Quando se lê a palavra «atlas» num título supõe-se que o livro seja uma coleção de mapas, o que nem sempre acontece como é o caso da recolha de locais do mundo onde existiram importantes civilizações e que entretanto desapareceram ou poucos são os vestígios visíveis dessas marcas da humanidade. É o que Travis Elborough faz em Atlas de Lugares em Extinção, uma “reportagem” sobre sítios que se evapora(ra)m da superfície do planeta por razões de destruição humana ou pela passagem do tempo. Fá-lo com uma boa investigação e acrescenta bastantes ilustrações para melhor se visualizar cada situação, como já fez em meia-dúzia de livros. No caso deste livro, tudo começou ao confrontar-se com o desaparecimento do Mar Aral, no Uzbequistão; a partir daí, o autor fez o levantamento de várias civilizações e sociedades desaparecidas através do recurso a mapas antigos, muitas vezes as únicas informações que resistiram ao passar do tempo. Não imita o francês J.L. Burckhardt que no século XIX andou “a explorar o Médio Oriente disfarçado de muçulmano e que redescobriu a cidade magnífica de Petra após o esquecimento a que foi votada pela importância crescente de Bagdade; nem o poeta inglês Alfred Tennyson que imortalizou Tombuctu, fazendo dela um paralelo com a perdida Atlântida ou a cidade El Dorado; ou Ptolomeu que terá ordenado que os restos morais de Alexandre o Grande seriam depositados em Alexandria, terra da última Cleópatra. Não se querendo comparar, no entanto as narrativas atuais de Travis Elborough são retratos tão perfeitos como os das anteriores deambulações por locais e culturas antigas. .ATLAS DE LUGARES EM EXTINÇÃOTravis ElboroughQuetzal229 páginasCleópatra para sempreTravis Elborough refere Cleópatra VII no seu capítulo sobre Alexandria, mas a investigação Cleópatra de Christian-Georges Schwentzel vem dar um dos melhores retratos sobre a última rainha do Egito, com o recurso a novas descobertas arqueológicas e a que se somam outras fontes documentais, para que se conheça melhor a governante que aos 18 anos deu início a um percurso ímpar na história da Antiguidade. O autor refere a dificuldade em a caracterizar fisicamente de uma maneira exata: “Era morena, loira ou ruiva? Tinha pele clara ou mate? Sem hesitação sobre provas está a parte da luta pelo poder, sobre o que diz: “Adotou com António a mesma estratégia de gravidez que com César. Dá à luz gémeos”. Schwentzel não deixa de discorrer em vários capítulos sobre a vida erótica de Cleópatra: “Levava a vida de uma deusa viva? Sexo, prazeres e riquezas, havia de os ter em abundância”. Detalhes e mexericos à parte, o poder desfrutado pela rainha é objeto de interrogação do historiador quando considera que “a História não é só escrita pelos vencedores, mas também pelos homens. Cleópatra tinha, portanto, poucas hipóteses de ser celebrada pela posteridade como grande líder política, pelo menos até recentemente, já que os historiadores optam hoje em dia por reabilitá-la amplamente”..CLEÓPATRAChristian-Georges SchwentzelGuerra & Paz166 páginasA China milenarTravis Elborough também refere a dinastia chinesa Tang no capítulo Cidade dos Leões, governação que está bastante desenvolvida no ensaio História da China Antiga e Imperial de Damien Chaussende. O especialista sobre a transição dos Três Reinos para a dinastia Jin, entre muitas épocas da história daquele país, começa o ensaio com o esclarecimento sobre a inexistência de uma unificação do território durante muito tempo e da profusão de nacionalidades. O historiador e sinólogo pretende neste volume definir os grandes marcos históricos do longo passado da China e nesse percurso de mais de dois mil anos vai reportando toda a evolução: desde a China Antiga, a das mitologias, à diversidade de berços da civilização, o aparecimento da escrita, as várias culturas das idades do Bronze e do Ferro, o apogeu do Han e do imperador Wu, a rutura promovida pelos Song do período medieval para o moderno, sem esquecer a conquista mongol de Gengis Khan, ou a chegada dos missionários às suas paragens, como o jesuíta Matteo Ricci, e a instalação em 1557 dos portugueses em Macau. Esta história termina com o período de 1644 a 1911, quando os Manchus se impõem como o último regime imperial, de que ainda hoje se podem observar várias marcas..HISTÓRIA DA CHINA ANTIGA E IMPERIALDamien ChaussendeGuerra & Paz175 páginas Cartago recuperadaA frase da contracapa explicita bem o objetivo da investigação Cartago da historiadora Eve MacDonald: “Sem Cartago, Roma não existiria. Essa proposta é reforçada no subtítulo do ensaio, O império que desafiou Roma, sobre a cidade que sucumbe à destruição de Roma após um cerco de três anos. A autora dá início ao volume com um retrato humano do que foi a entrada violenta do exército romano e da reação da população através da observação da mulher de Asdrúbal à sua rendição a Cipião Emiliano, após o que mata os filhos e se suicida. Não é por acaso que a historiadora utiliza a mulher do responsável pela defesa de Cartago, antes porque pretende contar esta história através de pessoas reais. E fá-lo por considerar que a derrota perante a força de Roma foi também executada de modo que as “pessoas reais” que convoca para estas páginas recuperem a existência que foi apagada pelos romanos..CARTAGOEve MacDonaldBertrand Editora349 páginas UMA HISTÓRIA PÍCARA?Tendo em conta o significado do adjetivo pícaro, não se o poderá utilizar como caracterização da prosa que o autor Paulo M. Dias utiliza em Um nobre, um frade e um camponês entram numa taberna, no entanto talvez seja a melhor forma de o fazer tal é a forma como redige estes capítulos sobre a nossa história medieval. Sem se querer comparar ao cronista Fernão Lopes, o autor advoga que este “melhor do que ninguém, soube entreter com a escrita”, daí que o seu livro seja “historicamente rigoroso” mas seguindo o lema de que “a História não tem de ser enfadonha”. Portanto, o historiador – que é adepto de conteúdos históricos na plataforma Twitch – viaja pelo Portugal medieval em busca de “histórias inesperadas” e desemboca de “forma quase acidental” num “livro de micro-história”, distante da “história de Portugal no sentido clássico”. Confessa que pretendeu reunir acontecimentos e perspetivas sobre um período mal-amado e mal compreendido, daí que não haja um só título de capítulo em que estejam ausentes termos à la pícaro para executar o seu modo de relatar a História. No mínimo, curioso. .UM NOBRE, UM FRADE E UM CAMPONÊS ENTRAM NUMA TABERNAPaulo M. DiasIdeias de Ler241 páginas