"Na história da literatura há livros que ficam na margem, não porque sejam menos importantes, mas porque escapam à nossa atenção e acabam por ser preteridos. É o caso do Lazarillo de Tormes e de Robinson Crusoé”, diz Francisco José Viegas, diretor da Quetzal, explicando a razão de ser dos primeiros dois títulos da nova coleção batizada com o nome A Biblioteca de Alexandria.Acrescenta o também escritor, partilhando o mérito da escolha com um nome grande da atual literatura colombiana: “Pessoalmente sempre achei que eram dois livros importantes da nossa literatura, e deveriam estar no topo de qualquer história do romance europeu, mas não me apercebi até que ponto. Um dia ouvi Juan Gabriel Vázquez a falar sobre o assunto e para ele eram também os dois romances fundadores do romance europeu. O Lazarillo foi publicado 50 anos antes do Quixote, e era a primeira vez que se lia uma história escrita na primeira pessoa, mas em que ‘quem contava’ não podia ser o ‘autor’, mas alguém por ele, ou seja, fingindo ser outra pessoa... Este é o princípio absoluto da literatura. Fingir que se é aquela pessoa do livro. É o princípio da apropriação cultural, da violação daquela ideia imbecil da apropriação cultural. Porque sem apropriação cultural, sem falarmos em nome de outra pessoa, não temos literatura. Flaubert nunca poderia ser a Madame Emma Bovary, a Jane Austen nunca poderia falar em nome de Mr. Darcy, o anónimo que escreveu o Lazarillo nunca poderia ser o Lazarillo (que, aliás, não sabia escrever), o Daniel Defoe nunca poderia pôr o Sexta-Feira a falar. No caso do Defoe há esse pormenor delicioso: ‘Chegou-nos esta história, mas não sabemos se é verdadeira.’ Isto é maravilhoso: inaugura-se uma discussão sobre literatura e verdade, sobre o lugar do outro (e o dever de nos apropriarmos desse lugar), e sobre a criação da voz do narrador”.Esclarece ainda Viegas, que, claro, “isto já existia noutros exemplos da literatura mais antiga, chinesa e japonesa, mas na Europa acho que o Lazarillo inaugura o romance como nós o conhecemos hoje, e que o Quixote vai reestabelecer depois. Juan Gabriel Vázquez escreveu sobre isto um livro maravilhoso, A Tradução do Mundo. E é por isso que começámos assim A Biblioteca de Alexandria”.Pedi a Luís Castro Mendes, embaixador e poeta, que comentasse o Lazarillo, obra do século XVI (nesta edição, traduzido por Margarida Amado Acosta), popular em Espanha, como é natural, mas ainda por descobrir em Portugal: “O herói picaresco não é um exclusivo da literatura ibérica. Mas é na literatura em língua castelhana dos séculos XVII e XVIII que mais se afirma e desenvolve este tipo de novela, à volta de um protagonista de baixa extração, que vive de expedientes e transita cinicamente entre as diferentes classes sociais, lisonjeando, mentindo e, quanto possível, roubando. O Lazarillo de Tormes é considerado o primeiro grande personagem pícaro, o anti-herói por excelência, dando origem a uma riquíssima tradição em várias línguas”.Sobre o Lazarillo [numa anterior tradução, José Bento optou por Lazarinho] também procurei uma opinião espanhola, a de Richard Bueno Hudson, diretor do Instituto Cervantes de Lisboa: “A Vida de Lazarillo de Tormes e Suas Fortunas e Adversidades inaugura o romance picaresco, introduz o realismo social e apresenta um narrador autobiográfico e irónico. Foi um dos primeiros best-sellers (1554), com forma de ‘caso’ judicial e forte sátira social. A sua ambiguidade moral e o final aberto, juntamente com a sua influência europeia, lançaram as bases para o romance moderno após Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.”A Biblioteca de Alexandria da Quetzal traz agora A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, romance do qual Viegas faz defesa apaixonada: “Fico especialmente comovido com o A Cidade e as Serras, porque mesmo parte dos queirosianos se perdem muito em questões laterais - sobre se o Ramalho Ortigão foi fiel a Eça e se não alterou o texto, e se nas edições posteriores houve trapalhadas ou não (a edição da Helena Cidade Moura é uma preciosidade), mas esquecem uma coisa essencial: é um livro da maturidade de Eça, confirma um dos nossos maiores humoristas, um contemplativo (que é uma coisa nova), um autor que pressente e celebra o ocaso da sua vida, um romântico tardio... Não, A Cidade e as Serras não é nada uma obra menor...Nem percebo por que razão não está ao lado de Os Maias (mas um pouco abaixo...) nas leituras do Secundário, em vez de A Ilustre Casa de Ramires”.Também Castro Mendes, antigo ministro da Cultura, não poupa palavras no elogio a A Cidade e as Serras: “O romance, publicado postumamente, de Eça, contém uma crítica acerada da civilização material e espiritual da Europa dos finais do século XIX, marcada pelo triunfo do capitalismo europeu e pela transformação gerada pela nova civilização industrial. Ao contrário da interpretação que se quis fazer prevalecer, não é um elogio, em alternativa, da mansa vida campestre dos portugueses de então. Eça não esconde as horrendas condições de vida dos camponeses de Portugal nem as injustiças sociais da industrialização, que denuncia veementemente, do alto da cidade de Paris. Eça só quer afastar-se de uma civilização que sente em declínio e que, como se diz no romance do seu protagonista Jacinto, ‘sofre de fartura’”.O quarto título da coleção que vai buscar nome à mais famosa das bibliotecas - fundada no século III a.C. e que segundo Castro Mendes era “suposta conter toda a sabedoria do mundo” mas que “foi sendo desfeita através dos séculos pelas armas dos impérios e pelos preconceitos das religiões” - será Anatomia da Melancolia, de Robert Burton. Viegas descreve-o como “outro fenómeno”, e argumenta: “Não se sabe bem se é sobre a melancolia enquanto doença, se é sobre o desejo de melancolia, mas é um livro que resulta de todos os livros que ele leu e anotou - é um livro sobre livros e sobre o elemento essencial do espírito literário moderno, a melancolia.”Para imaginarmos o mais que encontraremos na Biblioteca, eis a pista do editor: “O ponto de partida da coleção é este espírito: conservar as coisas essenciais do mundo antigo e do nosso tempo. Não é uma biblioteca dos grandes clássicos no sentido mais imediato. Vai tê-los, claro. Mas vai começar por textos que abriram caminhos, que celebram a invenção da literatura, a sua liberdade e pluralidade, o espírito da humanidade como ela foi e desejamos que um dia venha a sê-lo de novo”..Guilherme d’Oliveira Martins: “O que distingue e une a Geração de 70 é a ideia de modernizar Portugal”