Chuck Nice falou  com o DN no Pavilhão  do Conhecimento,  não muito longe  da MEO Arena onde  hoje às 20h00 vai estar  à conversa ao vivo  com Neil deGrasse Tyson.
Chuck Nice falou com o DN no Pavilhão do Conhecimento, não muito longe da MEO Arena onde hoje às 20h00 vai estar à conversa ao vivo com Neil deGrasse Tyson.FOTO: Gerardo Santos

Chuck Nice: “Precisamos de mais Neils deGrasse Tyson, que saibam comunicar a importância da ciência”

Em Lisboa para a estreia europeia do formato ao vivo de StarTalk - esta quinta-feira às 20h00 na Sala Tejo do MEO Arena -, o humorista americano Chuck Nice falou ao DN do seu fascínio pelo oceano e também pelo espaço. Antes de mais um programa com o astrofísico Neil deGrasse Tyson, em que vão levar ao palco os navegadores portugueses como inspiração para a exploração espacial, lembrou a “mentalidade especial” que uns e outros partilham.
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Depois de pedir “um minuto para ir ali dizer olá a uma escola”, é com um sonoro “bom dia”, em português, que Chuck Nice saúda os alunos que nesta manhã vieram fazer uma visita ao Pavilhão do Conhecimento. “Quem é que aqui gosta de ciência?”, pergunta o humorista americano que veio a Lisboa para a estreia europeia de StarTalk Live!, o formato ao vivo do programa sobre ciência e espaço que há anos faz com o astrofísico Neil deGrasse Tyson. E quando vários dedinhos se levantam, inclusive o da professora, que tal como os alunos enverga uma bata branca, Nice recordou: “A ciência é muito importante. Para vocês e para o vosso país”.

Já sentado numa sala no primeiro piso do Pavilhão do Conhecimento, não muito longe do MEO Arena em cuja Sala Tejo esta quinta feira às 20h00 se vai juntar a Neil deGrasse Tyson para o programa no qual juntam humor e ciência, queremos saber: porquê Lisboa para esta estreia europeia? “É uma espécie de combinação. Lisboa escolheu-nos, tal como nós escolhemos Lisboa”, explica Nice. Afinal, a conversa vai andar em torno do que têm em comum os navegadores portugueses que se orientavam pelas estrelas e os cientistas que hoje procuram sinais de vida para além da Terra.

Lembrando que esta é a sua primeira vinda a Portugal, Nice começa por elogiar a comida… e os vinhos. Não espanta, se pensarmos que a sua visita começou por Estremoz, onde “tenho um amigo que tem dois restaurantes”, seguiu para Évora e Ericeira antes de chegar a Lisboa. Na capital, se a arquitetura foi uma das razões que o trouxeram até cá - “adoro fotografar edifícios muito ornamentados e intrincados” -, mal pousou as malas no hotel, disse para a mulher: “Vamos descer e vamos velejar”. Foi o que fizeram, aproveitando a vista da cidade a partir do Tejo.

Uma vista que incluiu a Torre de Belém, símbolo do local de onde partiram os navegadores portugueses para os Descobrimentos. Questionado sobre a inspiração que homens como Fernão de Magalhães - que até nem partiu dali uma vez que a sua viagem de circumnavegação foi feita ao serviço da coroa espanhola - são para os exploradores espaciais, Chuck Nice confirma que são um exemplo. E explica: “Quando tudo o que se consegue ver é o horizonte e não sabemos o que está do outro lado, é preciso uma mentalidade especial para ir mais além. E os portugueses foram os primeiros a viajar por todos os oceanos.”

Uma mentalidade e uma coragem que os exploradores espaciais também mostram ao tentar perceber o que existe no universo e se há vida além da Terra. O espaço é o novo oceano, perguntamos? “Acho que o Neil usou essas mesmas palavras”, garante Chuck Nice, sobre o cientista que se tornou mundialmente famoso com a série Cosmos: Uma Odisseia do Espaço-Tempo, remake de Cosmos, a série dos anos 1980 apresentada por Carl Sagan.

Dando largas ao sentido de humor que marca toda a sua carreira, Chuck Nice não resiste e pergunta: “Sabe qual é a diferença? No espaço nada te pode devorar, no mar sim, muita coisa. Acho o oceano um pouco assustador”, confessa. Para logo acrescentar: “Só que no espaço não se consegue respirar. Isso pode tornar-se um problema.”

Voltando a Neil deGrasse Tyson, e depois de brincarmos que após tantos anos a fazer um programa sobre ciência ao lado do mais conhecido astrofísico do mundo Chuck Nice já devia ele próprio ter um doutoramento nessa área, o humorista ri-se, mas admite que aprendeu “muita coisa. É por isso que faço este trabalho. Porque claramente não é por dinheiro”, brinca, com uma gargalhada. Mas é já sério que explica: “Cada vez que faço um espetáculo, aprendo algo novo e isso leva-me a fazer mais perguntas. É isso que adoro.”

Neil deGrasse Tyson.
Neil deGrasse Tyson.

Quanto ao que mais o surpreendeu no que aprendeu com Neil deGrasse Tyson, Nice pensa um bocado e acaba por responder: “Para além da Física Quântica? Porque essa ninguém compreende e portanto está tudo bem que eu também não entenda [risos]. O que mais me surpreende é que a relatividade do tempo é real. É demonstrável”. E explica: “À medida que se aproxima da velocidade da luz, o tempo passa mais devagar. A desintegração dos átomos acontece realmente mais lentamente. Não se trata de uma perceção, mas sim de um facto”. E dá como exemplo os satélites colocados em órbita e cujos relógios precisam de ser ajustados porque o tempo para eles passa de forma diferente.

Mas se a ciência é sempre corretíssima, os episódios de StarTalk são também um bom exemplo de humor. Se dúvidas houvesse, basta uma visita ao YouTube e a uma compilação dos momentos mais divertidos da série para as tirar. Tanto da parte de Chuck Nice, como do próprio Neil deGrasse Tyson. “Ele faz-me rir muito”, confessa o humorista sobre o astrofísico. E admite que a audiência por vezes não tem noção: “As pessoas não se apercebem que somos só nós os dois sentados numa sala, com algumas câmaras. Não sabemos quem está a ouvir, só sabemos que nos estamos a divertir muito juntos”. E admite: “Qualquer pessoa pode sentar-se com o Neil e divertir-se. Porque ele, primeiro, é divertido, segundo, é uma das pessoas mais inteligentes que alguma vez conhecerá. E uma das mais cultas.”

Fã confesso do astrofísico, Chuck Nice conta que nem hesitou quando há muitos anos lhe ligaram a sugerir conhecê-lo. “Foi antes de ele aparecer no Cosmos, mas eu já era fã. Nessa altura, eu era um nerd não assumido. E quando me telefonaram a perguntar se podia ir conhecer o Neil deGrasse Tyson pensei que fosse um amigo meu a brincar.”

Mas não era uma brincadeira. E os 15 minutos de conversa transformaram-se em hora e meia. “Ele é assim. Não é só inteligente, ainda é curioso, está sempre a fazer perguntas”, garante Chuck Nice. E é numa imitação perfeita do astrofísico que diz: “Então sabe? Estava a pensar no outro dia. Então fui lá e fiz alguns cálculos. Fiz algumas pesquisas.” E acrescenta: “Ele ainda faz isso.”

FOTO: Gerardo Santos

O próprio Chuck confessa-se uma pessoa curiosa. “Quero sempre saber por que razão as coisas acontecem. Essa é a essência da ciência”. Essa é também a razão pela qual o programa atrai uma audiência muito vasta? “É para toda a gente. É um público muito grande e diversificado. Por vezes, tenho de me lembrar que provavelmente há crianças a assistir, por causa da linguagem!”

Mas para o pequeno Chuck, mais do que o espaço, o que o fascinava enquanto crescia em Filadélfia era pensar no oceano. “Eu queria ser oceanógrafo. Mas não me via a percorrer o fundo do oceano. Na altura achava que era isso que eles faziam, só mais tarde percebi que se pode ser cientista, estudar o oceano e nunca entrar nele”, diz e conta que já adulto passou a fazer mergulho.

Quanto ao espaço, “o cosmos é maior do que alguma vez imaginámos. Hoje sabemos muito mais sobre o universo mas quando eu estava a estudar, resumia-se tudo a matemática. E eu só perguntava: ‘mas quando é que chegamos ao espaço? São apenas números e letras. E símbolos. Onde está o espaço?’”

Ainda antes de ir lá fora tirar uma fotografias na Bicicleta Voadora, Chuck Nice não esconde a admiração por homens como Neil deGrasse Tyson ou Carl Sagan. “Gosto de Carl Sagan. Ele era muito bom a ser simples nas suas explicações de coisas muito complexas. É isso que ele e Neil têm em comum. Quando se pensa no tamanho do universo. E nem sequer podemos chamar-lhe universo, tem de ser o universo observável. Quando pensamos no que existe para além do nosso universo, vemos que provavelmente não somos os únicos no universo. E existem diferentes tipos de multiverso. Tudo isto é realmente fascinante.”

Perante questões tão complexas, nada melhor, portanto, do que misturar um pouco de humor na ciência. “Gostava de dizer que a ideia foi minha, mas foi do Neil”, admite Chuck Nice. E prossegue: “O humor evoca uma emoção. E emoções, do ponto de vista neurocientífico, são a melhor maneira de formarmos memórias. Por isso, se puder, desperte uma emoção e transmita-a a alguém. Tem maior probabilidade de que a pessoa retenha a informação.” É isso que esperam que aconteça hoje à noite.

Antes de nos despedirmos, tempo ainda para voltar às crianças, como as que estavam lá em baixo numa visita de estudo, para falarmos da importância da ciência hoje nos Estados Unidos. “Estamos a perder o nosso país. Estamos a perder a nossa posição no mundo, a muitos níveis”, garante Chuck Nice. E aponta o dedo ao presidente Donald Trump. “É um aspirante a ditador. E quando se quer ser ditador, começa-se por atacar duas coisas: a imprensa, porque informa, e a ciência, porque não é só uma disciplina, é uma maneira de pensar. Não se pode ser cientificamente alfabetização e não se ser um pensador crítico. Ora se for um pensador crítico, não será um fascista porque vai dizer: ‘isso é treta’. Estamos a tornar-nos anti-científicos na América. É muito triste.”

Então o que faz falta para inverter esse caminho? “Temos muitos Neils deGrasse Tyson na América, mas precisamos de mais como ele, que saibam comunicar a importância da ciência.”

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