Acompanhadas por quatro músicos, Bárbara Rocha, Matilde Viegas, Cátia Tavares e Sofia Cardoso sobem ao palco trajadas a rigor para vestir a pele de Lena Coelho, Laura Diogo, Teresa Miguel e Fátima Padinha.
Acompanhadas por quatro músicos, Bárbara Rocha, Matilde Viegas, Cátia Tavares e Sofia Cardoso sobem ao palco trajadas a rigor para vestir a pele de Lena Coelho, Laura Diogo, Teresa Miguel e Fátima Padinha. FOTO: Ricardo Guedes/Plateia d'Emoções

Bárbara, Matilde, Cátia e Sofia vestem a pele das Doce em tributo a uma banda “muito à frente do seu tempo”

No sábado, o Casino Estoril recebe a estreia nacional deste espectáculo de homenagem à primeira 'girl band' portuguesa. O DN esteve à conversa com as quatro cantoras e atrizes que interpretam Lena Coelho, Laura Diogo, Teresa Miguel e Fátima Padinha em palco.
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Cátia Tavares não tem dúvidas: o concerto tributo às Doce do próximo sábado no Casino Estoril é uma forma de dar a conhecer a banda constituída por Fátima Padinha, Teresa Miguel, Lena Coelho e Laura Diogo às gerações mais novas. “Não há adolescente que não conheça Bem Bom ou Amanhã de Manhã, mesmo que não saiba dizer ‘esta música é das Doce’”, explica a cantora e atriz, numa conversa por Zoom a partir do Porto. Mas o espectáculo, no qual Cátia e as amigas Matilde Viegas, Sofia Cardoso e Bárbara Rocha vão vestir a pele das Doce tem também um outro propósito: “Queremos agradecer o trabalho delas, agradecer o que elas fizeram na geração delas por nós, enquanto mulheres, pelo empoderamento feminino”.

Sofia concorda com a amiga e garante: “As Doce eram muito à frente do seu tempo. E isso faz com que hoje em dia elas caibam perfeitamente na nossa sociedade, no que são os nossos valores, naquilo que é a nossa época”. “Na verdade ela já cabiam no seu tempo, era só preciso abrir um pouco a mente”, diz a cantora, tal como as amigas de uma geração que só mais tarde contactou com a música das Doce.

Cátia Tavares (Teresa Miguel), Sofia Cardoso (Fátima Padinha), Bárbara Rocha (Lena Coelho) e Matilde Viegas (Laura Diogo) vão subir ao palco num espectáculo produzido pela Plateia de Emoções, que desde 2015 se dedica a produzir musicais e outros espectáculos culturais. Um dos fundadores da empresa é Fernando Tavares, diretor artístico e, como o próprio já esclarecera, com manifesto orgulho, numa conversa prévia, pai de Cátia.

Fernando junta-se a nós, também por Zoom, para explicar que escolher quem interpretaria quem não teve dificuldade. A escolha foi dele, da mulher, Paula, CEO e produtora executiva da Plateia de Emoções, e da filha Cátia, também produtora executiva da mesma empresa. “Depois foi fazer os convites e esperar que elas aceitassem”, remata.

Questionadas sobre o que foi mais difícil na tarefa de encarnar as quatro Doce, num ponto todas concordam: um dos aspetos mais desafiadores foi captar a energia das cantoras originais. Matilde Viegas admite que sente algumas afinidades com Laura Diogo, apesar de ter noção que teve de controlar o seu excesso de energia. “Por vezes em palco, nas coreografias, tenho de me controlar um bocadinho. Ela era mais tranquila do que eu”, conta.

Também Bárbara destaca o desafio de “coordenar as energias das quatro” em palco, mas refere alguma escassez de informação sobre as Doce originais. “Não existe tanta informação assim disponível, acabámos por passar muito tempo a ver os vídeos da altura”, explica. E admite que o facto de Fátima Padinha, Teresa Miguel, Lena Coelho e Laura Diogo as poderem ver aumenta ainda um pouco mais a pressão, não só porque “estamos a tentar ser o mais fiéis possível” às Doce, como “vamos tentar que elas gostem e que todo o público goste” do espectáculo.

Se a formação original da banda vai ou não estar na plateia no Casino Estoril, Fernando Tavares admite que não sabe, mas o diretor artístico da Plateia de Emoções confirma que as quatro foram convidadas a assistir. Um convite que, explica, ficou a cargo da White Sounds, a produtora de Nuno Branco que leva o concerto ao Casino Estoril, mas também ao Coliseu do Porto, a 11 de outubro, e ao Multiusos de Guimarães, a 20 de dezembro.

Sentada ao lado de Cátia antes de mais um ensaio para o concerto de sábado, Sofia garante: “revejo-me muito na Fá”. E brinca: “Acho que a única coisa que nós não temos em comum é que ela diz que é muito boa a geografia e eu sou péssima!” “Foi muito fácil chegar aos trejeitos dela, à forma como ela dança, mas juntar isso como canto e com cada uma de nós é um desafio”, explica ainda.

Cátia também sublinha as semelhanças com a “sua” Doce. “Eu olho para a Teresa Miguel e sinto que temos muitas parecenças”, diz, antes de também brincar: “até já usei a mesma cor de cabelo que ela tinha”.

Revivalismo da pop dos anos 80?

Consideradas a primeira girl band portuguesa, as Doce separaram-se em 1987, depois de oito anos de atividade artística em que concorreram por quatro vezes ao Festival RTP da Canção, tendo ganho em 1982 com Bem Bom, canção com a qual representaram Portugal na Eurovisão desse ano, em Inglaterra.

As Doce venceram o Festival RTP da Canção em 1982 com Bem Bom.
As Doce venceram o Festival RTP da Canção em 1982 com Bem Bom.Foto: Arquivo DN

Bem Bom é também o nome do filme sobre as Doce realizado em 2020 por Patrícia Sequeira.

Num altura em que está nas salas Playback, o filme de Sérgio Graciano sobre Carlos Paião, e quando António Variações também já teve um biopic no cinema, podemos falar de um revivalismo da pop portuguesa dos anos 1980? Fernando Tavares acredita que, de certa forma, sim. E não só da pop portuguesa. “Há muitos tributos aos ABBA, muitos tributos aos Pink Floyd. Eu creio que os anos 1980, em termos musicais, foram os melhores anos da música pop”, garante o diretor artístico da Plateia de Emoções para quem Bohemian Rhapsody, dos Queen, “talvez seja mesmo uma das melhores músicas escritas na história”.

Mas se acredita que “a música dos anos 1980 nunca desapareceu”, Fernando admite que muitas vezes os mais jovens “até conhecem as músicas, mas não sabem quem canta”. Quanto ao revivalismo, diz, “parte de pessoas mais velhas, que lançam a semente” para dar a conhecer esse universo aos mais jovens.

As Doce foram uma das bandas que marcaram o panorama musical português dos anos 1980. E também fora da música, com uma forte afirmação dos direitos e liberdades das mulheres. “Este projeto também é isso, levar os mais jovens a dizer ‘é pá, em 1979 elas já faziam isto!’ Porque as letras das Doce eram extremamente arrojadas”.

Nascido na Venezuela, Fernando recorda como mesmo naquele país a música das Doce chegava à comunidade portuguesa. “Aos domingos havia uma rádio que dava futebol e havia momentos em que passava música. Eram músicas mais antigas, Fernando Farinha ou Amália, mas nessa altura já passavam também Carlos Paião, as Doce ou José Cid”.

Fernando Tavares garante que músicas das Doce têm "muito trabalho musical".
Fernando Tavares garante que músicas das Doce têm "muito trabalho musical".

Quando se mudou para Portugal, no início dos anos 1980, Fernando também se recorda de ver as Doce na televisão. E destaca o quanto a banda trabalhava as músicas. “Parecem músicas quadradas, mas não são. São canções com muito trabalho musical.” E, numa altura em que as condições técnicas eram mais limitadas, o diretor artístico recorda também como a banda foi “das primeiras a fazer tours pelo país, e também no estrangeiro.

Antes de deixar Bárbara, Matilde, Cátia e Sofia seguirem para o ensaio, tempo ainda para pedir a cada uma para darem uma razão para irem assistir ao concerto. Cátia escolhe apenas uma palavra: “inspiração”, antes de acrescentar: “diversão e inspiração”. Para Sofia, o concerto deste sábado é “uma viagem no tempo e a conexão de gerações”. Matilde, por seu lado, optar por destacar “nostalgia”. E Bárbara? “Venham, para perceberem o quanto vocês já conhecem as músicas, mesmo as gerações mais jovens. Venham viver esta música e perceber como ela ainda nos move hoje.”

Acompanhadas por quatro músicos, Bárbara Rocha, Matilde Viegas, Cátia Tavares e Sofia Cardoso sobem ao palco trajadas a rigor para vestir a pele de Lena Coelho, Laura Diogo, Teresa Miguel e Fátima Padinha.
“Não vão sair do filme a achar que já sabem tudo sobre a vida do Carlos Paião”
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