Entre 1961 e 1974, ao longo de 12 cursos, formaram-se em Portugal 47 enfermeiras paraquedistas que integraram o Batalhão de Caçadores Paraquedistas da Força Área Portuguesa. Foram as primeiras mulheres a entrar nas Forças Armadas, até então um domínio exclusivo de homens. Foi o tenente-coronel Kaúlza de Arriaga quem lhes abriu as portas, incentivado por Isabel Bandeira de Melo, a primeira mulher a saltar de paraquedas na Península Ibérica, em 1956. A principal missão destas enfermeiras era retirar feridos da guerra colonial e acompanhá-los a bordo dos aviões para os hospitais de Lisboa. Na exposição Mais Alto - nome da revista da Força Área Portuguesa -, patente no MAAT Central, em Lisboa, Margarida Correia mostra, através de fotografias, as memórias desses tempos de algumas destas mulheres, tornando-as “visíveis”. A artista fotografou as antigas enfermeiras paraquedistas na atualidade, devidamente fardadas, assim como objetos pessoais que guardaram, como boinas, paraquedas ou botas. Margarida Correia também fotografou fotos dos álbuns pessoais destas mulheres. Nessas imagens podemos vê-las entre os seus colegas homens, a trabalhar ou em momentos de descontração, e em interação com a população local. “Há um lado íntimo, a história através da vida pessoal, da vida quotidiana e banal, que não é nada banal e que tem muitas coisas para encontrar. É a partir daí que eu construo as imagens”, diz Margarida Correia sobre este projeto..A artista olha o contexto da guerra colonial e para o lugar das mulheres naquele tempo através das vivências de antigas enfermeiras paraquedistas como Maria de Lourdes Mota, Maria Arminda Lopes, Rosa Serra Lopes, Eugénia Sousa, Maria Cristina da Silva, Aura Teles ou Maria Emília Sousa, quase todas octogenárias. As mulheres posam com orgulho: “É quem elas são, é a identidade delas. E a vontade de partilhar também tem a ver com isso”, sublinha Margarida Correia. Estas mulheres tiveram a coragem de contrariar as expectativas da sociedade da época e não tiveram uma vida fácil. A historiadora Irene Flunster Pimentel escreve, num texto do catálogo da exposição, que elas “tiveram que se confrontar com a oposição da sociedade e da família, onde a sua profissão era mal vista”. Estas mulheres não podiam ser casadas ou ter filhos, numa altura em que o casamento e a maternidade eram definidores do papel da mulher. .Quando a guerra terminou, diz a historiadora, algumas destas enfermeiras saíram da Força Aérea e prosseguiram atividade em unidades de saúde civis, e outras foram colocadas em funções administrativas ou hospitalares.Mas o estigma permaneceria após a Revolução. “Depois do 25 de Abril não foi fácil para elas. Porque eram chamadas de fascistas, porque elas surgiram no regime, surgiram porque houve uma guerra”, sublinha Margarida Correia.A artista, que iniciou este projeto no âmbito de uma residência artística em Vila Nova da Barquinha, em 2019, criou composições com as fotografias que tirou e selecionou, composições que João Pinharanda descreve como “ensaios visuais”. São composições que revelam “conexões entre imagens banais, quotidianas, sem aura, elementos de uma antropologia de memórias pessoais sem estatuto para ambicionarem compor uma história da arte”, diz o curador no catálogo. A partir delas estabelecem-se novos parâmetros de leitura. “A artista devolve estas fotos, fixadas num período dramático do país, oferecendo-as à análise da crítica atual e situando-as num patamar de análise histórica e sociológica”.Margarida Correia diz que ficou “fascinada pelo tema”, mas também percebeu a “sensibilidade do assunto”, então falou “com toda a gente”, por exemplo, com historiadores. Mas, no final, é sempre o olhar artístico que impera. “Cada vez tenho mais interesse nessas colaborações. Se bem que eu, como artista, não tenho essas barreiras, portanto, para mim é muito interessante entrar na psicologia e antropologia, mas eu posso fazer o que eu quiser, esse é o lado de ser artista, o meu papel é desafiar.” . Como noutros projetos de Margarida Correia, este começou a tomar forma numa visita da artista ao Quartel de Engenharia de Tancos, onde os seus avós e a sua mãe viveram nos anos 1950. “Quis perceber o que é que era a mulher portuguesa neste contexto, o que foi conquistado até agora, e aquelas conquistas que ainda nos faltam. É muito a relação também com a geração da minha mãe e com a minha mãe. Eu perdi a minha mãe quando tinha 20 anos e agora já estou numa altura que já posso olhar para essas coisas do outro ponto de vista, porque já tenho mais de 50”. Em 1975, após a última missão de retirada de portugueses de Timor, deixou de haver enfermeiras paraquedistas na Força Aérea. Apenas em 1988 é que as mulheres viriam a poder ingressar nas Forças Armadas e só em 1991 é que puderam candidatar-se a piloto da Força Aérea. .Mais 60 obras da coleção EDP em exposição: o público não só "merece", como "reclama", diz MAAT .Anna Maria Maiolino no MAAT: Esculturas vivas feitas de pequenos gestos