O Sérgio tinha 12 anos quando Carlos Paião morreu, em 1988. Cresceu a ouvir as músicas dele?Cresci. Crescemos todos. A minha geração tratava por “tu” o Carlos Paião. Eram músicas que davam na escola... Eu acho que o Carlos Paião sempre foi um cantor muito transversal. As suas músicas chegavam aos mais velhos e aos mais novos, por isso, naturalmente, que eu também as ouvia.Quando ele ganhou o Festival da Canção com Playback, em 1981, o Sérgio era muito pequeno. Mas tem alguma memória desse momento? Ou será mais uma memória reconstruída?Eu acho que há sempre alguma coisa do momento que o romantismo nos traz. Mas tenho exatamente a ideia de ele ter ganho cá e depois ter ficado em penúltimo lugar lá fora [em Dublin]. Lembro-me perfeitamente, como se fosse ontem. A minha casa era uma casa musical, com vinis e com cassetes, e era natural que eu tivesse contacto com o Carlos Paião desde cedo.O estilo dele era bastante original…Era. Era uma altura em que a música em Portugal deixou de ser música de intervenção e passou a ser outro tipo de música. Com o David Ferreira, o Tozé Brito e o Mário Martins. Uma data de gente que apareceu e que transformou a música portuguesa dos anos 1980 numa música pop, também com António Variações, por exemplo.Saltando umas décadas para a frente, como surgiu a oportunidade de fazer este filme sobre Carlos Paião?Esta ideia nasce do autor, o Mário Cenicante, que falou com o José Amaral, que é o meu sócio na produtora, a Caos Calmo Filmes. O José falou comigo e eu falei com o Mário e começámos a encontrar-nos com a viúva do Carlos Paião, a Zaida. Foram três anos nisso. Fomos começando a aperfeiçoar a ideia. Eu quis muito chegar ao Carlos Paião através da cabeça dela e foi isso que fui fazendo. Não só com ela, mas também com o marido atual dela, o Carlos, e com a prima dela, a Marisa, que também aparece no filme. A partir daí fomos construindo um guião..Ter alguém como a Zaida, que viveu com Carlos Paião, que conviveu com ele, que sabe o que se passava na cabeça dele, foi essencial para fazer este filme?Sim, era tudo isso que eu queria. A única pessoa com quem eu quis falar foi com a Zaida. Na minha primeira aproximação à história, eu tenho sempre tendência a querer falar com toda a gente, mas a partir do momento em que fui falando com ela, só aquela história me interessava. Interessou-me mais a história de amor, a história daquela pessoa, e o que ela deixou cá, do que outra história qualquer.Ao fazer essa pesquisa para o filme, houve algum aspeto da vida de Carlos Paião que o tenha surpreendido?Descobri, na verdade, que ele não era só um cantor popular, era um cantor com muita profundidade. Eu se calhar tinha pouca maturidade na altura para perceber aquelas letras, mas hoje em dia, com a distância, percebo perfeitamente. Eram críticas, eram sátiras, ele era muito mordaz na escrita. E depois também descobri uma certa melancolia na cabeça do Carlos Paião. E muito versátil…Muito versátil. Lá está a profundidade. E com uma construção rítmica incrível, as letras eram incríveis, era um cantor de mão cheia, só que, talvez por ser popular, as pessoas não se ligassem tanto à profundidade que ele tinha..Quando viu o Rafael Ferreira, soube que tinha encontrado o seu Carlos Paião?Sim, sim. Foi um casting nacional e havia imensos atores que cantaram a música. Ele chamou a atenção porque cantava bem. Eu já o conhecia de ter feito uma coisa muito pequenina comigo, e depois, quando ele foi fazer o casting presencial, foi muito melhor que os outros, e eu tive a certeza que era ele.E agora que já viu o resultado do grande ecrã, confirmou que não se enganou?Não, não me enganei. Se bem que o Rafael é diferente do Carlos Paião. Ele está no filme com bochechas falsas, com nariz, com dentes, com sobrancelhas cortadas. Mas eu acho que um ator não é só imitar, é preciso compreender realmente o que está a fazer. E acho que isso é que foi diferente, porque o Rafael percebeu exatamente quem era o Carlos Paião. Depois, nós temos a tendência de afastarmo-nos das semelhanças físicas. Se ele fizer bem o seu trabalho, nós achamos que ele é perfeito e que é igual ao Carlos Paião.O filme inclui uma música inédita, recuperada a partir de maquetes caseiras deixadas por Carlos Paião. E tem uma forte componente musical. Mas o Sérgio não o definiria como um musical? Eu tenho muita dificuldade em catalogar este filme. Não sei se é um musical. Não diria que é um musical. Acho que é uma proposta musical. Mas também não acho que seja um biopic. Acho que o filme navega numa série de géneros e eu ainda não encontrei o certo para o descrever. Mas espero que as pessoas ao verem-no consigam encontrar. Eu quis que o filme tivesse uma grande componente musical, claro, porque o Carlos Paião era cantor, são as músicas dele. E acho que o filme tem essa componente e a música funciona como narrativa no filme, não é só um videoclip. A história avança quando entram as músicas. Ainda assim, eu tenho dificuldade em dizer que é um filme musical.Não sendo, como diz, um videoclip, os momentos musicais não deixam de ter uma espécie de encenação...É verdade, mas não deixa de ser uma questão narrativa. Mas sim, é verdade, é uma zona mais lúdica do filme, se quisermos, e definitivamente onírica, mas que serve o propósito do filme..Antes de voltar à parte onírica, Playback conta com a produção musical de The Legendary Tigerman que deu nova roupagem aos temas de Carlos Paião. Mesmo se não é logo óbvio quando se ouve as músicas…É porque ele respeitou imenso o Carlos. Eu acho que o Tigerman soube assinar perfeitamente as músicas, porque se percebe que aquilo tem qualquer coisa de diferente. A melodia é a mesma, e eu acho tão difícil manter aquela melodia, aquele romantismo do Carlos Paião. Mas o Tigerman manteve tudo e ainda acrescentou. É um Paião de 2026, com guitarras mais pesadas, mas com muito respeito pelo artista. O Tigerman fez aquilo de uma forma exemplar.E o espetáculo “Playback - Paião por Tigerman”, com o Rafael a cantar, estreou-se no NOS Alive. Esta é uma forma de apresentar as músicas de Carlos Paião às novas gerações?Sim. E que não seja só ouvido nos jardins de infância. Acho que é super importante revitalizar este artista, voltar a mostrá-lo com outro propósito. Já passaram quase 50 anos desde Playback. Eu acho que faz sentido que ele seja falado e que seja ouvido acima de tudo e admirado. As coisas hoje são muito diferentes do que eram na altura. A mão era muito mais pesada nos anos 1980 relativamente a estes artistas pop, que não eram artistas de intervenção. Hoje em dia já passou algum tempo, já aceitamos de outra maneira.Era um Portugal muito diferente naquela altura…Muito diferente. O pós-25 de Abril, depois de anos de uma ditadura, não era nada fácil, a comunicação não era a mesma. Mas o papel destes artistas era muito importante e finalmente, percebe-se o quão importantes foram na década de 1980 para o que Portugal é hoje.O próprio filme acaba por mostrar este Portugal dos anos 1980, entre o conservadorismo e a liberdade. Mesmo se para irem juntos a Dublin, Carlos e Zaida tiveram de casar, para conseguir a aprovação da família….Sim, é a liberdade dos anos 1980. Era fazer o que era preciso fazer. Mas apesar de tudo, eu lembro-me, porque tinha já idade para perceber as coisas, de uma liberdade que não existe hoje. Hoje há uma liberdade completamente diferente. E eu, acima de tudo, quis mostrar a liberdade da altura, porque era total. É isso, é o “vamos casar” e passados três dias estão a casar, com seis amigos. .Já falámos há pouco de uma certa vertente onírica, ou quase sobrenatural… Como surgiu a ideia de incluir também esse lado?A priori não tinha pensado nisso. A partir do momento em que fui começando a ter estas conversas com a Zaida, comecei a aperceber-me que havia ali uma pessoa com muitas coisas na cabeça, comecei a ter muito contacto com as letras do Carlos Paião, e isso levou-me para aquele lado mais onírico. Foi algo que se foi construindo na minha cabeça. Eu quis também passar um bocadinho da melancolia do Carlos, que acho que ele tinha, para o filme. Dizia há pouco que este filme não é um biopic. No entanto, os biopics estão na moda e muitos centrados em figuras do mundo da música, desde Michael Jackson, Bob Dylan, Elton John, Elvis, Freddie Mercury, etc... É espectador desse tipo de filme, ou não é uma coisa que lhe interesse?Se for muito fã do artista, quero ver. Ou então quando é uma proposta muito diferente. Por exemplo, Springsteen: Deliver Me From Nowhere tem uma abordagem completamente diferente e isso interessou-me. Quando há uma certa abordagem, quando não conhecemos a pessoa a 100%, eu tenho tendência de querer ver. E com Carlos Paião, se já achávamos que ele era um homem misterioso, quando acabamos de ver o filme ainda vamos achar que ele era mais. Não vão sair do filme a achar que já sabem tudo sobre a vida do Carlos Paião, nem eu tenho esse interesse. O meu interesse é provocar as pessoas para pesquisarem e procurarem. E houve algum filme que o tenha inspirado para este Playback?Sim, One from the Heart/Do Fundo do Coração, do Francis Ford Coppola. Eu diria que é o filme que me inspira mais, por aquela atmosfera. Jesus! Porque também não é um filme muito expectável. Eu fiquei muito preso ao filme. Não foi na altura, claro [estreou em 1981], mas mais tarde. Mas fui revê-lo e pensei “ok, era uma coisa mais ou menos com este mood que eu gostava de fazer”. Revi Minnelli, revi isso tudo e até havia algumas coisas que me serviram. Mas eu diria que foi aquele filme de Coppola onde me inspirei mais.O que é que foi mais difícil neste Playback?O mais difícil é tudo que se aproxima da realidade porque a responsabilidade é maior. E aí eu sinto mais um bocadinho o peso do Carlos Paião. Tudo quanto é mais livre, estou mais à vontade para fazer a minha construção.Playback está agora nas salas. Algum novo projeto?Sim, vou estrear outro filme no mês de outubro que se chama Memórias do Cárcere. É um filme sobre Camilo Castelo Branco, que é produzido pelo Paulo Branco. É uma proposta completamente diferente de Playback. Não tem nada a ver. Mas é isso que me interessa, fazer projetos diferentes..Músicas de Carlos Paião reinterpretadas por Tigerman. Espetáculo sobe duas vezes ao palco no NOS Alive .Filme "Playback" sobre Carlos Paião estreia-se em mais de 50 salas