Culturgest vai festejar os seus 25 anos a dançar

A nova temporada da Culturgest arranca hoje com um concerto de Tim Hecker. Mark Deputter explica com que linhas coseu esta programa

Mark Deputter conhece bem a Culturgest desde que se mudou para Lisboa, em 1995. "Eu devo ser um dos espectadores mais assíduos desta casa, vi quase tudo", conta o programador belga, de 57 anos, que dirigiu o festival Danças na Cidade e o Alkantara e esteve depois à frente do Teatro Municipal Maria Matos. Há cerca de um ano, passou de espectador a diretor artístico da Culturgest. Uma mudança feita com estrondo. Primeiro, porque na primeira entrevista que deu falou da necessidade de chegar a um público mais alargado e foi logo acusado de estar ceder ao mainstream. Depois, porque logo a seguir a Câmara de Lisboa anunciou que ia aproveitar para privatizar a gestão do Maria Matos.

Entretanto, lá dentro, a nova equipa da Culturgest já estava a trabalhar: "A instituição já existia e nós somos como principiantes porque temos de aprender como é que a instituição funciona, conhecer as pessoas e depois, devagarinho, começar a fazer o nosso trabalho." Além de Mark Deputter (que é também responsável pela programação de artes performativas), a equipa é constituída por Delfim Sardo (artes visuais), Pedro Santos (música), Liliana Coutinho (conferências e debates) e Raquel Ribeiro dos Santos (participação, famílias, escolas). Um ano depois, de cara lavada - nova imagem, novo site - a Culturgest arranca hoje com uma nova temporada: o Grande Auditório recebe um concerto do canadiano Tim Hecker.

Se tiver que definir esta programação, Deputter começa por falar da contemporaneidade. "A Culturgest é uma casa que está claramente dedicada à contemporaneidade, desde o início, foi fundada com esse propósito, está nos estatutos", diz. Além disso, esta "é uma programação decididamente internacional - e tenta juntar a isso o que está a acontecer a nível local. Isso é um dado adquirido nesta casa. E mais do que isso damos uma atenção especial ao que vem de fora da Europa. Temo interesse em abrir-nos para receber linguagens de outras culturas, menos óbvias." E, por fim, a muldisciplinariedade: "Queremos ter projetos que fazem ligações em várias áreas".

E querem ter muito público. O que é que isto quer dizer, afinal? "Quando falei nisso a primeira vez acho que fui um bocadinho mal entendido", avisa. "Temos a ambição de chegar a um público alargado. Não é programar para grandes públicos, é tentar trazer muito público para esta programação." Que se perceba a diferença.

Para isso acontecer, há, desde logo, uma aposta clara no Grande Auditório, a sala principal da Culturgest, que tem capacidade para mais de 600 espectadores. "Uma das opções de base foi usar o Grande Auditório tal como ele é, sem bancadas, e deixar de fora as pequenas formas - não porque não goste delas (pelo contrário, às vezes até me dá pena porque gostaria muito de convidar um ou outro trabalho ou artista) mas acho que para esta casa é mesmo importante usar a infraestrutura em todas as suas potencialidades", explica. Esta opção exclui desde logo o trabalho dos artistas emergentes e as performances de pequeno formato. "Se fôssemos o único teatro da cidade teríamos obrigação de oferecer espetáculos de vários formatos e para todos os públicos, mas como há outros teatros, podemos dar-nos ao luxo de fazer aquilo que achamos que é bom para este espaço", justifica Deputter. "Há muita oferta em Lisboa."

Há 25 anos, quando abriu as portas, a Culturgest "era a única casa dedicada verdadeiramente à criação contemporânea", lembra Mark Deputter. "Havia o CCB, a Zé dos Bois, alguns festivais. Mas era tudo diferente. 25 anos mais tarde mudou radicalmente. Agora, até o Teatro Nacional apresenta jovens artistas."

O programador está confiante: "É um espaço difícil pela sua grandiosidade mas chega a vibrar quando há muita gente, por exemplo no Doclisboa ou quando há espetáculos que enchem o Grande Auditório. Sente-se que o edifício fica mais feliz. Prever o que vai acontecer com os públicos é sempre uma parte difícil, há tantos fatores que influenciam. Mas vamos trabalhar para isso."

A programação destes primeiros cinco meses de Mark Deputter já é, diz, "muito daquilo que vamos querer fazer". Falta ainda uma maior colaboração entre as várias áreas (há já alguma articulação entre conferência e espetáculos, por exemplo, mas ainda não é suficiente) e também faltam as coproduções com artistas portugueses: "Não houve tempo". Outra área que promete explorar mais é a da participação - ter cada vez mais projetos que envolvam as pessoas que ali vão e que não se limitem a sentar-se para ver um espetáculo ou visitar uma exposição. É isso que podemos esperar a partir de fevereiro.

Mas, para já, este mês vai ser assim:

5 de outubro. Concerto de Tim Hecker + The Konoyo Ensemble
"É um grande nome da música eletrónica. Este espetáculo espetáculo é um acontecimento muito especial. Porque é um encontro entre a música ocidental e a oriental e ao mesmo tempo é um encontro entre a música contemporânea e antiga. Eles estreiam este disco, Konoyo, no Japão, dois dias antes e depois fazerm aqui a estreia europeia."

6 de outubro. Bal Moderne
O projeto Bal Moderne, criado por Michel Reilhac, é um dos clássicos da Culturgest e está de volta este ano - quando a Culturgest e o Bal Moderne estão a celebrar os 25 anos. Trata-se de um convite a todos para que tomem o palco, ensaiem e apresentem pequenas coreorgrafias. Há mais Bal Moderne a 1 de dezembro e a 16 de fevereiro.

12 e 13 de outubro. Os seis concertos Brandeburgueses, coreografia de Anne Teresa de Keersmaeker & Rosas, com Amandine Beyer e a B'Rock Orchestra
"Neste momento, ela é, no meu entender, a coreógrafa mais importante, com um trabalho muito solificado e seguro e, ao mesmo tempo, é alguém que não tem medo de arriscar e de procurar novos lugares para o seu trabalho", diz Mark Deputter sobre Anne Teresa de Keersmaeker. Este espetáculo será também a festa de aniversário da Culturgest, no dia 12.

20 de outubro (a 6 de janeiro). Exposições de Kader Attia e Juan Araujo.
O primeiro é um artista franco-argelino que se tem dedicao à forma como as relações de poder continuam a afetar o mundo pós-colonial. O segundo é um artista venezuelano a residir em Portugal que tem desenvolvido um trabalho em pintura.

18-28 outubro. Doclisboa - 16º Festival Internacional de Cinema
Mark Deputter não poupa elogios a este e ao outro festival de cinema que também tem a sua casa na Culturgest, o Indie Lisboa. Este ano o DocLisboa vai apresentar 243 filmes, entre os quais o novo filme do norte-americano Michael Moore.

Veja a programação completa da Culturgest AQUI.

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