Culturgest quer ter mais públicos para a criação contemporânea

A próxima temporada da Culturgest, em Lisboa, é "assumidamente multidisciplinar" e quer conquistar mais públicos para a criação contemporânea, afirmou o novo diretor artístico, Mark Deputter.

"Não quer dizer que vamos programar para um grande público. É ao contrário: vamos procurar um grande público para aquilo que programamos", explicou Mark Deputter esta quarta-feira num encontro com jornalistas, na apresentação da próxima temporada da Culturgest, de outubro a fevereiro e que assinalará também os 25 anos de existência.

Esta é a primeira programação delineada pelo novo diretor artístico - e um dos administradores - da Culturgest, o belga Mark Deputter, sucessor de Miguel Lobo Antunes, que assumiu o cargo em outubro, depois de ter dirigido o Teatro Maria Matos. Na apresentação, Deputter explicou que a programação pretende espelhar "uma presença mais ou menos equilibrada entre todas as formas de arte", das artes visuais ao teatro, da música às conferências e às artes performativas.

Parte da programação servirá para celebrar os 25 anos da Culturgest logo no arranque, com um concerto do canadiano Tim Hecker com The Konoyo Ensemble no dia 4 de outubro.

Ainda nesse mês, a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker regressa a Lisboa para a apresentação de uma das suas maiores obras, Os Seis Concertos Brandeburgueses para obra de Bach, com interpretação de 18 bailarinos, direção musical de Amandine Beyer e a presença da B'Rock Orchestra.

Duas exposições inéditas são inauguradas em outubro associadas ao aniversário: Uma retrospetiva do venezuelano radicado em Portugal Juan Araújo e uma autobiográfica do franco-argelino Kader Attia.

Por áreas, além da nova coreografia de Anne Teresa Keersmaeker (que em novembro estreia A Love Supreme no Rivoli, no Porto), na área da dança destacam-se Happy Island, da coreógrafa espanhola La Ribot com a realizadora Raquel Freire e a companhia de dança inclusiva Dançando com a Diferença, e a estreia de Crowd, da criadora francesa Gisèle Vienne.

No teatro, sublinha-se o regresso a Portugal, em 2019, do grupo alemão Rimini Protokoll com o espetáculo 100% Lisboa, que será interpretado por uma centena de habitantes de Lisboa, escolhidos consoante as estatísticas demográficas da cidade. Antes de Lisboa, o grupo apresentará, no Teatro Municipal do Porto, a versão 100% Porto.

Assinala-se ainda a estreia de Ricardo Neves-Neves na encenação para os mais novos, com a peça Catamarã, nas ilhas Salomão ninguém se preocupa com os erros ortográficos, de Ana Lázaro.

Mark Deputter esclareceu que nesta temporada ainda não se nota uma maior presença da criação artística portuguesa, por razões de tempo na produção e coprodução: "Queremos obras de maior dimensão e com mais meios e não é fácil juntar elencos".

Na música, deixa de haver o ciclo regular dedicado ao jazz e em 2019 a Culturgest já não acolherá o festival Rescaldo. Ainda assim, a programação contará com, entre outros, a japonesa Midori Takada, o trompetista Peter Evans que atuará com a Orquestra Jazz de Matosinhos, os Mouse on Mars e, em estreia, Montanhas Azuis, projeto que junta Bruno Pernadas a Norberto Lobo e Marco Franco.

Nas artes visuais, além de Juan Araújo e Kader Attia, a Culturgest olhará para dois outros artistas, portugueses: Salomé Lamas, que inaugura na Culturgest Porto a instalação vídeo Fatamorgana, e João Onofre, com a primeira retrospetiva de carreira, com trabalhos inéditos.

À boleia desta retrospetiva, João Onofre criou ainda um projeto especificamente para a Culturgest. Na entrada da Culturgest estará um cubo de aço e lá dentro, fechados, músicos farão uma performance até ficarem sem oxigénio.

A programação dedicada a conferências e debates terá formatos diferentes, com uma maior participação crítica de universidades, por exemplo. Em outubro, na Culturgest estarão o teórico camaronês Achille Mbembe e o artista curdo-iraquiano Hiwa K. e arrancará ainda "Tempestade mental", um ciclo de conferências dirigidas a adolescentes.

Para famílias e público escolar, além da peça de Ana Lázaro, haverá ainda a estreia de Marinho, de Margarida Mestre, ou Pedra, um projeto educativo em dança de repertório para adolescentes, orientado pelo coreógrafo Francisco Camacho.

À agência Lusa, Mark Deputter explicou que o orçamento da Culturgest ronda os 3,2 milhões de euros dos quais um milhão de euros vai para a programação. "O orçamento é bastante menor daquilo que a Culturgest já teve no passado, mas é um montante com o qual é possível fazer um bom trabalho", disse.

A programação foi desenhada por Mark Deputter (artes performativas), Delfim Sardo (artes visuais), Pedro Santos (música), Liliana Coutinho (conferências e debates) e Raquel Ribeiro dos Santos (participação, famílias e escolas).

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