O que resta de Alexandre em Alexandria para além do nome?Alexandre está na atmosfera! É surpreendente o quanto ele ainda faz parte da cultura, em grande parte devido às lendas fundadoras, que são importantes para a identidade de uma cidade. As pessoas sentem uma afinidade surpreendente com ele. Enquanto pesquisava para o livro, estava na varanda e atendi um telefonema do meu tio e ele perguntou-me se eu gostaria de jantar com ele. Expliquei que iria encontrar-me com alguém cujo falecido pai afirmava ter localizado o túmulo de Alexandre. Mal tinha acabado de dizer “Alexandre” quando o meu tio respondeu com entusiasmo, como se tivesse acabado de se lembrar de uma doce memória: “Alexandre. Sabes, nós estávamos no coração de Alexandre. E Alexandre está nos nossos corações.” Na prática, existem algumas estátuas oficiais na cidade, claro, mas há mais estátuas não oficiais, por isso não se surpreenda ao ver bustos de Alexandre em cafés. Aliás, num deles, havia uma foto dele a soprar uma grande bolha cor-de-rosa de pastilha elástica, e podem ver-se fotos dele vestido com a camisola da equipa de futebol local. E existe também a crença de que Alexandre ainda lá está, no seu túmulo, uma vez que existia um mausoléu em Alexandria que muitos imperadores romanos visitaram e que pode estar sob a cidade moderna. Reza a lenda que Serapis, o deus protetor da cidade, profetizou a Alexandre que viveria para sempre, “morto e ainda não morto”, porque “a cidade que construíste será o teu túmulo”.Será que o prestígio de Alexandria tem hoje ainda alguma relação com a famosa Biblioteca?Juntamente com os seus portos e o Farol de Alexandria, que era uma das maravilhas do mundo antigo, a Grande Biblioteca conferiu certamente prestígio a Alexandria durante séculos. Diria que, em todo o mundo, a Biblioteca é ainda o símbolo mais reconhecível da longa história de Alexandria. Desenvolvimentos importantes que ocorreram na Biblioteca tiveram efeitos duradouros em áreas como a astronomia e a filosofia, e invenções da Biblioteca ainda são relevantes, como as máquinas a vapor, a pontuação e as máquinas de venda automática, para citar apenas algumas. Embora a antiga Biblioteca já não exista e a nova seja mais simbólica, a ideia de Alexandria como centro cultural e intelectual persistiu durante séculos e ainda mantém uma certa relevância.Como é que Alexandria se integrou sempre bem em impérios, do Romano ao Otomano, passando pelo Império Árabe?Dada a sua localização na interseção de três continentes, os seus portos vibrantes e o seu acesso aos recursos do Egito, não é de estranhar que tantos impérios tenham reconhecido os benefícios de Alexandria. A ambição de Roma de transitar de uma República para um Império significava que era apenas uma questão de tempo até que os seus olhos se voltassem para Alexandria, especialmente por ser o celeiro da crescente população romana. De facto, quando Octávio conquistou Alexandria, Roma fez finalmente essa transição para o Império. Os comerciantes árabes que visitaram Alexandria ficaram maravilhados com o seu desenvolvimento: para eles, era como entrar no futuro. À medida que os muçulmanos expandiam o seu império, o Egito era considerado uma terra sagrada, mencionada diversas vezes no Alcorão. Mas foi com eles que se deu o desmantelamento como capital, passado um milénio da sua fundação, em grande parte porque estavam mais habituados ao deserto e não possuíam uma marinha forte, e também por sua população ser tão diversa. Mais tarde a cidade entrou em declínio sob o domínio otomano até ser revitalizada por Mohammed Ali Paxá. É importante notar que, ao longo destes diferentes períodos, a cultura egípcia influenciou aqueles que aí viviam, e Alexandria, em particular, conseguiu manter o seu carácter único..O facto de ser uma cidade mediterrânica explica o cosmopolitismo tradicional da cidade?Desde o início que esta era a intenção: havia poucas pessoas na região inicialmente, e os fundadores convidaram diferentes grupos, especialmente egípcios, gregos e judeus, a viverem juntos em tolerância, de forma a torná-la um centro comercial regional. Desde cedo, o seu porto recebeu visitantes de todo o mundo, até da China e da Índia, o que proporcionou um imenso intercâmbio cultural. As novas tendências surgiam cedo, e também havia casamentos interétnicos. Ser uma cidade portuária facilitou isso, mas não qualquer cidade portuária, e sim uma situada na interseção de três continentes, ligando claramente o Oriente ao Ocidente.Qual foi o papel de Alexandria na construção do Egito moderno a partir do século XIX?A cidade tinha definhado sob o domínio otomano, mas, no início do século XIX, Mohammed Ali Pasha desafiou-os ao retomar a exportação de cereais, o que revitalizou o porto, tornando-o novamente num importante centro comercial. Os consulados europeus foram transferidos para Alexandria, foram construídos novos canais e caminhos-de-ferro e, muito importante, a Bolsa de Algodão foi inaugurada, tornando-a o centro de um próspero comércio de algodão. As fábricas e os portos modernizados eram essenciais para o comércio egípcio e milhares de pessoas chegaram em busca de trabalho. Muitas ideias também se desenvolveram aí, desde a governação aos direitos das mulheres, sendo, por isso, certamente a primeira cidade moderna do Egito. No século XX, Alexandria desempenhou um papel fundamental nos movimentos anticoloniais e até no nacionalismo árabe.Qual é a maior diferença que um egípcio nota entre Alexandria e o Cairo?Essa é uma ótima pergunta. Por vezes parecem dois mundos diferentes. Alexandria é construída em torno do seu passeio marítimo - o mar é o protagonista sempre presente da cidade. A cidade foi projetada para receber uma brisa marítima favorável, desde o seu projeto inicial por Deinócrates, pelo que o clima também é diferente. Existe também a gastronomia: Alexandria tem uma variedade de influências na sua gastronomia, sendo famosa por pratos como o pastrami, e também pelas suas especiarias, que chegavam de diferentes regiões, como Marrocos, uma vez que os ibéricos passavam por ali na sua rota de peregrinação e muitos acabavam por ficar. O ar cosmopolita permanece com sinagogas, igrejas e mesquitas próximas umas das outras, bem como estabelecimentos antigos como hotéis italianos e pastelarias gregas. Há também a mistura arquitetónica, com art déco, beaux-arts, neoclássico, neobizantino, neofaraónico, neorrenascentista e até edifícios fascistas. Ah, e há tantos gatos!Cleópatra é a figura mais célebre da história da cidade?Certamente, pode-se argumentar que sim. Cleópatra resistiu ao teste do tempo. É um ícone cultural, a rainha mais famosa de sempre, que nasceu, cresceu e morreu na cidade. Ela é a última Ptolomeu, por isso foram os seus antepassados que realmente construíram a cidade e os monumentos lendários, moldando a sua identidade duradoura. Não é de estranhar que haja uma zona com o seu nome e várias estações de elétrico. É a única figura presente em duas denominações de dinheiro egípcio. Alexandre chega perto, mas a sua busca pela dominação global levou-o a viajar para longe e a tornar-se importante para diversas culturas. Portanto, sim, tem de ser Cleópatra..Ferdia Lennon: “A invasão de Siracusa por Atenas foi tão marcante por ser um conflito entre duas democracias”