Com mais de 600 exemplares, desde a Dinastia Ming até à atualidade, o Museu de Nanquim alberga uma das mais importantes coleções de bules de 'zisha' da China, representativos de uma grande variedade de formas e tipos de argila.
Com mais de 600 exemplares, desde a Dinastia Ming até à atualidade, o Museu de Nanquim alberga uma das mais importantes coleções de bules de 'zisha' da China, representativos de uma grande variedade de formas e tipos de argila. FOTO: D.R. / Macao Daily News

Bule de 'zisha': o bule de chá que respira

No leste da China, na província de Jiangsu, situa-se a cidade de Yixing, um dos mais antigos centros de produção de cerâmica do país, com uma história de mais de sete mil anos. Distinguida em 2023 como uma das dez principais cidades mundiais da arte cerâmica, Yixing é também uma das mais antigas regiões produtoras de chá na China e o berço do célebre bule de 'zisha'.
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Os antigos chineses consideravam que o bule de zisha era o melhor utensílio para a preparação do chá, que adquiria um sabor único quando nele preparado. Mas o que torna estes bules tão especiais?

A resposta está na matéria-prima. Zisha, literalmente “areia púrpura”, é o nome de uma argila característica de Yixing, rica em ferro, de textura fina e tonalidade naturalmente púrpura-avermelhada. Apesar do nome, esta argila nem sempre é púrpura, podendo apresentar tonalidades que, consoante a temperatura da cozedura e as técnicas de fabrico utilizadas, vão do castanho-avermelhado ao cinzento-escuro.

A característica mais singular do bule de zisha é que, depois de cozido, não recebe qualquer camada de esmalte. A superfície permanece ligeiramente porosa, com poros microscópicos semelhantes aos da pele humana, sendo precisamente esta estrutura que lhe confere propriedades únicas.

Em primeiro lugar, ajuda a preservar o aroma natural do chá. Ao contrário da porcelana vidrada e de outros recipientes impermeáveis, o zisha não interfere com os compostos aromáticos das folhas, nem favorece o sabor excessivamente cozido que pode surgir quando a infusão permanece demasiado tempo no bule, contribuindo também para que o chá conserve a frescura durante mais tempo.

Em segundo lugar, com o passar dos anos, o interior do bule absorve lentamente uma pequena quantidade da infusão, pelo que se diz que “ganha memória” com o uso continuado, libertando um ligeiro aroma das infusões anteriores, mesmo quando se enche apenas com água quente.

Por fim, o bule de zisha adapta-se muito bem a diferentes temperaturas. No inverno resiste à água a ferver sem rachar e no verão mantém uma temperatura exterior confortável ao toque. À medida que vai sendo utilizado, a sua superfície adquire um brilho cada vez mais acetinado e o chá preparado no seu interior ganha um sabor mais rico e harmonioso.

Aprendiz praticando a técnica tradicional de fabrico de bules de 'zisha' em Yixing, província de Jiangsu.
Aprendiz praticando a técnica tradicional de fabrico de bules de 'zisha' em Yixing, província de Jiangsu. FOTO: D.R. / Macao Daily News

A técnica tradicional de fabrico dos bules de zisha de Yixing é a única de cerâmica chinesa ainda existente em que o corpo da peça é moldado por batimento manual. Ao contrário da cerâmica ocidental, geralmente moldada na roda de oleiro, ou de outras tradições, que recorrem à sobreposição de rolos de barro, o artesão começa por transformar a argila em placas finas com pequenas espátulas de madeira. Em seguida, monta cuidadosamente o corpo do bule, peça a peça, como um tanoeiro montando um barril ou um alfaiate cosendo uma peça de roupa.

Da argila ao produto final são necessárias dezenas de etapas, num processo que exige enorme precisão, paciência e experiência. Mais do que uma técnica artesanal, este saber-fazer reflete a forma como os chineses entendem o chá e a arte de viver.

A história do bule de zisha remonta à Dinastia Song (séculos X-XIII), mas foi em meados da Dinastia Ming (século XVI) que esta arte floresceu verdadeiramente. Entre as histórias sobre a sua origem, a mais conhecida é a de Gongchun. Embora peças de zisha já fossem produzidas em Yixing antes da sua época, a tradição atribui-lhe a criação do estilo artístico que marcou profundamente a evolução deste tipo de cerâmica. Ao serviço de um estudioso que residia temporariamente no Templo Jinsha, em Yixing, Gongchun aprendeu com um monge a arte de fabricar bules. No entanto, não se contentou em produzir simples utensílios, procurando antes elevá-los à categoria de objetos de valor artístico.

Conta a tradição que, enquanto observava um antigo ginkgo junto ao templo, Gongchun reparou num nó no tronco da árvore. Inspirado por essa forma criada pela natureza, moldou um bule que reproduzia o aspeto do tronco e gravou na sua superfície as respetivas texturas. O resultado rompeu com a simetria dos utensílios comuns, transmitindo uma sensação de naturalidade e espontaneidade.

Gongchun convivia frequentemente com estudiosos e literatos, entre os quais as suas criações despertaram admiração. Os intelectuais da época apreciavam particularmente a beleza irregular das pedras naturais, e os seus bules correspondiam na perfeição a esse ideal estético. Assim, a fama de Gongchun espalhou-se rapidamente, sendo hoje considerado o fundador da arte do bule de zisha.

Bule de zisha da Dinastia Qing, decorado com ramos de bambu e caligrafia pelo artista e literato Qu Ziye, que transformou um utensílio do quotidiano  numa refinada obra de arte. Atualmente integra a coleção do Museu de Xangai.
Bule de zisha da Dinastia Qing, decorado com ramos de bambu e caligrafia pelo artista e literato Qu Ziye, que transformou um utensílio do quotidiano numa refinada obra de arte. Atualmente integra a coleção do Museu de Xangai. FOTO: D.R. / Macao Daily News

A partir do seu legado, os artesãos desenvolveram uma enorme diversidade de estilos: formas geométricas, modelos quadrados ou em gomos, e peças decoradas com poesia, caligrafia e pintura gravadas na superfície. Outros foram buscar inspiração à natureza, transformando a tampa numa flor em relevo ou a asa num ramo de bambu. Ao longo dos séculos, os bules de zisha tornaram-se objetos muito apreciados por literatos e colecionadores, reunindo funcionalidade, valor artístico e um profundo sentido de harmonia com a natureza.

Ao visitar Yixing, vale a pena provar o chá de Yangxian, uma especialidade local oferecida à corte imperial desde a Dinastia Tang (século VII). O sabor é particularmente requintado quando preparado num bule de zisha com a água pura da nascente junto ao Templo Jinsha.

Muito antes de Gongchun, o grande poeta Su Dongpo, da Dinastia Song, já elogiava precisamente a combinação do chá de Yangxian com o bule de Yixing e a nascente de Jinsha, conjunto a que chamou os “três tesouros do chá de Yixing”. Séculos mais tarde, Gongchun viria a conferir aos bules de zisha a forma artística pela qual hoje são conhecidos. Ao longo dos séculos, esta união entre bom chá, bom bule e boa água inspirou inúmeros poemas e obras literárias.

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