Os antigos chineses consideravam que o bule de zisha era o melhor utensílio para a preparação do chá, que adquiria um sabor único quando nele preparado. Mas o que torna estes bules tão especiais?A resposta está na matéria-prima. Zisha, literalmente “areia púrpura”, é o nome de uma argila característica de Yixing, rica em ferro, de textura fina e tonalidade naturalmente púrpura-avermelhada. Apesar do nome, esta argila nem sempre é púrpura, podendo apresentar tonalidades que, consoante a temperatura da cozedura e as técnicas de fabrico utilizadas, vão do castanho-avermelhado ao cinzento-escuro.A característica mais singular do bule de zisha é que, depois de cozido, não recebe qualquer camada de esmalte. A superfície permanece ligeiramente porosa, com poros microscópicos semelhantes aos da pele humana, sendo precisamente esta estrutura que lhe confere propriedades únicas.Em primeiro lugar, ajuda a preservar o aroma natural do chá. Ao contrário da porcelana vidrada e de outros recipientes impermeáveis, o zisha não interfere com os compostos aromáticos das folhas, nem favorece o sabor excessivamente cozido que pode surgir quando a infusão permanece demasiado tempo no bule, contribuindo também para que o chá conserve a frescura durante mais tempo.Em segundo lugar, com o passar dos anos, o interior do bule absorve lentamente uma pequena quantidade da infusão, pelo que se diz que “ganha memória” com o uso continuado, libertando um ligeiro aroma das infusões anteriores, mesmo quando se enche apenas com água quente.Por fim, o bule de zisha adapta-se muito bem a diferentes temperaturas. No inverno resiste à água a ferver sem rachar e no verão mantém uma temperatura exterior confortável ao toque. À medida que vai sendo utilizado, a sua superfície adquire um brilho cada vez mais acetinado e o chá preparado no seu interior ganha um sabor mais rico e harmonioso..A técnica tradicional de fabrico dos bules de zisha de Yixing é a única de cerâmica chinesa ainda existente em que o corpo da peça é moldado por batimento manual. Ao contrário da cerâmica ocidental, geralmente moldada na roda de oleiro, ou de outras tradições, que recorrem à sobreposição de rolos de barro, o artesão começa por transformar a argila em placas finas com pequenas espátulas de madeira. Em seguida, monta cuidadosamente o corpo do bule, peça a peça, como um tanoeiro montando um barril ou um alfaiate cosendo uma peça de roupa.Da argila ao produto final são necessárias dezenas de etapas, num processo que exige enorme precisão, paciência e experiência. Mais do que uma técnica artesanal, este saber-fazer reflete a forma como os chineses entendem o chá e a arte de viver.A história do bule de zisha remonta à Dinastia Song (séculos X-XIII), mas foi em meados da Dinastia Ming (século XVI) que esta arte floresceu verdadeiramente. Entre as histórias sobre a sua origem, a mais conhecida é a de Gongchun. Embora peças de zisha já fossem produzidas em Yixing antes da sua época, a tradição atribui-lhe a criação do estilo artístico que marcou profundamente a evolução deste tipo de cerâmica. Ao serviço de um estudioso que residia temporariamente no Templo Jinsha, em Yixing, Gongchun aprendeu com um monge a arte de fabricar bules. No entanto, não se contentou em produzir simples utensílios, procurando antes elevá-los à categoria de objetos de valor artístico.Conta a tradição que, enquanto observava um antigo ginkgo junto ao templo, Gongchun reparou num nó no tronco da árvore. Inspirado por essa forma criada pela natureza, moldou um bule que reproduzia o aspeto do tronco e gravou na sua superfície as respetivas texturas. O resultado rompeu com a simetria dos utensílios comuns, transmitindo uma sensação de naturalidade e espontaneidade.Gongchun convivia frequentemente com estudiosos e literatos, entre os quais as suas criações despertaram admiração. Os intelectuais da época apreciavam particularmente a beleza irregular das pedras naturais, e os seus bules correspondiam na perfeição a esse ideal estético. Assim, a fama de Gongchun espalhou-se rapidamente, sendo hoje considerado o fundador da arte do bule de zisha..A partir do seu legado, os artesãos desenvolveram uma enorme diversidade de estilos: formas geométricas, modelos quadrados ou em gomos, e peças decoradas com poesia, caligrafia e pintura gravadas na superfície. Outros foram buscar inspiração à natureza, transformando a tampa numa flor em relevo ou a asa num ramo de bambu. Ao longo dos séculos, os bules de zisha tornaram-se objetos muito apreciados por literatos e colecionadores, reunindo funcionalidade, valor artístico e um profundo sentido de harmonia com a natureza.Ao visitar Yixing, vale a pena provar o chá de Yangxian, uma especialidade local oferecida à corte imperial desde a Dinastia Tang (século VII). O sabor é particularmente requintado quando preparado num bule de zisha com a água pura da nascente junto ao Templo Jinsha.Muito antes de Gongchun, o grande poeta Su Dongpo, da Dinastia Song, já elogiava precisamente a combinação do chá de Yangxian com o bule de Yixing e a nascente de Jinsha, conjunto a que chamou os “três tesouros do chá de Yixing”. Séculos mais tarde, Gongchun viria a conferir aos bules de zisha a forma artística pela qual hoje são conhecidos. Ao longo dos séculos, esta união entre bom chá, bom bule e boa água inspirou inúmeros poemas e obras literárias. . INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS