de duração prolongada, tenta ser “imersiva e capaz de provocar uma respiração e um transe ao espectador”. Dir-se-ia que é o pêndulo do real deste conto que incorpora uma relação com a terra, com as noções de província e campo num espectro do tema da maternidade e do lugar da mulher no território. “Pessoalmente, foi especial para mim. Entre a pré-produção, rodagem e pós-produção fiquei grávida e voltei a ser mãe”, lembra e adianta: “foi importante trabalhar muito o conceito das distâncias, sobretudo no conceito de eliminar essa distância entre a natureza e esta mulher – ela é a natureza. Quis que todas as personagens fossem muito ligadas à terra. O meu trabalho estético convocou esse vínculo. E quis também que não estivéssemos a ver um chamado filme de época, aquilo é noutro tempo mas quis que o espectador se esquecesse disso. Creio que nesta Galiza rural ainda conseguimos encontrar estes espaços, espaços esses que formam parte de um passado que reverbera”. Convém talvez referir que Jaione está há 14 anos na Galiza mas é basca, nasceu em San Sebastián e tem um pai chileno e uma mãe catalã. Vencer o festival que a ensinou a ser cineasta foi mais do que especial, foi algo que nunca esperou – para si estar na seleção oficial já era uma vitória.

Algo selvagem...

Voltando ao filme, vinca que a questão do corpo era questão fundamental: “além do apelo à terra, esta é uma personagem que lembra um animal mamífero. Quis trabalhar muito a fisicalidade e toda a corporalidade”, realça Jaione. “Something wild”, selvagem, dizemos nós, perfeito para adornar todo o mistério feminino da proposta. “Nesse aspeto, é um filme muito de mulher com uma perspetiva feminina infinita”, continua. Afirma igualmente que o contributo de Rodrigo Areias como coprodutor foi muito importante. Chega mesmo a chamá-lo “companheiro de luta”: “esta foi uma coprodução natural: Galiza e o Minho são um território muito unido. O norte de Portugal e os galegos têm muito em comum. Temos de fazer mais cinema em conjunto! Os portugueses estão a fazer um cinema de autor muito forte e com muita valentia. Há é que unir forças, isso culturalmente faz todo o sentido. E eu tive muita sorte em ter o Rui Poças como diretor de fotografia”.

Rodrigo Areias quer mais coproduções
De Guimarães, onde dirige a Bando à Parte, o produtor e realizador Rodrigo Areias, está alinhado na mesma sintonia: “a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián abre algumas portas ao futuro no que toca a estas coproduções entre Portugal e Galiza e, nesse aspeto, o apoio da RTP tem sido fundamental. A Associação dos Produtores do Norte, a APNEIA, tem intenções de reforçar esta linha de produção. Neste momento já existem uma série de produções à procura de financiamento. A relação entre o norte de Portugal e a Galiza é real. A intenção agora é que seja ainda maior. Tenho o projeto de uma série de televisão chamada O Xerês, passada em dois tempos, entre os tempos salazarentos e franquistas e a atualidade, contando com uma série de tradições etno-culturais relacionadas com o território. Na verdade, a nossa proximidade cultural e histórica é fortíssima. O realizador é o Carlos Amaral”. Outros dos projetos desta casa de produção vimaranense estão já em produção: Ariel, de Lois Patiño e Ontem à Noite Conquistei Tebas, de Gabriel Azorin. As coisas mexem-se: o primeiro foi filmado nos Açores e o segundo está a ser rodado no Gerês e é falado numa parte em português e outra em Latim. Caso para dizer, está a haver um caso de amor com o cinema galego e português.

Encontro em Santiago

Mais no centro de Santiago, a realizadora encontra-se com o cineasta galego Álvaro Gago, autor de Matria, filme também feminino passado em Pontevedra. Ambos estão algo desconcertados com as poucas nomeações que estes dois aclamados filmes galegos tiveram nos Goya, a Academia de Cinema espanhol. Apesar de terem ambas protagonistas nomeadas para melhor interpretação portuguesa, esperavam-se mais nomeações. Dizem-nos que por um lado é natural a Academia espanhola ignorar cinema vindo desta região e lembram que só há 40 membros galegos numa Academia de milhares... A indústria espanhola ainda está muito centralizada no meio catalão e madrileno, isto num ano em que dois filmes dominam todas as nomeações: A Sociedade da Neve, de J.A. Bayona, produção milionária da Netflix e Fechar os Olhos, de Victor Erice.

Para Jaione, o importante é celebrar esta nova vaga de um novo olhar feminino do cinema espanhol. Além dela, despontaram recentemente Carla Simón, catalã autora de Alcarrás, filme que venceu a Berlinale; Alauda Ruiz de Azúa, realizadora revelação nos Goya e responsável por esse espantoso Cinco Lobitos, descoberto em Portugal pelo Fest, de Espinho; e Estibaliz Urresola Solaguren, a realizadora de 20.000 Espécies de Abelhas, outro dos filmes premiados em Berlim. “Estamos a ter um novo olhar, sim. O cinema espanhol precisava de um olhar das mulheres, sobretudo mais jovens. Julgo que viemos enriquecer o cinema espanhol – essa pluralidade é uma riqueza, antes havia sobretudo a perspetiva masculina. Trata-se de uma situação boa para todos. Estes filmes são como que um olhar nosso ao espelho. E sinto que estamos a procurar esse olhar de forma inocente e sem pressões de indústria. ”.

A vaga galega

Depois de O Corno do Centeio, de Jaione Camborda, o cinema galego regressa em maio com o drama Matria, de Álvaro Gago, outra história no feminino sobre a luta pela dignidade e sobrevivência de uma mulher galega com uma força matriarcal transcendente. Momento de vitalidade de uma região que tem tido um novo sopro e que vive de um apoio regional forte para as suas produções.

Dois filmes supostamente galegos tiveram recentemente um eco imenso. O ano passado estreou-se em Portugal As Bestas, sucesso de Cannes do não galego Rodrigo Sorogoyen (de origem madrilena), e em 2020 chegava O Que Arde, do franco-espanhol Óliver Laxe. Filmes que assentam as suas premissas no desbravar do espírito de uma terra campestre e com conceitos etnográficos fortes. No caso de O Que Arde abordavam-se de forma poético-naturalista questões fundamentais como tradição e o flagelo dos incêndios.

Seja como for, outro dos grandes filmes galegos é Segundas ao Sol, de Fernando Léon de Aranoa, retrato do começo do século com Luís Tosar e Javier Bardem, cinema de ativismo social que se converteu num caso popular. O desemprego e a precariedade galega captados com o coração nas mãos.

No que toca à ficção televisiva, a Galiza deu-nos recentemente duas séries coproduzidas com Portugal, Operação Maré Negra, onde em duas temporadas brilharam talentos como Lúcia Moniz e Soraia Chaves e Auga Seca, na qual Leonel Vieira foi um dos nomes envolvidos.

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