O Centro Cultural de Belém quer abrir uma novo ciclo na vida da instituição e anunciou esta tarde, 15 de abril, as grandes linhas orientadoras da sua atividade até 2030. A instituição presidida por Nuno Vassallo e Silva quer atrair novos públicos, alargando a sua base social, ganhar maior relevância internacional e diversificar as fontes de financiamento. "O Centro Cultural de Belém tem lugar único na vida cultural portuguesa, mas esse lugar não pode apenas ser herdado, tem de ser renovado. Queremos um Centro Cultural de Belém mais aberto, mais desejado, mais legível, mais internacional, mais participativo e mais sustentável. Queremos um Centro Cultural de Belém que continua a ser referência de qualidade, mas que seja também mais próximo e mais apreciável para os cidadãos", disse Nuno Vassallo e Silva na apresentação do Plano Estratégico 2026-2030. O plano intitulado "Re-visitar" assenta nos valores da "hospitalidade, diversidade, liberdade, participação e conhecimento", e em três vetores estratégicos: "cultura europeia, públicos novos e curadoria territorial". São linhas orientadoras, sem metas quantitativas, que serão trabalhadas pelas direções da instituição, sublinharam os administradores do CCB. Em relação à "hospitalidade", Rui Morais admite que este valor causou alguma "estranheza", mas considera que é fundamental. "Desde as crianças, ao público dos espetáculos, passando pelos visitantes das exposições, quando entram nesta casa, têm de sentir que estão na sua casa". Isso passará, avança a instituição, por novos modos de percorrer o espaço, uma nova sinalética, e pelo reforço da programação ao ar livre. O plano estratégico fala em "lifestyle cultural" e numa aproximação "às linhas de desejo dos públicos". Nuno Vassallo e Silva explica que o público será central na programação: "O CCB continua a ser reconhecido como uma referência de qualidade, mas os públicos pedem hoje cada vez mais. O desafio deixa de ser apenas programar para os públicos, mas com os públicos".O CCB quer atrair as gerações mais novas e ligar-se ao que chama de "diásporas culturais". "O Plano Estratégico assume, claramente, uma opção preferencial por públicos novos. Mas não são apenas as gerações mais jovens que queremos conquistar. Elas são essenciais para o futuro, obviamente, mas queremos também públicos oriundos de diferentes culturas e línguas. Isto, no entanto, não implica abandonar os públicos tradicionais. Só que, chegados aqui, a nossa ambição tem de ser maior e é fundamental alargar a base social do Centro Cultural de Belém. Para isso, temos de pensar a experiência do visitante de forma muito mais exigente. Temos de a tornar mais atrativa", diz Rui Morais.A instituição quer atrair não só os portugueses que vivem fora do país, como "todos aqueles estrangeiros que vivem em Portugal, muitos deles com hábitos culturais intensos que os levam a rever-se numa programação de qualidade, exigente e cuidada", diz Rita Romão. Nos planos do CCB para os próximos anos está igualmente o reforço da ligação aos sistema universitário e politécnico. "Apostar numa escola de conhecimento para toda a cadeia de valor da arte e da cultura que passará, inclusive, por um programa internacional de residências artísticas para jovens estudantes e profissionais criativos. Em suma, queremos um Centro Cultural de Belém mais europeu, mais internacional e, por consequência, mais influente", diz Rui Morais. O desenho destas residências artísticas ainda não está "totalmente definido", diz o administrador, mas a ideia é abranger não só as áreas artísticas mas também as técnico-artísticas, numa ótica de passar conhecimento. "Vamos trabalhar estas linhas orientadoras com as direções. Vamos ouvir também os contributos dos colaboradores, é um plano que vai crescendo."Outro ponto central do plano estratégico do CCB até 2030 é a diversificação das fontes de financiamento. "Haver caminho para novos modelos de filantropia e este plano assume também uma necessidade de criar uma equipa profissional especializada não só na captação de fundos, mas também olhar para tudo o que sejam candidaturas a concursos internacionais. De uma forma simples, o CCB quer ser mais forte artisticamente, mais aberto socialmente, também mais capaz financeiramente. Não para se afastar da sua missão pública, mas sim para a cumprir melhor, com mais meios, mais alcance e menor grau de dependência", diz Rita Romão. O CCB recebe anualmente 10,5 milhões de euros do Ministério da Cultura, tendo gerindo em 2025 um orçamento em torno dos 18 milhões de euros (com cerca de oito milhões de euros de receitas próprias). O objetivo da instituição é reforçar estas receitas concorrendo a fundos e reforçando as parcerias com o setor privado. "Nós não temos mecenas e patrocinadores relevantes e achamos que isto é uma questão que tem de ser atacada, tem de ser resolvida", diz Rui Morais. A cedência de espaços para a realização de eventos, congressos e reuniões é também uma fonte importante de receita do CCB, mas a ocupação dos auditórios, o grande e o pequeno, que no ano passado foi de 55 dias, não será feita à custa da programação, garante a administração da instituição. "Em nenhum lugar isso está no plano estratégico, gostava de reafirmar isso mesmo", sublinhou Rui Morais. A aposta no aumento das receitas próprias e o caminho para um "menor grau de dependência", como referiu Rita Romão, não significa que o objetivo seja receber menos dinheiro do Orçamento do Estado. "Com tudo que o Centro Cultural de Belém representa, eu diria que a dotação do Estado não é exagerada. O que eu acho é que há uma capacidade de buscar outro tipo de receitas próprias. Obviamente que nós, do ponto de vista financeiro, não defendemos uma diminuição da contribuição do Estado", frisa Rui Morais. Outro dos objetivos, que a construção dos novos módulos IV e V do CCB (com áreas de hotelaria, comércio e serviços) facilitará, segundo Nuno Vassallo e Silva, é aproveitar a localização da instituição no eixo Belém-Tejo para atrair mais público e posicionar a instituição como "destino de referência no turismo cultural europeu".A obra permitirá, considera a administração do CCB, uma ligação entre o "legado histórico", como a Torre de Belém, e o museu. "Vai permitir uma circulação, que foi sempre a ideia de princípio deste eixo, que vem da zona monumental e permite caminhar até à zona ribeirinha de Belém. Para o Conselho é um privilégio termos sido nós a assinar com a Alves Ribeiro, que são os nossos parceiros, o início da construção. Os trabalhos estão na fase de escavações e estão com achados arqueológicos que já se sabia que estavam lá", revela.Os achados arqueológicos em causa são do Palácio Quinta Real da Praia (ou Marialva). Nuno Vassallo e Silva diz que foi feita uma apresentação à presidência da Câmara Municipal de Lisboa e que estão articulados com o Património Cultural, IP, esperando que o projeto esteja concluído "entre 2029 e 2030".Nuno Vassallo e Silva foi questionado sobre se permitirá que se volte a realizar um evento de extrema-direita no CCB, como aconteceu em outubro de 2025, quando acolheu um encontro da Fundação Patriots, que congrega os partidos de extrema-direita europeia, e que foi contestado pela Associação de Artistas Visuais em Portugal. "Em relação à questão dos alugueres de sala, a própria estratégia é muito clara, está assente nos valores democráticos, os valores que defende o CCB, isso é uma bandeira de que não abdicamos. Do ponto de vista da tolerância, da liberdade, dos valores democráticos e europeus, que são aqueles que o CCB defende. O plano estratégico consagra-os. Qualquer atividade que seja comercial tem que respeitar os valores democráticos do CCB. Quem vem fazer uma conferência tem que assinar os contratos, as condições, e essas condições são muito claras", sublinhou Vassallo e Silva. .Nova exposição permanente no CCB mostra arte a partir dos anos 1970 e questiona missão dos museus.Rui Morais e Rita Romão nomeados administradores do Centro Cultural de Belém